Neste final de semana morreram Walter Alfaiate e José Mindlin. Fizeram história e merecem ser homenageados aqui.
Walter Alfaiate morreu no sábado aos 79 anos devido à falência múltipla dos órgãos. Ele era de fato alfaiate e foi descoberto nas rodas de samba do teatro Opinião no início dos anos 60. Era uma época em que se recuperava a musica popular urbano no caso o samba carioca. O Centro Popular de Cultura criada em 1961 pela UNE-União Nacional dos Estudantes que reconhecia a cultura popular como formadora da nossa identidade.
Foi nesse caldo de cultura que surgiu Walter Alfaiate. Integrou a ala de compositores da Portela, teve como parceiro o grande Mauro Duarte e de alguma maneira influenciou Paulinho da Viola que como ele nascido em Botafogo e que começava sua carreira. Mais tarde gravaria muitas musicas de Walter Alfaiate. Começou a compor marchinhas de carnaval quando jovem para depois enveredar pelos sambas mais tradicionais.Fazia parte em que sambista compositor e cantor, era um estilo de vida, mais do que um profissão. Elegante, refinado, era uma pessoa dócil que gostava de se relacionar com pessoas. Foi descoberto nos anos 70 quando Paulinho da Viola grava alguma de suas músicas assim como João Nogueira. Com a morte de Walter Alfaiate desaparece uma geração de elegância, boemia e fraternidade.
E no domingo morreu José Mindlin, uma figura curiosa do universo de livros. Não era escritor, não era editor, mas o Brasil seria outro se não fosse Mindlin. Começou a criar sua biblioteca aos 13 anos de idade como um apaixonado por leitura e por livros. Nessa sua história em recolher livros tem entre os exemplares mais raros da coleção, está o primeiro livro em que o Brasil foi citado, em uma coletânea de viagens de 1507 que noticia a viagem de Pedro Álvares Cabral.
Ele tinha a postura dos grandes homens que acho que se perdeu. Sua geração como Antonio Cândido, Mario Pedrosa, Paulo Emilio Sales Gomes, Lourival Gomes, Gilda de Mello e Souza, que eram generosos com as novas gerações. Em dos poucos encontros que tive com ele era maravilhoso vê-lo caminhar pela sua biblioteca e ouvi-lo falar sobre cada livro como se fosse uma jóia rara. Sobre os sentimentalismos portugueses, sobre o aparecimento de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, sobre os novos autores.Era um aprendizado a La Sócrates que saia pelos bosques da Grécia a conversar com os jovens. Sempre atento aos que os novos tinham para falar e fazia sua ponderação. Arrisquei-me a falar sobre Borges e fui vencido pelos seus argumentos e fala mansa. Homens como ele fazem falta.
Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.




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