Tenho escrito aqui sobre a vivacidade e energia com que a periferia se dedica a cultura. Isolada da alta cultura a periferia cria meios de criar a sua própria. Assisti nesse final de semana uma entrevista com a professora
Heloisa Buarque da UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro que fala do seu trabalho com as comunidades Hip Hop do Rio de Janeiro. Entre as muitas conclusões a que ela chega é de que essas comunidades estão ávidas de conhecimento e agarram com força todas as oportunidades. Ao contrário do que se pensa a pouca cultura formal não impede de desenvolver um alto entendimento intelectual. Heloisa ofereceu a eles Guimarães Rosa e qual não foi sua surpresa que não tiveram dificuldade de entender seus escritos. Tradicionalmente filhos da classe média têm muita dificuldade ao se depararem com textos do Guimarães. E ela explica que para a comunidade Hip Hop identificou no escritor alguns traços comuns. Tanto para Guimarães Rosa quanto para o Hip Hop é a criação de palavras e o ritmo que interessa a ambos na hora da criação. Lembrando que o RAP é Rthm and Poetry, ritmo e poesia e não necessariamente música. Ela identifica que para cada região do país o Hip Hop toma a cor local. Em Pernambuco tem influencia do maracatú e frevo, no Rio a do samba. Ela conclui que as letras estão deixando e ser engajadas contra a sua exclusão social e tornando mais sofisticada. É tão forte essa cultura da periferia que escritores conhecidos como Ferréz, autor de “Capão Pecado”, abriu mão de trabalhar na Secretaria do Estado da Cultura alegando que seu trabalho é mais produtivo na periferia conversando e orientando os adolescentes do que numa mesa.
O teatro está vivo nessas comunidades por que permite discutir sua realidade. No Rio grupo “Nós o Morro” do Morro do Vidigal fundado em 1986. Desse grupo surgiu vários atores negros que atuam no cinema, teatro, séries de TV nas novelas da TV Globo. O compromisso deles é tão forte que mesmo com a carreira de ator consolidada dão curso para os iniciantes do grupo. Esse tipo de articulação, movimento não é novo. Em 1944 surge no Rio de Janeiro o Teatro Experimental do Negro que visava trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte. “Nós do Morro” encenou” Besouro Cordão de Ouro” lendário capoeirista que ficou conhecido quando Paulo Cesar Pinheiro e Bade Powell compuseram uma música falando dele e que ficou imortalizado na voz de Elis Regina. E já existe como filme que está em cartaz.
Hoje o “Nós do Morro” encena “Barrela” de Plínio Marcos que completa 50 anos de sua única apresentação, 1 de novembro de 1959. Foi a primeira peça de Plínio Marcos, Barrela é baseada em uma história verídica, acontecida com um rapaz na cidade de Santos, no litoral paulista.
Preso por uma briga de pequenas proporções, o rapaz foi estuprado por companheiros de cela. Solto, dois dias depois, jurou vingança e matou quatro dos presos que participaram da ação. Chocado ao ouvir o relato, Plínio Marcos decidiu contar a história em forma de diálogo, imaginando situações ocorridas antes, durante e depois do episódio do estupro.
Nós do Morro



Em São Paulo tem “Hospital da Gente“, da trupe de Taboão, criado no Taboão da Serra, que é uma brilhante radiografia do cotidiano nas bordas da metrópole. O Grupo Clariô de Teatro (Taboão da Serra-SP) criou de forma coletiva o “Hospital da Gente” que quer mostrar a força das mulheres da periferia e encontraram no Catadas dos cantos/contos de Marcelino Freire esse universo. São trabalhadoras do Brasil abrem as portas dos seus barracos para revelarem à que vieram qual o seu papel, seu lugar dentro de uma estrutura caótica e desigual. Figuras tão conhecidas como a mendiga, a bêbada, a prostituta, a velha, a mãe ou a dona de um boteco de uma Favela Fênix quaisquer dão luz às perguntas apagadas do nosso questionário a respeito do que está acontecendo. E como não podia deixar de ser uma das fundadoras, a atriz Narina, foi convidada para atuar em uma das novelas da Globo.
A única experiência que me lembro próxima a essa foi a de Solano Trindade que a chegar em Embu em 1961 resolveu desenvolver um pólo de cultura e atividades como teatro, poesia, musica, escultura e artesanato foram tomando corpo e força naquela periferia. E graças a Solano Trindade e cidade de Embu ficou conhecida como “Embu, Cidade das Artes”
Grupo Clario – Hospital d Gente
SERVIÇO:
Casa do Mercado
Rua do Mercado, 45 – Praça xv
Temporada de 05 de novembro a 19 de dezembro
De quinta-feira a sábado, sempre às 19h30
Ingressos: R$ 20,00
Classificação: 18 anos
Duração: 60 minutos
Lotação: 60 LUGARES
Informações com o Grupo Nós do Morro: (21) 3874-9411
Hospital da Gente. 90 min. 12 anos. 25 lug. Espaço Clariô.
Rua Santa Luzia, 96. Reservas pelo tel. 9995-5416. Sábs., 21 h. R$ 10.
Só aos sábados
Se chover, não haverá sessão
Lazaro de Oliveira
Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.





tenho me deliciado com a coluna do lazaro oliveira. parabéns