Eram os anos 80, não sei precisar exatamente a data. O Banco Central do Brasil atuava com freqüência diária no mercado monetário, com intervenções no “over night”, tomando e doando recursos e no mercado de títulos públicos federais, basicamente LTNs, comprando e vendendo estes títulos. Atuava no sentido de equilibrar a liquidez diária e ou alterar as taxas de juros praticadas. A política monetária era praticada no dia a dia, na sintonia fina.
Esse mercado movimentava uma montanha de recursos diariamente e as taxas flutuavam o dia todo até atingir o patamar idealizado pelo BC. Os meios de comunicações eram precários se comparados aos de hoje, basicamente os telefones, o que tinha de mais avançado eram os concentradores com várias linhas que chegavam ao número de 200, sendo a maioria as chamadas LPs, linha privada direta entre duas participantes, não existiam o advento da internet e os avanços sistemas de operações on-line.
O Banco Central tinha sua mesa de operações no Rio de Janeiro, as empresas estatais, os grandes fundos de pensão, as principais mesas de operações da grande maioria dos bancos e os principais dealers (instituições financeiras autorizadas a operar diretamente com o banco central) também tinham sua base na Cidade Maravilhosa. A relação entre os participantes do mercado era muito estreita e pessoal. O Rio de Janeiro era o centro financeiro do país à época.
Instituições financeiras competiam entre si para ganhar no giro da grana e do papel diariamente, buscando maximizar rentabilidade nas posições de títulos públicos que costumam carregar.
Naquela época as corretoras e distribuidoras também podiam carregar posições em títulos, públicos e privados. Por isso os brokers (intermediadores), distribuidoras e corretoras não buscavam apenas seu ganho executando ordens. O giro era fantástico e competitivo ao extremo.
Quem não aplicava no longo prazo corria o risco da volatilidade do curto.
A política monetária era ativa e a taxa de juros causa efeito em toda economia.
O Banco Central atuava através de sua mesa de operações do Demab, Departamento de Operações de Mercado Aberto com diretrizes e objetivas traçadas pela Política Monetária objetivada.
A atuação era feita da seguinte forma: O gerente do Demab e seus operadores ligavam direto para os dealers, consultando a taxa de juros praticada naquele momento pelo mercado nas operações de over night (operações de um dia) e a cotação das LTNs de prazo de resgate mínimo de 7 dias e máximo de 2 anos, diante de determinada política, atuavam tomando/doando recursos e ou comprando e vendendo títulos através de ordens agressivas imediatas e sem aviso prévio.
Em uma mesa de instituição dealer mais de 100 luzes dos aparelhos telefônicos piscavam sem parar e ao mesmo tempo, cada uma delas representava normalmente uma linha privada com outra instituição.
Como as atuações vinham ao mercado através dos dealers, à maioria das outras instituições financeiras só tomavam conhecimento quando sentiam que os mercados estavam mudando a tendência rapidamente. Com o passar do tempo o Demab, visando aperfeiçoar as atuações, ligava para as instituições dealers e dizia qual era a atuação imediata, tomando ou doando recursos e ou comprando ou vendendo títulos públicos.
Isto criou um grande problema, algumas instituições credenciadas faziam por se beneficiar do privilegio de saber das atuações antes da maioria das demais não avisando o mercado e antecipando o que a autoridade monetária iria fazer. Na linguagem de mercado “procuravam sair na frente”, mesmo não sendo uma postura ética.
Convém lembrar que à época o Banco Central remunerava os dealers em suas atuações com um pequeno spread nas operações.
Esse insider de alguns dealers gerou uma enxurrada de reclamações junto à mesa do BC e seu diretor passou a buscar uma forma mais justa e democrática nas atuações.
Foi então, que numa conversa com um operador de um dos dealers com o chefe da mesa do Demab, onde esse chefe mostrou sua preocupação com o problema, que este operador sugeriu: que toda vez que o BC fosse atuar que ele o fizesse dando um aviso prévio, tipo um aviso em X minutos, depois comunicasse qual seria o tipo de atuação. O gerente do Demab questionou – mas esses dealers irão imaginar a atuação e antecipar assim mesmo, o operador então propôs: faça algumas atuações incertas que gerem riscos ao insider no início, que certamente esses passarão a aguardar o que de fato será feito.
A sugestão foi levada ao diretor de Política Monetária do Banco Central que aprovou a forma de atuação que logo se iniciou com um surpreendente comunicado via telefone aos Dealers: AVISO EM DOIS!
Assim surgiu a famosa frase Aviso em Dois, em dois minutos.
O instrumento mais tarde passou também a ser utilizado por atuações na área de câmbio do BC, vigorando até os dias de hoje.
Com o uso constante da frase, algumas pessoas ligadas ao mercado passaram a agregar ao cotidiano fora do trabalho: Vai demorar? Não, aviso em dois está indo; Estou saindo para o restaurante – Vai indo lá que aviso em dois estarei chegando; Meu bem a dispensa está “zerada” – Sem problemas, aviso em dois vou ao supermercado.
Esta é a historia da famosa frase ouvida quase que diariamente pelo mercado toda vez que o Banco Central tem uma atuação ou um fato relevante para anunciar.
Uma historia de busca de transparência e democratização da informação.
Por isso a escolha deste nome para o site.
O Aviso em Dois foi uma das primeiras formas de atuação do Banco Central, democrática e transparente, mesmo em uma época na história do Brasil onde transparência e democracia viviam um momento de escassez.
Ao anunciar um “Aviso” o Banco Central passou a executar o equivalente a uma rápida licitação de preços competitivos nos mercados.
Para quem não é participante ou desconhece o mercado financeiro, avisar que fará uma atuação é equivalente, por exemplo, a Cia de Água e Esgoto de um determinado local, ao invés de comunicar apenas a alguns poucos que em determinado período de tempo irá faltar água, dar um “Aviso” geral a toda população desta localidade.
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