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Real – 15 anos de um plano. Que plano?

Hoje, 1º de julho de 2009, faz quinze anos que o chamado “Plano Real” foi lançado para combater a inflação e criar um ambiente de estabilidade na economia brasileira.
Seguem uma reflexão e um questionamento de quem viveu intensamente o “Plano Real” e todos os momentos econômicos anteriores e posteriores a este chamado plano.

O “Plano”

Depois do fracasso de seis planos econômicos anteriores (Plano Cruzado, Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I e Plano Collor II), em 01/03/94 foi instituída a Unidade Real de Valor (URV) com o valor de CR$ 647,50 e com o objetivo de quebrar a inércia inflacionária e medir a inflação corrente. No entanto, a indexação aumentou e ao contrário do que se pretendia a URV passou a refletir a inflação passada e indexou a taxa de câmbio.

Cabe ressaltar que a URV foi instituída para servir, exclusivamente, como padrão de valor monetário e o Cruzeiro Real continuava utilizado como meio de pagamento e dotado de poder liberatório.

Na conversão para a URV, a idéia de que o mercado se ajustaria e se incumbiria de conter abusos, os preços foram reajustados livremente enquanto que nos salários a conversão foi pela média da URV, assim as perdas chegaram a 36%.

Com a inflação totalmente fora do controle, alcançando índices próximos de 50% ao mês e greves pipocando em todo país em função do arrocho na conversão da URV, o governo do presidente Itamar Franco se viu obrigado a tomar uma medida de urgência. Foi então que no dia 1º de julho de 1994, com a URV alcançando o valor de CR$ 2.750,00, que foi criada a moeda Real, a URV foi extinta e CR$ 2.750,00 passou a valer hum real.

A perda no poder de compra aliada a uma taxa de juros alta e uma taxa de câmbio livre, onde inicialmente R$ 1 era igual a US$ 1, o governo conseguiu, enfim, controlar os índices inflacionários a níveis mais civilizados.

Viés político

A palavra viés significa tendência, assim analises econômicas com viés político, são as analises feitas com tendências a defesa de um argumento político qualquer.

Durante meus 37 anos de mercado, trabalhando na tesouraria de um grande banco nacional de 1973 a 2000 e vivenciando ativamente todos esses planos econômicos, aprendi que toda vez que alguém constrói um cenário econômico futuro com viés político e com base neste cenário assume posições financeiras, invariavelmente, essas posições acabam gerando grandes prejuízos.

Como nos seis planos econômicos anteriores, o Real assim que entrou em andamento e os resultados apareceram, nas reuniões do banco, em seminários e palestras de entidades de classe, os agentes de mercado e economistas, iniciavam um festival de divagações em perspectivas econômicas.
Isso acabava indo parar na grande mídia e influenciando os economistas de dentro e de fora do governo como um todo.
Nestas elucubrações mentais, de acordo com o sucesso das medidas tomadas, concluía-se que tudo foi devidamente planejado.
A partir daí surgiam metas que foram traçadas como: corte nos gastos públicos, recuperação de receita tributária, fim da inadimplência dos Estados e municípios, controle e rígida fiscalização dos bancos estaduais, saneamento dos bancos federais a privatização como meio de reduzir a dívida pública.

Quem participava naquela época, ativamente em reuniões na empresa e no Banco Central do Brasil para tentar resolver os problemas gerados pela falta de planejamento anterior e conseqüente caos de problemas a serem resolvidos e tinha um pouco de consciência do que estava acontecendo, sempre se perguntava quando alguém dizia – o Plano Real… QUE PLANO?
É a pura verdade. Assim como nos “planos” anteriores, nada foi planejado e as tais metas ia surgindo de acordo com o sucesso ou fracasso de medidas anteriores.

Resultados

No início de 1995 tivemos a crise mexicana e um contágio na economia brasileira, que provocou uma mudança de rota no Real. O governo adotou um sistema de bandas cambiais, através do qual procurou executar um processo gradual e controlado de desvalorizações reais do câmbio.
Em janeiro de 1999 com a crise asiática o real acabou sofrendo forte desvalorização e então foi adotado um regime de taxa de câmbio flutuante, acompanhado a seguir por um regime de metas de inflação. Muitos consideram que o Plano Real acabou definitivamente, por ocasião desta desvalorização e do fim da âncora cambial.

 
Os números: o PIB, depois de um crescimento de mais de 4,0% em 1994/95, teve um crescimento médio ao redor de 2,0% em 1996/2002, a relação dívida externa/PIB passou de 27,3% do PIB em 1994 para mais de 39% a partir de 1999, a relação dívida pública/PIB cresceu de 30,4% em 1994 para 41,7% em 1997, alcançando 57,4% em 2002. A taxa de desemprego, que diminuiu rapidamente no início, de 9,0% em julho/94 para 7,8% em dezembro/94, passou a oscilar a partir de então, atingindo seu pico em abril de 2003 (13,6%), provocando uma queda de salários e de poder de compra na população.


Mesmo com o câmbio flutuante e a adoção do regime de metas de inflação, que, diga-se de passagem, foi mais uma medida de emergência copiada de outros países com condições diferenciadas do Brasil, a inflação permaneceu relativamente alta junto com uma enorme taxa de juros e um crescimento econômico medíocre.

A indexação permaneceu alta, não impedindo que preços, principalmente de tarifas de serviços públicos, tivessem o repasse de inflações passadas.

Vejam: Em 15 anos de real, aluguéis subiram 633,52% e a inflação oficial, o IPC-A, subiu 244%.

Conclusão

Se o Real não foi um plano e não obteve tanto sucesso como o esperado, por que então se faz tanta propaganda positiva e porque insistem em dizer que o governo Lula seguiu a cartilha econômica do governo FHC?
Será que continuidade não é pelo fato do governo atual não ter feito nenhum plano mirabolante para a economia?

Não se pode dizer que tudo foi ruim, alguma coisa precisava ser feita naquele momento de hiperinflação dos anos 90, bem ou mal a estabilização da inflação foi conseguida e avançamos em outras coisas de acordo com a necessidade de ajustes. No entanto, o chamado Plano Real, ficou longe de ser, como se diz em mercado, “a última coca-cola do deserto”.

Hoje os agentes econômicos e os empresários, mesmo com a mídia dando ampla divulgação de sucesso do “Plano” Real e reiterando uma continuidade de projeto que não existe, no fundo sabem que a verdade é outra. A população mais carente então, essa não tem nenhuma dúvida. Por mais que insistam nessa mentira que quebrou o país em quatro ocasiões.

Do Real, só restou praticamente a nova moeda.

Este é um depoimento de quem viu e viveu o Real e os outros planos nos últimos 30 anos da história econômica do Brasil, diferente daqueles que não souberam de detalhes e avaliam pelo que alguém, normalmente com viés, escreveu.

 

“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”
Friedrich Nietzsche

 
Saudações

COMENTÁRIOS

Nenhum comentário em “Real – 15 anos de um plano. Que plano?”

  1. Análise positiva o texto. Mas defendendo o plano podemos dizer que tivemos em 15 anos uma mudança grande na precificação de ativos, mediante tecnologia, lei de oferta e procura etc. Querer que uma moeda em 15 anos não tenha nenhum percalço, nenhum tipo de indexação é praticamente impossível. Em 15 anos um Império inteiro pode começar a ser colocado em dúvida. Em 15 anos uma criança torna-se capaz de ser pai. O que quero dizer é que em 15 anos o mundo deu 5.475 voltas em torno de si mesmo. Rodopiou a beça e não querer que uma tontura seja constatada é pedir demais. O Plano Real pode não ter sido um plano, mas foi um pavimento monetário pra alcançarmos alguma melhoria na sociedade. E o Lula sendo presidente agora teve sua tarefa facilitada. Caso tivesse sido presidente antes quem saberia falar como estaríamos ? Eu não gostaria de saber.

    Por Marcelo Marques | julho 1, 2009, 12:03
  2. Evidente que é dificil colocar um pais do tamanho do Brasil nos eixos em tão pouco tempo, mas, parece que teve ou não teve o plano real, este comenário é mais politico do que econômico.

    Por Carlos R. Almeida | julho 1, 2009, 12:44
  3. Perfeito Waldir, gostei da analise, consistente!

    abraços

    Egidio

    Por Egidio Barbosa | julho 1, 2009, 13:05
  4. Prezado Waldir

    Sua análise, em minha opinião, não está totalmente correta. O Plano Real, na realide, foi pensado pelo Delfim e pelo Roberto Campos. A idéia era indexar a inflação, transformando o indexador em moeda corrente. Quer dizer, tentando dar fim à especulação e suas consequências. Não era um “plano” perfeito, mas factível e necessário à epoca visto que, o Brasil, como emergente, precisava colocar as coisas no lugar. Visto pela ótica petista fica difícil entender pois, para isso, é necessário a neutralidade. Considero-me neutro pois nunca votei em FHC nem em Lula, mas, compará-los como governantes é, no mínimo, ridículo. A começar pela corrupção ativa, pelos roubos a luz do dia, pela corja que se instalou em todos os ministérios e repartições, pelo inchaço ABSURDO da máquina pública, pelos arrombos no congresso, claro, superados pelo marketing do PT e pela doença cega dos companheiros idealistas. Continuo pensando que o ideal é belo, mas torna-se doença quando se oculta a realidade conscientemente para que este ideal permaneça. Isso lembra a inquisição…..
    Bem colocado o pensamento de Friedrich Nietzsche

    Por Johnny Giorgi | julho 1, 2009, 13:28
  5. Não podemos esquecer que o nosso presidente era contra tudo que vemos na politica economica hoje, ou quase tudo, é só voltarmos ao passado, como ele diz uma metamorfose, e não esqueçamos que o nosso presidente em 2002 escreveu uma carta aos brasileiros, que comprometia seguir os contratos, pois bem em politica tudo é valido. não fica bem um site economico tomar partido politico.

    Por JOSÉ CARLOS | julho 1, 2009, 13:29
  6. Concordo em tudo, meu sogro que trabalhou no mercado financeiro tem a mesma opinião que a sua Waldir.
    Os argumentos são muito semelhantes.

    Parabéns!

    Ricardo

    Por Ricardo T. | julho 1, 2009, 13:55
  7. Grande Kiel,

    Excelente materia sobre o o real, muito legal ler que conhece muito do mercado financeiro.

    até a vitoria sempre

    Por Samuel Alves | julho 2, 2009, 7:29
  8. Waldir,

    Gostei muito do texto, principalmente pela objetividade com que a economia da época foi avaliada, da melhor forma possível usando os indicadores econômicos citados. Eu tinha conhecimento de vários deles e por um viés direitista eu vejo/vi o Plano Real como a coisa que de fato salvou o país após tantas sucessivas falhas — seja ter salvo por uma “pura sorte” do acaso num plano que no fundo não existiu, seja ter salvo por planejamento cuidadoso da economia por parte de quem estava no seu controle na época. No Brasil, temos sempre a sensação de utopia com relação a qualquer planejamento público.

    Achei o tom do texto um pouco parcial para o lado da crítica ao Real — evidentemente que esse é o objetivo do texto. O pouco conhecimento de economia que tenho me leva a crer que, apesar do Plano Real ter tido falhas que naturalmente deveriam vir de qualquer plano econômico para um país tão debilitado como na época, o mesmo trouxe o país para mais próximo da realidade econômica mundial, trazendo investimentos estrangeiros para o país, privatizando empresas, ao mesmo tempo em que usou do aumento da dívida pública para controlar a inflação — mas não só isso. Esses efeitos são efeitos diretos de qualquer política monetária ou cambial. Acho que o melhor fruto do Plano Real de fato foi a melhora na confiança dos agentes econômicos na economia nacional, assim que a inflação foi reduzida e o câmbio estabilizado, mesmo com os efeitos colaterais conseqüentes disso.

    O Plano Real trouxe a economia brasileira, no primeiro momento, para um controle rígido por parte do Estado, e, em seguida, para uma posição mais próxima de uma economia de mercado, e talvez tenha sido devido a essa correta perspectiva que, após um longo prazo, no ano passado recebemos um Grau de Investimento. Tais perspectivas têm reflexos ruins no curto prazo, e só geram resultados palpáveis no longo prazo. Como todo bom remédio, ele trouxe efeitos colaterais ao “corpo doente” da economia brasileira na época — e como em todo plano econômico, as classes mais baixas pagam invariavelmente o pato em prol da aristocracia. Era natural, por exemplo, que a dívida pública chegasse a patamares históricos, ou que houvesse um gap entre preços de mercado e preços fixados pelo BACEN, ou ainda que houvesse um resquício de indexação em cima da nova moeda. Entretanto — ao menos segundo os pró-FHC –, hoje colhemos o que plantamos no passado. Não me considero um pró-tucano, mas nesse ponto eu atualmente concordo com eles.

    Se por um lado há com certeza um viés direitista sempre que se analisa o Plano Real — ao menos entre os “letrados” da economia –, por outro eu gosto de pensar na seguinte hipótese: “Se o PR não foi como deveria ter sido, como então seria fazer um plano perfeito? Será que isso teria sido possível?” O PR não foi nem de longe a última coca-cola do deserto, mas quantos exemplos na história mundial será que temos de planejamentos perfeitos que deram certo — em comparação a tantas propostas que furaram? Talvez o PR tenha sido algo bem mais prático (e suscetível a erros) do que em teoria poderia ter sido, e que “graças a Deus, funcionou”. Passar do papel para a ação não é nada fácil. O antigo Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, em meio a essa nuvem de ódio público que sempre o cerca, que o diga.

    Waldir, gostei muito do texto e, principalmente, do tema, pelo qual sou fascinado. Por favor, corrija qualquer absurdo que eu possa ter dito.

    Abraços!

    Por Aleksey | julho 2, 2009, 16:33
  9. Gostei da crítica.
    Também achava que, muito dos elogios feitos ao PLANO REAL, eram por motivos meramente políticos, e no texto vê-se números bastante desagradáveis. Aí fica difícil ser fã do PLANO REAL.
    ANDRÉ

    Por ANDRE | julho 5, 2009, 18:43

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