Neste janeiro completa 100 anos da morte de Joaquim Nabuco um personagem interessante que foi o primeiro a pensar o Brasil em sua plenitude. O que chama atenção é que apesar de viver no século 19, ser filho da Elite açucareira rompeu com as limitações do pensamento conservador da aristocracia e foi mais além do que se podia esperar. A aristocracia pensava em ser civilizado como o europeu, mas seu sustento estava na mão de obra escrava. Cobrava uma postura da igreja católica a favor da abolição que sustentava que os negros não eram humanos e, portanto não tinham alma. Se a igreja considerasse um negro com alma teria de se comprometer com a abolição. É pouco cristão um ser humano escravizar outro. Nabuco creditava o atraso do Brasil a mão de obra escrava. Acreditava que a abolição devia se dar no parlamento e não em movimentos extremistas. Ao lado de Rui Barbosa defendia a liberdade religiosa no Brasil. Embora monarquista sempre teve um olhar aos problemas brasileiros, teve a chance de comparar com outras culturas sendo embaixador em Washington e Londres. Em seus dois livros, “O Abolicionismo”, “Minha Formação”, acompanhamos como Nabuco pensa o Brasil rompendo com o pensamento conservador da elite açucareira.
Seu texto é tão forte que Caetano Veloso ao ganhar o livro “Minha Formação” dedica seu disco seguinte “Noites do Norte” a musicar um texto em prosa de Joaquim Nabuco sobre a escravidão. E são proféticas a letras escolhida por Caetano “a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. “De um lado senhores e do outro os servos”. É tão intensa que Nabuco diz sentir “saudade do escravo” pela generosidade deles, num contraponto ao egoísmo do senhor.Escrito na virada do sec. 19 para o 20, seus livros são atuais. O pensar o Brasil é mais do que buscar soluções, é entender essas gentes tão diferentes.
No livro “Abolicionista” Nabuco ressaltaria: Num país que a escravidão empobreceu e carcomeu…, o monopólio do poder faz da Escravidão um estado no Estado. Pensando nisso ao lançar o Movimento Abolicionista, ele enfatizaria que sua idéia não era a de uma campanha apenas filantrópica, religiosa ou sentimental O seu projeto cívico teria de ser também um movimento social capaz de propor mudanças profundas nas relações de classe no Brasil. E está aí a origem do nosso preconceito
“Minha Formação” é um livro de memórias nada linear. Seus capítulos seguem segundas as necessidades de Nabuco escrever. Os primeiros capítulos falam de sua fase adulta, não se pode esquecer de que Nabuco está com 50 anos. Passam por esses capítulos suas grandes influencias como o pensador político, para ele, é Walter Bagehot, autor clássico para a monarquia constitucional inglesa. Dos tempos de escola, o mestre lembrado é o barão de Tautphoeus, um revolucionário alemão que se exilou no Rio, onde se dedicava a formar a juventude bem-nascida do Império. O escritor predileto é Ernest Renan.
Joaquim Nabuco participou da Fundação da Academia Brasileira de letras ao lado de Machado de Assis, com quem partilhava uma visão pessimista do Brasil.Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.




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