Pré-sal: esperança para o pobre?
Nas últimas semanas, as capas dos jornais foram inundadas pelas espessas “águas” encontradas nos 149 mil quilômetros quadrados de reservas do Espírito Santo a Santa Catarina. O pré-sal emergiu de repente nos meios de comunicação e foi apresentado, de maneira geral, em manchetes e declarações otimistas quanto ao futuro econômico e social do Brasil.
A descoberta se revelou uma enxurrada que atravessou as fronteiras do país. Até mesmo a revista britânica The Economist, citada na Folha Online, parou para analisar a situação e alertar o Brasil a investir o futuro dinheiro. Segundo a revista, se o pré-sal for usado adequadamente, pode até ajudar o país a superar a pobreza e o subdesenvolvimento.
Na imprensa brasileira, a maior parte das afirmações referentes ao destino dos lucros das reservas foi atribuída ao governo, em especial à figura do presidente. O Estado de S. Paulo, por exemplo, apresentou no dia 2 de setembro a seguinte reportagem: “Papel do governo no pré-sal é como o de uma mãe”. O título era uma das declarações otimistas do presidente colocadas na matéria. Segundo as afirmações, o lucro gerado pelas reservas deve auxiliar no crescimento de todo o Brasil, e esse dinheiro “é uma dádiva de Deus que foi dada ao nosso País”.
Outra declaração do presidente foi publicada alguns dias antes, 27, na Folha Online. Na reportagem, o governante dizia que nós “temos que ter conhecimento e utilizar parte desse dinheiro para tirar o povo da pobreza”. O impresso da Folha do dia 28 trouxe uma afirmação semelhante: “Os recursos serão carimbados para a educação, ciência e tecnologia e combate à pobreza, ‘três coisas sagradas para tirarmos o país da situação em que se encontra’”.
Análise dos fatos
A atribuição de tantas afirmações positivas a um único personagem pode sugerir uma tentativa jornalística de abster-se da responsabilidade sobre o que foi publicado. Porém, de acordo com o jornalista Valdo Cruz, repórter-especial da Folha de S. Paulo, os jornais não têm alternativa. Para ele, é dever dos meios de comunicação colocar na reportagem o que foi dito, contanto que a informação seja verdadeira.
Checar as informações na área petrolífera exige esforço. De acordo com o economista Waldir Kiel, é muito difícil ter certeza da produção futura nas camadas pré-sal. Segundo ele, fazer afirmações a respeito do lucro esperado das reservas é arriscado, pois as declarações não passam de hipóteses. “Todos os cálculos são suposições. O valor produzido pode não ser confirmado ou até ser o dobro do esperado”, explica Kiel.
Levando em consideração a análise do economista, as frases empolgadas do presidente Lula deixam dúvidas. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, reforça os questionamentos. Em entrevista à Globo News, ele fez questão de ressaltar que as “reservas não são ‘vaca leiteira’ em termos de dinheiro”. Em outras palavras, o pré-sal não trará tanto lucro a ponto de “tirar o povo da pobreza”, por exemplo.
Em meio à torrente de informações, precisamos de solo firme para pisar! Sem a pretensão de querer desmascarar uma suposta “teoria da conspiração” contra os pobres, o Canal se propôs a realizar um cálculo a partir de dados que os próprios envolvidos nesta grande navegação ofereceram.
Com as novas plataformas do pré-sal, a produção de petróleo deve alcançar a marca de 1,2 milhão de barris por dia a partir de 2017. Se nessa época o preço do barril estiver próximo de 70 dólares, como prevê a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil produzirá 30,7 bilhões de dólares anualmente com o ouro negro das novas reservas.
Continha semelhante pode ser feita para averiguar a despesa de toda essa produção. Segundo Gabrielli, o custo do barril não deve passar de 45 dólares. Pois bem, se esse for realmente o valor, a cifra alcançará os 19,7 bilhões a cada ano.
O resultado é o seguinte: o lucro da produção ficaria em 11 bilhões de dólares ao ano. Se essa bolada fosse dividida igualmente para os 62 milhões de pobres do Brasil (segundo a estimativa do IBGE), cada um receberia um prêmio de 177,40 dólares. Ou, na moeda tupiniquim, 319,32 reais. Certamente iria ajudar na festa de natal.
Será?
Mesmo ajudando na ceia natalina, a quantia não parece suficiente para trazer a “redenção aos pobres”. A realidade, porém, é ainda mais distante do nosso cálculo otimista e despretensioso. Do lucro total, será retirada apenas uma parcela – ainda sem valor definido – para compor o Fundo Social, cujos recursos serão aplicados em educação, ciência e tecnologia, meio ambiente, cultura e erradicação da pobreza.
Mas tem mais: a Petrobras é uma empresa mista (e não apenas estatal), que tem 60% do capital negociado no mercado e diluído nas mãos de 1 milhão de investidores (só para comparar, mantenha na memória os 62 milhões de pobres). É de se esperar que esses acionistas recebam, portanto, dividendos proporcionais à participação na empresa. E os pobres?
De acordo com a assessora de imprensa da Petrobrás, Luciana Renna, a proposta do Fundo Social nem está definida e, por isso, a empresa evitará qualquer manifestação em relação às afirmações. Se a própria empresa não tem uma definição do assunto, aumentam os questionamentos sobre a “redenção dos pobres”.
Para o jornalista Valdo Cruz, essas falhas nas declarações divulgadas evidenciam que as afirmações do presidente não passam de discurso eleitoral. Apesar disso, o jornalista não menospreza a descoberta. “Há, de fato, uma nova reserva importante para o país. O que ninguém tem certeza é se ela vai transformar o Brasil num país de primeiro mundo. Na pior das hipóteses, é um grande avanço”, assegura.
A assessora da Petrobras acredita nesse avanço do país. Segundo ela, a exploração da camada pré-sal permitirá o desenvolvimento da indústria de base [que produz matéria-prima ou máquinas] e das empresas de engenharia, indústria naval e prestadoras de serviço. Além disso, a descoberta ampliará as oportunidades de emprego e formará mão-de-obra altamente especializada.
Kiel também acredita no desenvolvimento do Brasil a partir das reservas, mas lembra que nem todas as promessas apontadas pelo governo são verdadeiras. “O pré-sal gerará emprego, proporcionará o crescimento das regiões da Petrobras, e, também será uma grande contribuição para reduzir a pobreza e incentivar a educação. Agora, fora isso, é exagero!”, garante.
Raquel Derevecki – http://abjnoticias.com/2009/10/06/pre-sal-esperanca-para-o-pobre/#commenting
Nas últimas semanas, as capas dos jornais foram inundadas pelas espessas “águas” encontradas nos 149 mil quilômetros quadrados de reservas do Espírito Santo a Santa Catarina. O pré-sal emergiu de repente nos meios de comunicação e foi apresentado, de maneira geral, em manchetes e declarações otimistas quanto ao futuro econômico e social do Brasil.
A descoberta se revelou uma enxurrada que atravessou as fronteiras do país. Até mesmo a revista britânica The Economist, citada na Folha Online, parou para analisar a situação e alertar o Brasil a investir o futuro dinheiro. Segundo a revista, se o pré-sal for usado adequadamente, pode até ajudar o país a superar a pobreza e o subdesenvolvimento.
Na imprensa brasileira, a maior parte das afirmações referentes ao destino dos lucros das reservas foi atribuída ao governo, em especial à figura do presidente. O Estado de S. Paulo, por exemplo, apresentou no dia 2 de setembro a seguinte reportagem: “Papel do governo no pré-sal é como o de uma mãe”. O título era uma das declarações otimistas do presidente colocadas na matéria. Segundo as afirmações, o lucro gerado pelas reservas deve auxiliar no crescimento de todo o Brasil, e esse dinheiro “é uma dádiva de Deus que foi dada ao nosso País”.
Outra declaração do presidente foi publicada alguns dias antes, 27, na Folha Online. Na reportagem, o governante dizia que nós “temos que ter conhecimento e utilizar parte desse dinheiro para tirar o povo da pobreza”. O impresso da Folha do dia 28 trouxe uma afirmação semelhante: “Os recursos serão carimbados para a educação, ciência e tecnologia e combate à pobreza, ‘três coisas sagradas para tirarmos o país da situação em que se encontra’”.
Análise dos fatos
A atribuição de tantas afirmações positivas a um único personagem pode sugerir uma tentativa jornalística de abster-se da responsabilidade sobre o que foi publicado. Porém, de acordo com o jornalista Valdo Cruz, repórter-especial da Folha de S. Paulo, os jornais não têm alternativa. Para ele, é dever dos meios de comunicação colocar na reportagem o que foi dito, contanto que a informação seja verdadeira.
Checar as informações na área petrolífera exige esforço. De acordo com o economista Waldir Kiel, é muito difícil ter certeza da produção futura nas camadas pré-sal. Segundo ele, fazer afirmações a respeito do lucro esperado das reservas é arriscado, pois as declarações não passam de hipóteses. “Todos os cálculos são suposições. O valor produzido pode não ser confirmado ou até ser o dobro do esperado”, explica Kiel.
Levando em consideração a análise do economista, as frases empolgadas do presidente Lula deixam dúvidas. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, reforça os questionamentos. Em entrevista à Globo News, ele fez questão de ressaltar que as “reservas não são ‘vaca leiteira’ em termos de dinheiro”. Em outras palavras, o pré-sal não trará tanto lucro a ponto de “tirar o povo da pobreza”, por exemplo.
Em meio à torrente de informações, precisamos de solo firme para pisar! Sem a pretensão de querer desmascarar uma suposta “teoria da conspiração” contra os pobres, o Canal se propôs a realizar um cálculo a partir de dados que os próprios envolvidos nesta grande navegação ofereceram.
Com as novas plataformas do pré-sal, a produção de petróleo deve alcançar a marca de 1,2 milhão de barris por dia a partir de 2017. Se nessa época o preço do barril estiver próximo de 70 dólares, como prevê a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil produzirá 30,7 bilhões de dólares anualmente com o ouro negro das novas reservas.
Continha semelhante pode ser feita para averiguar a despesa de toda essa produção. Segundo Gabrielli, o custo do barril não deve passar de 45 dólares. Pois bem, se esse for realmente o valor, a cifra alcançará os 19,7 bilhões a cada ano.
O resultado é o seguinte: o lucro da produção ficaria em 11 bilhões de dólares ao ano. Se essa bolada fosse dividida igualmente para os 62 milhões de pobres do Brasil (segundo a estimativa do IBGE), cada um receberia um prêmio de 177,40 dólares. Ou, na moeda tupiniquim, 319,32 reais. Certamente iria ajudar na festa de natal.

Será?
Mesmo ajudando na ceia natalina, a quantia não parece suficiente para trazer a “redenção aos pobres”. A realidade, porém, é ainda mais distante do nosso cálculo otimista e despretensioso. Do lucro total, será retirada apenas uma parcela – ainda sem valor definido – para compor o Fundo Social, cujos recursos serão aplicados em educação, ciência e tecnologia, meio ambiente, cultura e erradicação da pobreza.
Mas tem mais: a Petrobras é uma empresa mista (e não apenas estatal), que tem 60% do capital negociado no mercado e diluído nas mãos de 1 milhão de investidores (só para comparar, mantenha na memória os 62 milhões de pobres). É de se esperar que esses acionistas recebam, portanto, dividendos proporcionais à participação na empresa. E os pobres?
De acordo com a assessora de imprensa da Petrobrás, Luciana Renna, a proposta do Fundo Social nem está definida e, por isso, a empresa evitará qualquer manifestação em relação às afirmações. Se a própria empresa não tem uma definição do assunto, aumentam os questionamentos sobre a “redenção dos pobres”.
Para o jornalista Valdo Cruz, essas falhas nas declarações divulgadas evidenciam que as afirmações do presidente não passam de discurso eleitoral. Apesar disso, o jornalista não menospreza a descoberta. “Há, de fato, uma nova reserva importante para o país. O que ninguém tem certeza é se ela vai transformar o Brasil num país de primeiro mundo. Na pior das hipóteses, é um grande avanço”, assegura.
A assessora da Petrobras acredita nesse avanço do país. Segundo ela, a exploração da camada pré-sal permitirá o desenvolvimento da indústria de base [que produz matéria-prima ou máquinas] e das empresas de engenharia, indústria naval e prestadoras de serviço. Além disso, a descoberta ampliará as oportunidades de emprego e formará mão-de-obra altamente especializada.
Kiel também acredita no desenvolvimento do Brasil a partir das reservas, mas lembra que nem todas as promessas apontadas pelo governo são verdadeiras. “O pré-sal gerará emprego, proporcionará o crescimento das regiões da Petrobras, e, também será uma grande contribuição para reduzir a pobreza e incentivar a educação. Agora, fora isso, é exagero!”, garante.
Raquel Derevecki
http://abjnoticias.com/2009/10/06/pre-sal-esperanca-para-o-pobre/
E meio a tantas conjecturas e suposições, em parte aceitáveis do ponto de vista do exercício econômico de projeção do futuro, a unica certeza parece ser a monumental exploração política do evento e a inserção do assunto na campanha eleitoral de 2010 que corre solta pelo Brasil afora.
TEXTO MUITO INTERESSANTE E OPORTUNO!
BEM REALISTA!
Como sempre a melhor…
Parabens…
muito boa reportagem.