Respondo aqui as indagações de Hélio T. dos Santos sobre o filme “Lula, o Filho do Brasil” e me desculpo por somente agora ter oportunidade de esclarecer o que não ficou claro na coluna. O filme “Lula, O filho do Brasil” está sendo muito falado mesmo antes de entrar em cartaz. A primeira vez em que se falou muito ora na imprensa ora em conversas é de o filme seria eleitoreiro. Um filme sobre a vida de um retirante que se torna presidente em ano de eleição suscitou certo oportunismo por parte da família Barreto que produziu o filme e o interesse por parte do presidente em ver o filme ser exibido no boca a boca das pessoas. Bobagem, o filme está sendo pensado desde 2003 e não houve uma subvenção do governo. Isso era o que se falava até o acidente com o diretor do filme Fábio Barreto quando o filme voltou a ser falado. Era a isso que eu me referia quando disse que o filme estava sendo muito falado antes mesmo de entrar em cartaz. ”O resto do comentário sobre o sindicato somente tratar de proposta salarial diante de um contexto social totalmente diferido à época da ditadura é de chorar. Esse sua avaliação é meio onipotente.” Diante disso vamos ver se explico melhor. Os anos 70 começam no Brasil com o ufanismo capitaneado pela ditadura. Faziam parte desse ufanismo o tri campeonato e o dinheiro que o governo pegava lá fora a um custo muito baixo para delírio da classe média. Esse ufanismo foi necessário para responder aos que criticavam o ato institucional nº5 em 1968 que endureceu o regime. Tudo isso acaba quando o dinheiro fica caro, com a crise da OPEP em 1973 e os desastres com as construções megalomaníacas como a Transamazônica e o dinheiro do fundo de garantia para outros fins que não os da aposentadoria. É nessa euforia substituída pela inflação galopante que surge o Lula. Theobaldo de Negris que foi presidente da FIESP de 1968 até 1980 não negociava acordos salariais e determinava o quanto o trabalhador teria de reajuste. E era sempre abaixo da inflação. Com a inflação crescendo os reajustes já não mais atendiam as necessidades básicas dos trabalhadores da indústria. Essa imposição patronal se dava com o apoio dos dirigentes sindicais pelegos que sabotavam qualquer atitude mais consequente dos trabalhadores. Lula entra para direção do sindicato cujo presidente era pelego, correia de transmissão do patronato. No segundo momento ele se elege presidente e na primeira greve que lidera há um recuo. Nesses dois momentos Lula era visto pela direita como alguém que rompe a tradição pelega e por isso não merecia confiança. A esquerda via o Lula, por recuar diante de uma greve, como se fosse alguém posto ali pela ditadura. Lula não via com bons olhos a interferência da esquerda no sindicato. Lula só conhecia a atuação do Partidão, Partido Comunista Brasileiro, aquele do Luis Carlos Prestes, que tentava impor a direção do sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo suas idéias estranhas ao movimento operário de São Bernardo. Era o aparelhamento do sindicato pelo partidão. O homem do partidão no sindicato era o Alemãozinho que sempre que podia boicotava o Lula. O partidão se achava no direito de dizer aos operários o que fazer num momento em que entrava em crise quando os tanques russos ocupavam a Polônia para sufocar o movimento dos trabalhadores que pediam mais democracia. Esse movimento foi conhecido por “Solidariedade”. O que unia os trabalhadores de São Bernardo eram as questões trabalhistas e salariais e depois em cima dessa organização as reivindicações se ampliam por mais democracia. Isso aconteceu na Europa na virada do século 19 para o século 20. Não é um modelo fixo, mas foi assim que elas aconteceram. É por isso que o passo seguinte desse movimento sindical do ABC foi a criação da CUT – Central Única dos Trabalhadores rompendo com a dependência que os sindicatos tinham com o Estado e a criação de um partido que fosse dos trabalhadores e não um apêndice de alguma ideologia. Isso criou um mal estar na esquerda mais tradicional (partidão) que passou a hostilizar o partido que nascia. E essa hostilidade permanece até hoje no congresso mesmo depois do partidão ter mudado para PPS. Uma nova geração de militantes de esquerda nasce no final dos anos 70 e começo dos anos 80, mais democrática, e acabam por ajudar a criar o Partido dos Trabalhadores. Militantes vindos do movimento estudantil, dos próprios sindicatos e dos movimentos populares. Quem derrubou os sustentáculos da ditadura foi a greve do ABC que rompeu com as normas vigentes. Obrigou o patronato a ir à mesa de negociação contrariando as orientações da ditadura. Fiz questão de esclarecer as questões do Hélio na coluna supondo que mais pessoas como ele podem ter tido duvidas quanto ao que foi escrito.
Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.




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