Economia e Finanças por Waldir Kiel , em 18 de Agosto de 2016

A inescrutável renda fixa brasileira

De todas as modalidades financeiras a renda fixa, sem dúvida, é a mais fácil e ao mesmo tempo a mais difícil. Simples e fácil de calcular e a mais complexa de se avaliar e projetar.

No Brasil o conceito e a prática se perderam desde a execução da política monetária por parte do Banco Central até na distribuição de produtos financeiros que invariavelmente são oferecidos como renda fixa e que na realidade possuem indexadores variáveis como a mediocridade da taxa CDI.

Por motivações evidentes de interesses do setor bancário e sua administração de recursos de terceiros o Banco Central há muito tempo deixou de praticar a verdadeira política monetária que tem como premissa ser executada com títulos pré-fixados. Não o faz por desconhecimento ou então para atender demandas que não são pertinentes a seus propósitos constitucionais. A situação é tão bizarra que deixarei para uma abordagem mais ampla em outro texto.

O mais grave de tudo é que além do conceito primário do que é de fato uma aplicação em renda fixa estar totalmente desvirtuada, sua intensa propagação pela imensa maioria dos ditos educadores financeiros e assessores de investimentos acabam não instruindo o público e por vezes fazendo com que oportunidades de altos rendimentos propiciados pelo cenário recente não sejam devidamente aproveitadas.

Torna-se oportuno insistir no conceito e na prática para melhor entendimento do que é uma aplicação em renda fixa: toda operação que tem prazo e rendimento acordado do início ao resgate, não é por acaso que o valor de resgate é previamente conhecido e a taxa de juros é descontada deste valor para apuração do valor presente.

Fundos de Renda Fixa e títulos com indexadores que variam no tempo não são operações em renda fixa.

A vantagem da renda fixa é saber o quanto de rendimento será obtido até a data do resgate. Não é por acaso que o sistema bancário só empresta recursos com taxas pré-fixadas e nunca em percentual do CDI.

No início do ano quando o as taxas de juros futuras, que servem de referência para a renda fixa, subiram de forma inédita a recomendação corrente era para que o investidor se ancorasse na renda fixa. A imensa maioria seguiu os “conselheiros” que infelizmente não possuem bagagem e conhecimentos da modalidade e acabaram aplicando seus recursos em operações com taxas flutuantes e não em renda fixa.

Perderam uma grande e rara oportunidade de um rendimento fora do comum pré-determinado até a data do resgate da operação.

Enquanto no ano de 2016, de 04/01 a 17/08, o Ibovespa subiu 37% e o acumulado do CDI, referencial de quem alocou suas aplicações em títulos indexados como LCI, LCA, CDB, Debêntures e outras tranqueiras que foram empurradas como renda fixa, foram de 8,64%, vejam os exemplos de rendimentos em Renda Fixa de fato:
<strong>Operações no Tesouro Direto</strong>:
Compra da LTN com vencimento em 01/07/2019 em 04/01/2016 a taxa de 16,66% e vendendo os títulos em 17/08/2016 a taxa de 11,95% ao ano, o rendimento no período foi de 36,44%. Mesma operação para a NTN-F 01/01/2021 comprada a 16,44% e vendendo pelo preço atual de 11,92% a rentabilidade no período foi de 44,28%. Observe que quanto mais longo o prazo maior foi a rentabilidade obtida até o momento.

Recomenda-se que ao investir em renda fixa que mantenha o título até a data de vencimento para assim ter a garantia da rentabilidade contratada no início da operação.

O comparativo foi para demonstrar o quanto os clientes são ludibriados por recomendações de vendedores dos produtos e mal instruídos por alguns chamados “educadores financeiros” na modalidade Renda Fixa.

A solução é o investidor ser mais criterioso e pesquisar antes de decidir por uma aplicação financeira se quem está recomendando tem conhecimento do assunto e não está somente obtendo ganhos de comissão de venda. Além de buscar se instruir financeiramente porque Renda Fixa não é um investimento que tem tanta complexidade para ser tão inescrutável como é hoje no Brasil.