Educação Financeira

Tá legal, eu aceito o argumento…

Hoje é mais um dia da famosa reunião dos membros do comitê de política monetária do Banco Central do Brasil, a chamada reunião do Copom, onde se define a taxa de juros Selic que irá vigorar até a próxima reunião e que tem como objetivo ancorar as expectativas dos agentes econômicos quanto ao comportamento futuro da inflação.

Na chamada teoria horizontalista, da moeda e do crédito, essa taxa de juros serve apenas para fixar o custo de reservas do sistema bancário nacional e não o montante que é demandado pelos agentes econômicos. Esse me parece o caso do Brasil, onde o governo através da atuação direta do Ministério da Fazenda e seus agentes é quem, de fato, tem injetado recursos para expansão do crédito e o crescimento do produto e a geração de empregos.

“Sem preconceito ou mania de passado, sem querer ficar do lado, de quem não quer navegar…”

O Brasil só terá uma política monetária com resultados efetivos quando resgatar o instrumento chamado “open market”, e assim passar a possuir um verdadeiro mercado secundário de títulos públicos para gerar liquidez nestes ativos, permitindo que a taxa de juros tenha efetivamente efeito na alocação dos recursos, penalizando as aplicações de curto prazo, incentivando o alongamento voluntário, formando uma real curva de juros na economia e permitindo um maior acesso a todos os investidores em renda fixa de fato.
O que acontece por aqui é que essa taxa de juros de curto prazo, a taxa Selic, acaba não conseguindo mudar significativamente as expectativas inflacionárias, só gerando custos adicionais às despesas do Tesouro Nacional e aumento da dívida pública, já que um incremento ou diminuição da mesma acaba não afetando de forma significativa o volume de oferta ou demanda do dinheiro em circulação na economia.

Essa é uma das razões pela qual a taxa se torna muito alta. É alta a medida de sua ineficiência como instrumento único da política monetária.

Na prática a verdadeira taxa de juros na economia é aquela que o público e as empresas pagam para obter empréstimos junto ao sistema bancário e essa taxa está longe de ter uma correlação muito direta com a taxa Selic.

Então, o que observamos hoje é o Banco Central sempre correndo atrás de justificativas de curtíssimo prazo para aumentar ou reduzir o tamanho dos juros com a crença de que esse movimento é o grande responsável pelo controle da inflação, nesse chamado regime de metas. Por isso essa volatilidade de justificativas toda vez que se faz uma alteração para mudar a taxa.

Um tempo atrás era a forte demanda interna que estava gerando aumento de preços, hoje é o controle para que o aumento de preços das commodities mundiais não provoque uma contaminação maior na inflação brasileira, amanhã a justificativa será outra, vai de acordo com a volatilidade das expectativas do mercado que, por estar inserido em um contexto global volátil, muda pontualmente a cada alteração relevante de humor externo e ou interno. Nessa semana, mesmo com a queda no preço das commodities as taxas de juros futuros acabaram recuando, jogando por terra os argumentos de demanda interna aquecida e da chamada contaminação de preços por indexação.

A verdadeira indexação econômica no Brasil é a chamada taxa do CDI*. Estão todos indexados a essa taxa de duvidosa formação. A taxa CDI é parâmetro para tudo. Avalia o desempenho de tudo, de fundos de renda fixa, fundos de renda variável e todas as demais aplicações financeiras. Tudo é medido por um percentual da taxa CDI diária.

O exagero é tão grande e difundido que outro dia ao perguntar a um amigo como estava indo seu casamento recente ele me respondeu que passou por uma fase difícil de relacionamento com a esposa, mas que agora estava tudo correndo bem: – “estamos tipo a 100,50% do CDI!”.

É comum hoje em dia observarmos avaliações nas aplicações em renda fixa sendo feitas com base no CDI acumulado, dia a dia, no mês. Quando na verdade, a taxa de renda fixa é aquela que dada num prazo determinado. Por exemplo, a taxa pré-fixada para janeiro de 2010 é de 14,93% ao ano e não a taxa acumulada no CDI do mês de 12,08% ao ano.

Hoje com a globalização dos capitais e com a interação cada dia maior de nossa economia aos mercados internacionais, torna-se inútil a tentativa de controlar movimentos de preços globais apenas com uma taxa de juros interna, ainda mais, como já vimos, com uma política monetária passiva.

A economia americana está longe de ter resolvido a crise por que passa atualmente. As conseqüências do desenrolar dos resultados desta crise são totalmente imprevisíveis. Ao contrário do que a grande maioria costuma avaliar, o mercado financeiro atualmente não é condicionado por um padrão médio de ocorrências, mas sim, pelo que é radical e imprevisível, sendo impossível produzir certezas a partir de incertezas.

Existe hoje também, nos mercados americano e europeu, o risco moral na atuação dos bancos centrais tentando controlar a crise que poderá, no futuro, provocar conseqüências nefastas. A chamada auto-regulação dos mercados só nos tem mostrado que não existem mais regras para o jogo e sim com o que acontece dentro do desenrolar deste jogo.

Mesmo com a enorme liquidez internacional essa crise global pode fazer com que a chamada bolha especulativa das commodities estoure a qualquer momento, e então o Banco Central do Brasil, de certo, irá provavelmente reduzir “drasticamente” a taxa Selic em “absurdos” 0,25% ao ano, como é de praxe.

Diante disto tudo, como venho recomendando há alguns meses, a renda fixa continua como porto seguro e atrativa para se investir com baixo risco e alto retorno.

“Faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar…”

Quanto à reunião do Copom, melhor mesmo é relaxar e aguardar a outorga da “autoridade monetária” ao consenso do mercado. O mesmo mercado que amanhã, assim como as nuvens se movimentam no céu, terá outras justificativas de seu interesse para renvidicar, o que é próprio de mercado.

Mas não me altere o samba tanto assim…

*CDI – Média da taxa de negociação dos depósitos interfinanceiros praticados entre os bancos e que tem um volume irrelevante para balizar toda uma economia. Oportunamente, farei uma apreciação mais detalhada deste indexador.

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