Anselmo Duarte morreu nesse fim de semana. Do glamour dos estúdios da Vera Cruz resta Tônia Carrero. Vera Cruz foi a nossa MGM -Metro Goldwin Mayer e seus atores e diretores eram as nossas estrelas.
Rival só a Atlântida no Rio d Janeiro com suas chanchadas e a dupla Grande Otelo e Oscarito eram os mestres. A Vera Cruz da cabeça de Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho que cedeu um terreno de 100.000 metros quadrados para construir o estúdio. Equipamentos de primeira qualidade foram importados são vários profissionais europeus foram convidados para formar o time de profissionais do estúdio. Ao contrario da Atlântida os profissionais europeus, principalmente os italianos queriam fazer filmes mais dramáticos. 4 de Novembro de 1949 nasce o Estúdio Vera Cruz e o primeiro filme foi “Caiçara” dirigido por Adolfo Celi. E o lema era “Produção Brasileira de Padrão Internacional.”
Anselmo Duarte vai pro Rio de Janeiro em 1942 após ler um anúncio de Orson Welles selecionando pessoas para participar do filme It’s All True (1942). Ele faz então a sua estréia no cinema.
O filme de Orson Welles ficou inacabado e Anselmo só vai estrear como ator em 1947 no filme “Querida Susana”. Sua carreira se desenvolve rapidamente acaba virando principal galã da Atlântida. Seu par constante na Atlântida era Eliana e os filmes eram leves de puro entretenimento. Muitos cantores e músicos conhecidos por se apresentar nas rádios tinham a chance de serem conhecidos fisicamente para o seu público. Esses artistas contribuíram para a leveza do filme. E era sempre Anselmo Duarte querendo conquistar Eliana ou vice versa.
Com a criação da Vera Cruz Anselmo foi chamado para atuar em S. Paulo. Na Vera Cruz também fez uma carreira de sucesso contracenando com Tônia Carreiro em Tico-Tico no Fubá. Fez uma comédia de sucesso em 1957 com Dercy Gonçalves, Absolutamente Certo. Atuou ainda em Apassionata e Veneno, entre muitos outros.
Assim como participou dos primeiros momentos da Vera Cruz fez parte do se declínio. O filme “Tico Tico no Fubá” que contava história do compositor brasileiro Zequinha estourou o orçamento e a Vera Cruz nunca mais foi a mesma. A produção era muito cara, como Zequinha de Abreu tocava em circo a produção do filme alugou um circo inteiro com animais, palhaços, trapezistas. Isso não é prerrogativa nossa, em 1980 o diretor Michael Cimino estoura o orçamento do filme “Portal do Paraíso” e leva a falência da United Artist que fora fundada por Charlie Chaplin, D.W. Grifith, Mary Pickford e Douglas Fairbanks em 1919.

Tonia Carro e Anselmo Duarte filme "Tico Tico no Fubá"
Eu não tenho notícia se Anselmo queria atuar ou dirigir filmes mais dramáticos nos tempos da Atlântida, mas essa vontade surge com a sua vinda para Vera Cruz e os diretores europeus devem ter tido alguma influência.
O caso é que Anselmo filma “O Pagador de Promessas“, baseado em peça de Dias Gomes, também foi finalista do Oscar do ano. O filme tem um elenco de astros e estrelas do cinema nacional que despontavam nos anos 60, como Leonardo Villar, Glória Menezes, Norma Bengell, Dionísio Azevedo, Othon Bastos, Geraldo Del Rei, Antonio Pitanga e outros. Anselmo fez ainda outro filme, Vereda de Salvação (1964), baseado em peça de Jorge de Andrade, com o qual foi indicado ao Urso de Ouro do Festival de Berlim, mas que não obteve reconhecimento tão grande quanto sua obra-prima. Anselmo cai em desgraça quando o pessoal do cinema novo, entre eles Arnaldo Jabour, caçoavam dele dizendo que seus filmes eram cópias mal feitas do cinema americano.
As poucas vezes em que tive a oportunidade de entrevista-lo sempre pedia para que contasse seu momento futebolístico ao lado de Pelé e Garrincha. A primeira vez que vi e ouvir contar essa história, acho que foi no programa “Quem Tem Medo da Verdade“. Anselmo disse na ocasião que foi convidado a acompanhar a seleção brasilera num amistoso pela África ou Europa, não estou bem certo. Anselmo insistiu que acabou colocando o uniforme e ficava com os reservas. Em um dos jogos o Brasil batia de 7×0 e os jogadores com pena do adversário resolveram ser clementes e não fizeram mais gol. Com essa larga vantagem resolveram por Anselmo no jogo só ele estaria liberado para fazer gol. E estava lá Anselmo suando o uniforme para ter o prazer que poucos não jogadores teriam – fazer um gol pela seleção. Certo momento Pelé lança uma bola que passa por Anselmo e entra no gol. Para não quebrar o acordo feito pelos jogadores de não fazer mais nenhum gol, o gol de Pelé fica atribuído ao Anselmo. Anselmo me contava essa história com muita vivacidade e com as pausas dramáticas para dar clima. Nunca conferi se a história era real ou não, mas isso não importa quem passou a vida criando história pro cinema não tem faz algum criar mais uma, afinal, “Se Non É Vero, É Bem Trovato”
Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.




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