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O pai do dicionário, Aurélio Buarque, completou 100 anos.

Mesmo com o advento da internet não há quem não tenha usado o dicionário de bolso de Aurélio Buarque na escola. Foi uma tarefa árdua para relacionar todas as palavras de língua brasileira utilizado no Brasil. Ele tinha um mérito de muito impacto na geração mais jovem, a de incluir gírias depois de consolidada seu uso por nós brasileiros. Era uma resposta dos adolescentes aos pais que proibiam a sua utilização como forma de bem educar. Se estiver no Aurélio ela existe e deve ser usada. Era como se formalizasse a utilização da gíria, que tinha a qualidade de um palavrão, no meio da língua formal. O dicionário era uma porta para outra dimensão, assim definia Jorge Luis Borges e tinha lá sua razão. Quando se começa a ler uma série de palavras novas lhe são apresentadas e a descoberta de seu significado era gratificante. Ao conhecer essas novas palavras da dando sentido ao escrito nem sempre coincidia ao imaginado. Ao buscar o seu significado no Aurelião nos surpreendíamos ao saber que não era o que havíamos imaginado. Era uma grande arma quando se pega gosto pelas palavras cruzadas.

Os dicionários já existiam nos tempos antigos. Acredita-se que o dicionário tenha se originado na Mesopotâmia por volta de 2.600 a.C., feito em tabletes com escrita cuneiforme, ele informava repertórios de signos, nomes de profissões, divindades e objetos usuais, que funcionavam como dicionários unilíngues. Os gregos no século I criaram os léxicos para catalogar os usos das palavras da língua grega. Os gregos e os romanos já os utilizavam para esclarecimentos de dúvidas, termos e conceitos. Todavia, não eram organizados em ordem alfabética. Limitavam-se às definições de termos linguísticos ou literários. Foi somente no fim da Idade Média que houve o surgimento de dicionários e glossários organizados alfabeticamente. Quando as glosas desses manuscritos latinos tornaram-se numerosas, os monges as ordenaram alfabeticamente para facilitar a localização. Com isso, surgiu uma primeira tentativa de dicionário bilíngue latim-vernáculo. Com o advento da imprensa, no século XV, alavancou-se a difusão e o uso de novos dicionários. O estilo de dicionário que usamos atualmente foi incorporado no renascimento com o objetivo de traduzir as línguas clássicas para as modernas em função da bíblia.

O dicionário atende a uma ansiedade humana de catalogar o conhecimento para ter um fácil acesso. Esse racionalismo é uma maneira de se ter controle e conhecimento sobre a vida o que Freud demonstrou ser impossível. E é nessa árdua tarefa de selecionar palavras e ficar atendo as suas transformações que Aurélio foi mestre. Um trabalho sem preconceito. Muito embora a internet esteja ao nosso dispor ainda é mais confiável um bom dicionário do Aurélio que cujo trabalho nasceu por amor às palavras. As palavras têm sua força da maneira como o escritor a utiliza e seu significado ganha asas na mente do leitor.

Helena, a filha mais nova de Chico Buarque e Marieta Severo é casada com Carlinhos Brown e cujo avô é o historiador Sergio Buarque e Hollanda e que pagou um mico no filme em homenagem ao Serjão. O diretor do documentário Nelson Pereira dos Santos reuniu a família Buarque de Hollanda na casa em que a família viveu no Pacaembu em São Paulo. Certa altura do filme Carlinhos Brown se surpreende ao saber que o avô de Helena é um historiador e não o Buarque do dicionário. Menino pobre do Candeau de Buarque só conhecia o autor do dicionário o que mostra o quanto esse dicionário é popular.

Lazaro de Oliveira

Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.

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