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Uma era cartesiana

Que gente é esta que reformulou tão radicalmente todos os conceitos básicos de análise de mercado a ponto de não prever a crise financeira atual?

De certo que o conhecimento, a inovação e a criação de novas ferramentas, em qualquer ramo dos estudos, são partes da evolução e do aperfeiçoamento científico.

Por que então com toda a gama de conhecimentos e com toda trupe de especialistas egressos de diversas áreas acadêmicas não conseguem, em sua imensa maioria, estabelecer um mínimo de previsibilidade para o preço dos ativos?

A metodologia usual consiste em experimentar historicamente através de modelos estocásticos de projeção e de correlação para projetar preços de ativos no futuro. Tudo isto de forma matemática e racional, como se diz no mercado, bem cartesiana.

Como os mercados financeiros foram se mostrando nos últimos anos o caminho mais rápido de construir riquezas, um batalhão de engenheiros, administradores, economistas, advogados e físicos desembarcaram com seus conhecimentos tentando agregar valor e angariar também o seu quinhão.

Esse movimento que na teoria trouxe um conhecimento técnico mais avançado, na verdade acabou desvirtuando aquilo que de mais importante existia na análise financeira: a prospecção.

Reuniões eram e são realizadas em diversas empresas financeiras e não financeiras, com gráficos, dados passados, balanços e estatísticas que possam inferir alguma perspectiva futura. Quanto mais material técnico o expositor dispuser maior será a credibilidade de suas avaliações.

Com toda essa parafernália quem ousava contestar era discriminado, afinal de contas essa metodologia vinha trazendo altos retornos há bastante tempo e os mercados realmente se comportavam com um padrão determinado. Segundo os modelos, a probabilidade de algo dar errado era de apenas 5%.

Quem questionava era chamado elegantemente de “old fashioned” (antiquado). Até que surgiu o imponderável, o que os modelos não previam, o “impossível”, aquilo que algumas empresas do setor não financeiro como as que perderam rios de dinheiro com derivativos cambiais não imaginavam, ao contratar diretores financeiros egressos de conceituadas instituições financeiras e que transformaram a tesouraria da produção em uma mesa de operações.

Enquanto essas operações deram resultados o diretor financeiro era considerado um gênio das finanças, o homem que faltava para agregar à produção e aperfeiçoar os resultados investindo com inteligência e ousadia, muitas vezes mais importante que o fundador “antiquado” da empresa. Até que tudo deu errado e a probabilidade dos 5% aconteceu, então demitiram sumariamente a maioria deles e grande parte dos funcionários da produção.

Foi ainda mais grave nas instituições financeiras. Os prejuízos levaram à quebra de inúmeras delas gerando uma crise de confiança jamais vista.

O sistema entrou em colapso, os bancos centrais não foram capazes de detectar o cenário sombrio que se avizinhava e partiram para a solução mais plausível que poderiam tomar: redução brutal da taxa de juros e injeção de moeda na economia para gerar liquidez.

Mas por que nem mesmo os bancos centrais, aqueles que teoricamente possuem maior informação dos dados econômicos e deveriam ter uma visão mais clara dos cenários futuros, não foram capazes de tomar medidas preventivas?

As motivações não são só políticas, mas principalmente por terem assimilado essa visão cartesiana de análise e estimativas de consenso.

A teoria da previsibilidade: “Se existe uma convergência de estimativas por parte dos agentes econômicos cabe a autoridade monetária caminhar no sentido do consenso, porque agindo assim causa menor ruído na informação e as expectativas acabam se auto-realizando”.

Espero que tenham aprendido a lição e de agora em diante passem a atuar como autoridade monetária de fato. Agindo e interferindo nas expectativas dos agentes. Quem sabe assim a função da taxa de juros volte a ter importância em política monetária.

Outro fato interessante de se observar é quando os analistas se surpreendem com o comportamento dos ativos. Muitos ficam sem entender porque dados passados péssimos, como indicadores de atividade econômica e balanços com enormes prejuízos das empresas, não fazem os preços dos ativos caírem muito mais do que já caíram.

Não traz novidade já que em passado recente, no inicio da crise norte-americana, também não entendiam como ótimos indicadores não faziam também os preços subirem mais do subiram, mesmo esses estando nas alturas!

São as expectativas futuras, o chamado ex-ante, o que vem pela frente, o que será da economia, o que mais importa para a análise.

O que aconteceu, o passado, serve como estatística como base de dados, não deixa de ser importante, mas não serve de base para projetar o futuro. Isso tudo é ex-post. A prospecção de cenários, a análise do setor antes da empresa, a expectativa futura da economia e como irão se comportar os agentes, isso sim é que vale. Ter ciência de que mundo vive em constante mutação de valores e comportamentos e que a economia é movida pelo comportamento humano.

O passado no mercado estará sempre morto e enterrado.

Tenho tentado abordar a Renda Fixa nesta coluna mensal dentro de todo um contexto, consciente da dificuldade de trabalhar essa modalidade financeira neste afã de riqueza rápida e nesta crise de percepção de cenários que se instalou nos nossos dias.

Sou otimista e acredito em uma recuperação não demorada da economia mundial e principalmente da economia brasileira. Creio que um rali de alta, como no passado recente, irá demorar um pouco para acontecer. Sendo assim aplicar em títulos de renda fixa com uma taxa de juros neste patamar é o melhor caminho para quem deseja altos retornos com garantia e sem fortes emoções.

A turbulência vai passar, os conceitos de certo irão mudar.

Quem sabe, depois de todo acontecido, em breve possamos voltar ao conceito de: Penso, logo existo?

Porque hoje a ordem é: Penso logo, enrico!

*do latim
ex-ante – de antemão, anterior ao fato
ex-post – posterior ao fato

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