Divirta.se

A periferia criou sua própria cultura

19/10
Coluna segunda 19.10.2009
Na semana passada a Câmara aprovou o texto básico que cria o Vale-Cultura. É um vale destinado a consumir cultura nos moldes de outros vales como o de refeição, transporte e o da cesta básica.  A Câmara ampliou abrangência. No texto original o Vale-Cultura é destinado principalmente aos empregados que recebem até cinco salários mínimos. Aposentados, e funcionários públicos devem ser contemplados com essa ampliação. O projeto define como áreas a serem atendidas por esse vale as artes visuais e cênicas, o audiovisual, a literatura, humanidades e ciências, a música e o patrimônio cultural. A empresa que optar pelo vale desconta o gasto na declaração de imposto de renda.  Diante disso temos a consciência de que fazemos alguma coisa para incluir os desfavorecidos da sorte no mercado cultural. Bobagem. Uma visão distorcida. A periferia, distanciada da cultura da classe média, criou sua própria cultura. Temos lá a Cooperifa, um grupo da zona sul que se reúne uma vez por semana para recitar suas poesias e alguns talentos já começam a ser descobertos. Temos escritores como Ferrés, Paulo Lins, só pra citar alguns e existe um movimento de escritores negros que não encontrando seu espaço criaram um próprio. No cinema temos o movimento Dogma Feijoada e os diretores mais conhecidos são Joelzito Araújo e Jeferson De. A periferia faz teatro, ocupa as ruas com suas pinturas. E quando tem chance agarram a sua oportunidade como Emerson Nazário Silva Oliveira que tocava na Orquestra de Heliópolis e foi convidado pra estudar em Israel. No nordeste tem uma biblioteca só de doação de livros instalada numa palafita. E em outra periferia desse pais tem um açougue que de noite vira uma biblioteca também com livros doados. Nas escolas públicas de musica tem muita gente da periferia querendo virar um Caruso ou uma Jessy Norman. Diante disso para que serve esse vale?  Embora o projeto não tenha sido votado na integra quero crer que ele deva cumprir uma única função, dar sustentação a essas manifestações ao lado de outros equipamentos culturais como as unidades do SESC, os Céus que muitas vezes tem problema de caixa. Não gostaria de ver esse vale servindo de paternalismo cultural, mas ampliando o espaço dessa cultura.
Um incêndio queima uma grande parte das obras de Helio Oiticica neste final de semana.  Helio Oiticica ao lado de Lygia Clark, dois artistas plásticos do início dos anos 60 inovaram e aproximaram o “fazer arte” da arte popular na forma e no conteúdo. Pode parecer redundante quando junto forma e conteúdo na frase já que um não se sustenta sem o outro. Acontece que os pós-modernos acreditam que a forma pode ser conservadora e o conteúdo revolucionário e vice versa. Ledo engano.  Voltando ao Helio Oiticica e Lygia Clark tenho de reconhecer neles uma arte bem brasileira. Sua convivência com Mário Pedrosa, crítico de arte lúcido e vanguardista e que formou um pensamento brasileiro de como ver a arte, fez com
que rompesse com os cânones da arte estabelecida para que a criação fosse livre. Isso deu espaço para que Oiticica criasse a célebre frase “Seja Bandido, Seja Herói”. Pouca gente sabe, mas essa frase faz referência ao bandido Cara de Cavalo. Um bandido pé de chinelo que se tornou famoso pela imprensa e morto pela policia carioca. Essa obra serviu de cenário para show de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Mutantes na boate Sucata. O nome da obra batizou o movimento, Tropicália. Assim como a obra de Oiticica cada vez mais se aproximava do popular a Tropicália também fez o mesmo buscando o popular em Vicente Celestino e Dalva de Oliveira. Lygia e Helio destroem o suporte. A arte não é mais só quadro e a escultura não é mais imóvel. Lygia cria pequenas esculturas dobráveis que se pode dar a forma que quiser. Helio cria os parangolés. Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como “antiarte por excelência”. A tenda cria um espaço fechado onde descalço e de olhos vendados o espectador sente as pedras e as areias ali colocadas. Helio partiu da idéia de se uma obra provoca sensações por que não incluir o tato e não só os olhos. Helio enveredou pela poesia concreta desenhando com coca em busca de total liberdade. E a arte brasileira nunca mais foi a mesma a depois de Helio e Lygia Clark.
Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois. Na semana passada a Câmara aprovou o texto básico que cria o Vale-Cultura. É um vale destinado a consumir cultura nos moldes de outros vales como o de refeição, transporte e o da cesta básica.  A Câmara ampliou abrangência. No texto original o Vale-Cultura é destinado principalmente aos empregados que recebem até cinco salários mínimos. Aposentados, e funcionários públicos devem ser contemplados com essa ampliação. O projeto define como áreas a serem atendidas por esse vale as artes visuais e cênicas, o audiovisual, a literatura, humanidades e ciências, a música e o patrimônio cultural. A empresa que optar pelo vale desconta o gasto na declaração de imposto de renda.  Diante disso temos a consciência de que fazemos alguma coisa para incluir os desfavorecidos da sorte no mercado cultural. Bobagem. Uma visão distorcida. A periferia, distanciada da cultura da classe média, criou sua própria cultura. Temos lá a Cooperifa, um grupo da zona sul que se reúne uma vez por semana para recitar suas poesias e alguns talentos já começam a ser descobertos. Temos escritores como Ferrés, Paulo Lins, só pra citar alguns e existe um movimento de escritores negros que não encontrando seu espaço criaram um próprio. No cinema temos o movimento Dogma Feijoada e os diretores mais conhecidos são Joelzito Araújo e Jeferson De. A periferia faz teatro, ocupa as ruas com suas pinturas. E quando tem chance agarram a sua oportunidade como Emerson Nazário Silva Oliveira que tocava na Orquestra de Heliópolis e foi convidado pra estudar em Israel. No nordeste tem uma biblioteca só de doação de livros instalada numa palafita. E em outra periferia desse pais tem um açougue que de noite vira uma biblioteca também com livros doados. Nas escolas públicas de musica tem muita gente da periferia querendo virar um Caruso ou uma Jessy Norman. Diante disso para que serve esse vale?  Embora o projeto não tenha sido votado na integra quero crer que ele deva cumprir uma única função, dar sustentação a essas manifestações ao lado de outros equipamentos culturais como as unidades do SESC, os Céus que muitas vezes tem problema de caixa. Não gostaria de ver esse vale servindo de paternalismo cultural, mas ampliando o espaço dessa cultura.

Na semana passada a Câmara aprovou o texto básico que cria o Vale-Cultura. É um vale destinado a consumir cultura nos moldes de outros vales como o de refeição, transporte e o da cesta básica.  A Câmara ampliou abrangência. No texto original o Vale-Cultura é destinado principalmente aos empregados que recebem até cinco salários mínimos. Aposentados, e funcionários públicos devem ser contemplados com essa ampliação. O projeto define como áreas a serem atendidas por esse vale as artes visuais e cênicas, o audiovisual, a literatura, humanidades e ciências, a música e o patrimônio cultural. A empresa que optar pelo vale desconta o gasto na declaração de imposto de renda.  Diante disso temos a consciência de que fazemos alguma coisa para incluir os desfavorecidos da sorte no mercado cultural. Bobagem. Uma visão distorcida. A periferia, distanciada da cultura da classe média, criou sua própria cultura.20070601ambiente-cooperifa-465 Temos lá a Cooperifa, um grupo da zona sul que se reúne uma vez por semana para recitar suas poesias e alguns talentos já começam a ser descobertos. Temos escritores como Ferrés, Paulo Lins, só pra citar alguns e existe um movimento de escritores negros que não encontrando seu espaço criaram um próprio.

caio-blat-broder-560-div

No cinema temos o movimento Dogma Feijoada e os diretores mais conhecidos são Joelzito Araújo e Jeferson De. A periferia faz teatro, ocupa as ruas com suas pinturas. E quando tem chance agarram a sua oportunidade como Emerson Nazário Silva Oliveira que tocava na Orquestra de Heliópolis e foi convidado pra estudar em Israel.

Adriano_HeliópolisNo nordeste tem uma biblioteca só de doação de livros instalada numa palafita. E em outra periferia desse pais tem um açougue que de noite vira uma biblioteca também com livros doados. Nas escolas públicas de musica tem muita gente da periferia querendo virar um Caruso ou uma Jessy Norman. Diante disso para que serve esse vale?  Embora o projeto não tenha sido votado na integra quero crer que ele deva cumprir uma única função, dar sustentação a essas manifestações ao lado de outros equipamentos culturais como as unidades do SESC, os Céus que muitas vezes tem problema de caixa. Não gostaria de ver esse vale servindo de paternalismo cultural, mas ampliando o espaço dessa cultura.

Um incêndio queima uma grande parte das obras de Helio Oiticica neste final de semana.  helio1Helio Oiticica ao lado de Lygia Clark, dois artistas plásticos do início dos anos 60 inovaram e aproximaram o “fazer arte” da arte popular na forma e no conteúdo. Pode parecer redundante quando junto forma e conteúdo na frase já que um não se sustenta sem o outro. Acontece que os pós-modernos acreditam que a forma pode ser conservadora e o conteúdo revolucionário e vice versa. Ledo engano.  Voltando ao Helio Oiticica e Lygia Clark tenho de reconhecer neles uma arte bem brasileira. Sua convivência com Mário Pedrosa, crítico de arte lúcido e vanguardista e que formou um pensamento brasileiro de como ver a arte, fez com que rompesse com os cânones da arte estabelecida para que a criação fosse livre. Isso deu espaço para que Oiticica criasse a célebre frase “Seja Bandido, Seja Herói“. Pouca gente sabe, mas essa frase faz referência ao bandido Cara de Cavalo. Um bandido pé de chinelo que se tornou famoso pela imprensa e morto pela policia carioca.caetano Essa obra serviu de cenário para show de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Mutantes na boate Sucata. O nome da obra batizou o movimento, Tropicália. Assim como a obra de Oiticica cada vez mais se aproximava do popular a Tropicália também fez o mesmo buscando o popular em Vicente Celestino e Dalva de Oliveira. Lygia e Helio destroem o suporte. A arte não é mais só quadro e a escultura não é mais imóvel. Lygia cria pequenas esculturas dobráveis que se pode dar a forma que quiser. Helio cria os parangolés. Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como “antiarte por excelência”. A tenda cria um espaço fechado onde descalço e de olhos vendados o espectador sente as pedras e as areias ali colocadas. Helio partiu da idéia de se uma obra provoca sensações por que não incluir o tato e não só os olhos. Helio enveredou pela poesia concreta desenhando com coca em busca de total liberdade. E a arte brasileira nunca mais foi a mesma a depois de Helio e Lygia Clark.

Lazaro de Oliveira

Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.

*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.

COMENTÁRIOS

Nenhum comentário em “A periferia criou sua própria cultura”

Comente