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“Doce de Coco”, um bom jeito de se despedir da vida

Ao lado de amigo de longa data Wagner Tiso Paulo Moura tocou pela última vez e a escolhida foi “Doce de Coco” de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho. Assim era Paulo Moura. Sua mansidão sempre foi rodeada por musica. Dos vários encontros que tive com Paulo dois me marcaram. O primeiro foi o lançamento do último disco de Maysa na Boite Igrejinha lá pelos idos dos anos 70. Logo depois da entrevista Maysa e Paulo Moura apresentaram “Até Quem Sabe” de João Donato Lysias Enio. Um musica bonita que aconselho quem não conhece a dar uma escutada. Voz e saxofone, uma parceria pouco usual combinou tão bem. O som grave do saxofone e a voz quase rouca estão até hoje na minha memória. A outra foi a apresentação que Paulo Moura fez em São Paulo e a certa altura anunciava que tivera um sonho naquela noite em via Pixinguinha e Duke Ellington tocando juntos. Na sequencia foi alternando as composições de Duke e Pixinguinha. Quase quarenta minutos onde não se percebia a passagem de uma canção para outra.

O músico nasceu em 1933, em São José do Rio Preto (interior de São Paulo) e começou a estudar música aos nove anos, incentivado pelo pai e irmãos — também músicos. Aos 11 anos, começou a tocar no conjunto de seu pai – Pedro Moura – em bailes populares. Ele dizia que aprendeu um instrumento para ter uma vida folgada no Exército. Em 1947, se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Gravou seu primeiro disco, “Moto Perpetuo”, em 1956. Nos ano 50 foi reconhecido como um grande instrumentista pela revista de Jazz americana “Down Beat”. No Rio prestou concurso e passou para tocar na Orquestra Sinfônica nacional.

Seu prazer pela musica se alternava entre musicas de concerto e populares que tocava nas noites da Lapa. Sua primeira gravação foi ao lado da cantora Dalva de Oliveira, interpretando a canção de Nelson Cavaquinho, Palhaço. E aos 19 estreou como solista tocando a peça de Weber “Concertino para Clarinete e Orquestra” acompanhado da Orquestra Sinfônica Nacional. A lista de participações é enorme e sempre ao lado dos melhores grupos do país, do erudito ao jazz, passando pelos ritmos brasileiros. Foi contratado para integrar a orquestra da TV Tupi, trabalhou ainda com Dolores Duran, Radamés Gnatalli (dedicando todo um LP à obra do mestre), Severino Araújo, Baden Powell, Edson Machado e Sérgio Mendes, entre muitos outros. Como arranjador foi responsável pela musica “Menino das Laranjas” composto por Theo de Barros. O melhor da nossa musica de concerto e o melhor de nossa musica popular se encontravam em Paulo Moura.

 

Lazaro de Oliveira

Lazaro é jornalista cultural que trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, TV Globo, TV Bandeirantes e durante 15 anos chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura. Com a colaboração do Lazaro o Aviso em Dois dá mais um passo para atender seu público.
*Todas as colunas anteriores, com dicas e indicações culturais, encontraram-se na seção Divirta-se do Aviso em Dois.

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