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Um cineasta pra lá de japonês

 

Se Kurosawa foi um cineasta japonês que usou temas ocidentais, Yasujiro Ozu foi o mais japonês dos cineastas. Depois de São Paulo umas retrospectivas de seus trabalhos estão sendo apresentados desde ontem no CCBB- Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro.

“Emoção e Poesia” apresentam 35 filmes de Yasujiro Ozu. O título da retrospectiva “Emoção e Poesia” dão a dimensão desse cineasta descoberto há pouco por nós brasileiros, onde a emoção dos pequenos gestos e a poesia de como vê a vida o transformaram num diretor referencia. Ozu realizou 53 longas, uma filmografia caracterizada por um perfeccionismo e delicadeza inconfundíveis e que deixou um legado imenso no cinema mundial. Em seus filmes, a câmera praticamente não se movia. Também ficava posicionada quase no nível do chão, como se imitasse o olhar de uma pessoa sentada no tatame de uma casa tradicional do Japão. Atores e objetos eram filmados sempre frontalmente, em composições rigorosas. Os temas eram geralmente os mesmos: os pequenos dramas cotidianos, as relações familiares, o conflito entre tradição e modernidade. Enquanto cineastas como Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi ficaram mundialmente conhecidos na década de 1950, Ozu só foi “descoberto” no final dos anos 1960, quando já havia morrido. “Ele na verdade é mais universal do que qualquer outro diretor”, acredita a curadora. “A temática de seus filmes é intrínseca a todos os povos, todos podem se identificar.

Tanto que hoje ele é uma grande influência até para cineastas brasileiros”. Os 36 títulos da mostra representam mais da metade dos 53 filmes que Ozu dirigiu em sua longa carreira. Estão presentes desde seus trabalhos mais conhecidos, como Pai e Filha (1949) e Era uma Vez em Tóquio (1953), até raridades como A Mulher e a Barba (1931). “Até muito recentemente, acreditava-se que esse filme estava perdido. Mas aí foi encontrado um negativo em bom estado e novas cópias foram feitas. Ele só foi exibido em outros três países além do Japão”, conta Tatiana Leite, curadora da mostra ao lado de Arndt Roskens.

A mostra ainda será uma rara oportunidade de ver uma apresentação de Benshi. Na época do cinema mudo, havia no Japão profissionais especializados em “contar” para o público o que acontecia na tela, acompanhados de instrumentos musicais tradicionais japoneses. A prática será recriada por Angela Nagai durante a exibição do filme O Coral de Tóquio, dirigido por Ozu em 1931.

A mostra também apresenta quatro filmes de importantes diretores que homenageiam o mestre Ozu: Tokyo-Ga, de Wim Wenders, Cinco Dedicados a Ozu, de Abbas Kiarostami, 35 Doses De Rum, de Claire Denis, e Hanami – Cerejeiras em Flor, de Doris Dörrie.

 

 

Lazaro de Oliveira

Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.

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