O debate em torno da necessidade inevitável de o Brasil reduzir a taxa básica de juros e os altos spreads bancários para uma nova realidade econômica que se apresenta mostra que todo o sistema de aplicações de recursos, não só a poupança, criado em uma época de hiperinflação, precisa ser revisto. Dentro deste contexto a chamada Educação Financeira passa a ser fundamental.
Ao longo do tempo educar o investidor passou a ser o ensino de uma gama de metodologias operacionais permeadas por glossários explicativos. É evidente que ensinar os vários tipos de análises, conhecer os ativos e as peculiaridades dos mercados onde são operados é muito importante, no entanto, educar financeiramente é ensinar o investidor a pensar. Só tendo uma consciência analítica irá descobrir qual é de fato o seu perfil de investidor, para daí então procurar se fundamentar através do conhecimento técnico e literário estudados, o seu projeto de investimento financeiro.
Importante é definir qual o objetivo a ser atingido. Investir no curto prazo, trader diário, longo prazo, plano de aposentadoria complementar, poupança para aquisição de um bem futuro? Qual o objetivo a ser buscado?
A partir da meta a ser alcançada o próximo passo é entender de fato como as aplicações financeiras se movimentam e quais as peculiaridades que possuem. O longo período de taxa alta de juros no Brasil mascarou uma série de distorções que precisarão ser corrigidas.
Não é só a forma de cálculo do rendimento da poupança que precisa ser refeita, a cobrança de tarifas de serviços bancários e as taxas cobradas na administração de recursos ficarão tão evidenciadas em um novo patamar de juros baixos que serão insustentáveis em um futuro bem próximo. Desonerar as aplicações financeiras e dar maior transparência a seus indicadores é inexorável.
Alguns questionamentos terão que ser respondidos:
- Por que o Brasil pratica uma taxa de juros de curto prazo tão alta, que acaba indexando ativos e desestimulando o verdadeiro investidor a alongar aplicações?
- Qual a razão de se vincular a grande maioria dos investimentos a taxa CDI? Quem se beneficia e quem se prejudica com isso? Exemplo: em 25/05, taxa da meta selic atual 10,25% ao ano, taxa média diária apurada 10,16%, taxa média CDI 9,98%. Isto representa um CDI, a 98,22% da média selic e 97,37% da taxa da meta.
- Por mais que se tente esclarecer o investidor a imensa maioria dos analistas e assessores financeiros, principalmente gerentes da rede bancária, continua indicando operações vinculadas ao percentual do CDI e fundos de investimentos como aplicações em Renda Fixa.
- Seu gerente de conta quer te indicar a melhor aplicação ou vender os produtos que são mais rentáveis aos bancos e aumentam sua comissão?
- Por que a CBLC tem que custodiar e cobrar uma taxa nos títulos adquiridos através do Tesouro Direto se já existe o sistema Selic?
Quando se aplica em um fundo de previdência complementar o risco do cotista, são as seguradoras os bancos que vendem o produto?
Não só estes, mas também outros questionamentos terão que ser enquadrados dentro da nova realidade financeira que se apresenta. Já que são fundamentais para que o investidor saiba com clareza no que está investindo, os custos, retornos e a natureza de seu investimento.
Estar preparado para atuar nos mercados com segurança e sabedoria não é só conhecer todas as técnicas operacionais, é também conhecer o funcionamento e as regras do jogo.
Um exemplo antigo de não educação financeira está no livro Balzac, de Johnnes Willms, lançado no Brasil pela Editora Planeta. Nele o autor conta que o pai de Balzac, Bernard François, perdeu todo o dinheiro que guardava para a aposentadoria porque o banco onde depositava suas economias quebrou e ele então acabou aposentado compulsoriamente aos 73 anos de idade, passando a receber uma modesta pensão. “Desta maneira, os Balzac não tinham outra opção senão simplificar o mais rápido possível seu estilo de vida”
Ser educado financeiramente é atingir um estágio analítico, avaliar e ponderar opiniões. Quando isto acontecer saberá através de seu conhecimento técnico e de experiências anteriores os erros e acertos cometidos. Com isto, de certo, terá mais acertos do que erros e a consciência de que o maior responsável pelo sucesso ou fracasso de seus investimentos é você mesmo!




algumas pessoas preferem tomar para si a responsabilidade de gerenciar o “departamento financeiro” em suas vidas, e penso que esta é uma decisão muito individual. me enquadro neste grupo. mas isso não significa que eu vá ser (ou queira ser…) um expert em previdência, aplicações de todas as variedades etc. o contato com profissionais bem qualificados e bem intencionados é fundamental para que possamos melhorar nosso entendimento e refinar nossas estratégias (quem sabe até objetivos). e neste ponto você toca em uma questão crucial, Waldir. Como é difícil, no Brasil, encontrarmos profissionais com esses dois atributos: qualificação e intenção adequadas..
depender de gerente de banco para alocar investimentos deve ser tão ruim quanto depender de médico para se ter uma vida saudável. deus me livre! de um e de outro. e que fique claro, aqui, que possuo grandes amigos médicos e bancários, a questão não é pessoal e em nenhum momento generalizo à estas classes profissionais a falta de profissionalismo, apenas coloco a questão para reafirmar a idéia de que a responsabilidade, no que se refere ao caminho financeiro e corporal/mental adotado em nossas vidas, é, em grande parte, nossa.
São escolhas pelas quais nos responsabilizamos, e muitas vezes nem nos damos conta. Muitas vezes não vamos atrás de informações, não estamos interessados ou não temos condições de adentrar certos assuntos, e acreditamos no profissional que nos atende, e escolhemos delegar ao alguém do outro lado do balcão, a responsabilidade. Parece até mais fácil.
Como a pauta de nossa discussão aqui é financeira, deixemos de lado a analogia médica, e concentremo-nos em nosso métier. E contremo-nos em nossos gerentes de banco, assessores financeiros e agentes autônomos de investimento, figuras populares na relação mercado financeiro – pessoa física hoje no Brasil. Cuidado com estes profissionais. Muuuuuito cuidado. Seu precioso dinheirinho, pode, de repente, ser alocado em “espetaculares oportunidades de investimento”, que apenas alguns dias depois já se provaram verdadeiras armadilhas ao investidor vítima de profissionais mal informados ou mal intencionados, ou ainda em situação mais trágica, em que aliam estas duas máximas da má qualificação em uma só pessoa.
Vale a pensa sempre pensar nas intencionalidades do profissional do outro lado do balcão. Ganha por porcentagem do seu lucro ou por porcentagem da sua movimentação (corretagem)? Muito cuidado com os profissionais que são eleitos para interferir nestas e outras questões que, no final das contas, são bastante pessoais…
Prezado Waldir, conhecemos bem algumas das respostas colocadas no seu texto, mas, vamos ao que interessa que é a educação financeira.
Como colocado muito bem, os detentores de capital, em geral, vão ter que se debruçar sobre as ofertas de aplicações financeiras apresentadas por seus agentes, gerentes,gestores,administradores de recursos.
Anteriormente as taxas de juros altas, encobriam distorções e remuneravam toda a cadeia, agentes, Bancos, Corretores, e etc..agora não, a taxa de administração do fundo de renda fixa à 2%a.a. é cara para o cotista, a corretagem normal da tabela da bolsa é cara para o comprador de ações e por aí vai..
Mas, no mundo é assim e vamos continuar por muito tempo tendo custos muito altos para remunerar os recursos de quem tem.
Quanto a educação financeira é aprender a poupar..o que nosso povo ainda não sabe, pois nunca teve recursos suficientes para tal.
Porque a Cvm cobra das empresas de agente autonomos taxas trimestrais pessoa fisica e pessoa juridica ??, já que este orgão a muitos anos não tinha nemhum fim lucrativo e hoje tendo não oferece absolutamente nada aos Agentes . Já fiz esta pergunta a varios deptos dentro da Cvm e nenhum conseguiu me responder. Qual a vantagem que nós agentes temos ? Desde já agradeço pela atenção.
Parabéns Sr. Waldir Kiel!
Ótimo texto!
Questões importantes, que interessam a todos!
Muito bem colocadas e analisadas!