A arte, quando coloca em cena camadas diferentes da sociedade, apresenta seguramente sua condição mais sublime que é a de estabelecer com o público uma relação simbiótica na forma de expressar a estética, a beleza, a harmonia e o equilíbrio.
No século XIV um historiador veronês concebeu um projeto de reunir os retratos esparsos de 150 contemporâneos identificáveis do senhor Verona, Cangrande Della Scala. Ir ao encalço de rostos de pedra e devolver-lhes sua identidade, tirar notáveis dos grupos pictórios em que se fundem, foi na tradição de Michelet, a louca ambição de ressuscitar indivíduos cuja ação e cujas paixões contribuíram, com a multidão de seus contemporâneos, para o destino de uma sociedade. Personagens públicos, cuja imagem pintada ou esculpida atestava o poder ou a reputação, e que ofereciam à visão da maioria aquilo que lhes pertencia propriamente, seu rosto e sua atitude.
Representar a pessoa não é um uso comum a todas as civilizações e nem a todas as épocas. No Ocidente, a renovação do retrato figurado, a partir de meados do século XIV, exprime a progressiva liberação do indivíduo, saindo do quadro social e religioso onde o haviam imobilizado a adoração e a munificência privadas. Ela nasce sem dúvida também da prática leiga e pública que, ao menos na Itália central e setentrional, expunha nos muros a imagem dos condenados ao opróbrio da comunidade. Ela traduz, enfim, o apego à memória dos indivíduos que, ao longo do tempo, teceram a história familiar e de que davam testemunha em Florença. Seria uma longínqua homenagem a tradição etrusca, os retratos de cera perfeitamente parecidos, expostos como ex-voto em Santa Maria Anunziata, ou conservados no privado das grandes famílias e apresentados por ocasião das festas e procissões públicas, demonstrando a antiguidade e o poder do clã?
No mundo contemporâneo, a arte, e em especial a pictória, vem sendo tratada como mercadoria e reserva de valor. Não bastassem as últimas guerras serem responsáveis por pilhagens ou posse de vencedores das batalhas das obras de países devastados, hoje as grandes telas estão em acervos privados, em mãos de patrimônios não declarados e em Museus que perderam a filantropia.
No site na internet “La Tribune de l’Art”, uma espécie de central de monitoramento do setor cultural, podemos observar o movimento que vem acontecendo de alguns anos para cá. Museus tradicionais estão alugando suas grandes obras para outros Museus que não de origem, principalmente os americanos, no intuito de angariar fundos. A justificativa é que assim, um maior número de pessoas possa ter maior conhecimento e intimidade com obras de arte que outrora estavam em lugares distantes. Não mencionam o fato de os Museus estarem localizados em que o povo é abastado como o High Museum of Art de Atlanta e os Guggenheim espalhados pelo mundo.
O aluguel de obras feito pelos museus tradicionais e a cobrança de ingressos caros por parte de quem aluga transformou, infelizmente, a arte em um grande negócio financeiro.
Antes da crise econômica que abalou o mundo o preço das obras de arte disparou, os negócios se multiplicaram e o grande público foi ainda mais, afastado do acesso às artes. No século XIV, como todas as dificuldades de comunicação e deslocamento de pessoas tinha-se maior visibilidade artística.
Boaventura de Sousa Santos traça um retrato melancólico da minha querida Europa: “Nos últimos quinze anos, o modelo social europeu foi minado por dentro e por fora, através de uma insidiosa convergência entre o neoliberalismo imposto pelos EUA e as elites econômicas e financeiras europeias, desejosas de se verem livres da regulação estatal forte e dos custos das políticas sociais”.
Assim, qual seria o quadro que um gênio da pintura faria para representar o mundo atual, onde a pressa de ganhar dinheiro acaba atropelando todos os escrúpulos e valores morais da nossa sociedade?
Talvez a melhor expressão fosse à expressão aprisionada.
l’espressione intrappolati
*Maximo Umiliani é Economista, pós-graduando em Ciências Sociais e trader




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