Divirta.se

Depois de tantos filmes, vamos à leitura

Ler é sempre um passatempo que leva a imaginação a voar. A história vai criando imagens com o decorrer da leitura. Ler texto teatral tem a qualidade de o leitor transformar sua imaginação em um diretor teatral. Seguindo as observações do autor vai construindo as reações, o tom de voz dos personagens. Um bom livro é “A Morte de um Caixeiro Viajante” e outras 4 peças de Arthur Miller. Conhecido por ter sido marido de Marlyn Monroe arguto observador no que a America estava se transformando ao assumir a liderança mundial após a segunda guerra.
 

Ao lado da “Morte do Caixeiro Viajante” está “As Bruxas de Salem”, e “Panorama Visto a Ponte”, ambas já encenadas no Brasil e “O Homem de Sorte” e” Todos Eram Meus Filhos” pouco conhecidos por nós. Os males da nova América apontada por Miller estavam restritos as observações dos anos 40 e 50 e que ainda existe numa nova roupagem. U ma apogeu da Guerra Fria, um rígido convencionalismo nos costumes e a invasão dos eletrodomésticos nos lares americanos. “A Morte do Caixeiro Viajante” mostra vida Willy Lomam, um caixeiro de “sorriso nos lábios e sapatos engraxados” que cansado não conseguia mais viver na impiedosa competição que exigia mais agressividade do que um simples sorriso e sapatos engraxados.

Nem sorriso e sapatos brilhando conseguiram construir o sonho americano de grandeza. Um derrotado que sente que a vida passou por ele. Essa competição agressiva e de certo modo imoral está presente hoje no mundo exportado pelos ideais americanos. Vale tudo para vencer na vida. Trapacear, evitar a regulamentação do sistema financeiro.  Um certo de tipo de americano que o país sempre escondeu.
 
Após o “Caixeiro Viajante” Miller escreve “As Bruxas de Salem” baseado num fato real que permitiu a ele criticar o Macarthismo. Foi encenado em 1953 no apogeu da histeria anticomunista insuflada pelo senador Joseph MacCarthy. O Macarthismo realizou o que alguns denominaram “caça as bruxas” na área cultural, cientifica e serviço público que, durante a guerra, manifestam-se a favor da aliança com a União Soviética e, depois, a favor de medidas para garantir a paz e evitar nova guerra. Para tanto obrigava que todos os convocados para depor na Comissão de Atividades Antiamericanas delatassem seus companheiros que pertenceram ou ainda pertence ao Partido Comunista. Miller se inspira na historia acontecida num povoado nos tempos das colônias em Massachusetts uma cozinheira negra de Babados é vista dançando com algumas adolescentes seminuas. Logo se tornou um escândalo já que essa colônia era de puritanos.  Nos julgamentos de bruxaria os envolvidos eram estimulados a delatar e a delação muita vezes movidas pela cobiça, ganância e outros que não o religioso.
Chegaram a enforcar 19 pessoas sob o pretexto de bruxaria. Hoje temos os julgamentos de terroristas árabes que são mantidos presos sem culpa provada e assim estimularem o medo assim como no macarthismo.
 

Em “Panorama Visto da Ponte” encenada em 1955 Miller conta a história de Eddie Carbone que é casado com Beatrice, mas é perdidamente apaixonado por sua sobrinha, Catherine. Após a chegada de dois irmãos que são imigrantes ilegais, Catherine apaixona-se por um deles. Eddie fica indeciso em como resolver este entrave e parte para a delação. Nada como uma delação para tirar seus concorrentes do caminho.

As outras duas peças, “O Homem de Sorte” e” Todos Eram Meus Filho” são as duas primeiras peças escrita por Miller. Começa a ser delineada o que Miller achava importante tratar nas suas peças com a solidariedade, o estado pressionando seu cidadão. Miller é muito mais do que foi escrito até aqui. O que torna esse americano importante autor teatral é como vai construindo seus personagens, suas sutilezas e sua complexidade. Ao ler suas peças temos uma chance de descobrir essas sutilezas e complexidade sem auxilio de um diretor teatral.

Lazaro de Oliveira

Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.

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