O que os grafistas podem nos dizer sobre a crise?
A crise subprime veio e os economistas, com todo seu arsenal teórico, não souberam prever, identificar e/ou não quiseram atrapalhar a inflação de ativos. Alguns alertavam sobre a formação de bolha nos preços das casas e compreendiam os estragos que ocorrem quando se estoura uma. Enquanto outros, com seu viés neoliberal sobre a auto-regulação do mercado e ferramentas estatísticas analíticas sobre o risco das sofisticadas operações dos derivativos de hipoteca, afirmavam que a economia ia bem, obrigado.
Com computadores mais poderosos, aumentou a crença na explicação dos modelos matemáticos de como as forças econômicas irão interagir. Mas muitos dos modelos simplesmente dispensam certas variáveis que apontem conclusões claras, como disse Sidney G. Winter, professor de Wharton. Normalmente faltam fatores como a psicologia humana e as expectativas futuras das pessoas, que são fatores difíceis de medir, ele nota.
Uma forma alternativa, não academicamente reconhecida, para medir os impactos de todos os comportamentos humanos numa trajetória de preços em mercado financeiro é a análise gráfica, que é um dos pilares da análise técnica (AT). A primeira busca identificar padrões gráficos, enquanto a segunda é o cálculo de indicadores referentes aos preços. Esse tipo de análise entende que todo fator que afeta o preço de um ativo já se encontra refletido no seu preço, preços movem-se em tendências e que a história se repete, quer dizer, projeções futuras são um espelho do passado.
É claro que analisar gráficos depois da crise e explicar por que apontavam para uma queda brusca na cotação dos ativos é fácil e não merece muito mérito, mas talvez o mesmo possa ser dito aos economistas que agora podem tentar explicar que a crise estava prestes a estourar. Alguns grafistas, dentre eles Rafael Valim – colunista daqui do A2 –, consideravam claro o movimento de reversão, pois havia indicadores suficientes apontando que o movimento altista existente era insustentável. Na descrição técnica de Valim, alguns recursos quando utilizados em leituras de longo prazo, como as Retrações de Fibonacci e Ondas de Elliott, demonstravam recuos possíveis e plausíveis, tendo como referência recuos passados; indicadores como forte divergência no IFR e médias móveis se intercruzando apontavam que uma forte correção estava por vir. Em suma, a crise foi algo pouco comum na AT, mas que enfatiza a veracidade da análise: todos os principais fatores, além dos já citados, apontavam na mesma direção.
Por outro lado, através dos gráficos, os grafistas não reconheceram a formação de uma bolha. Mas acertaram o momento em que iria reverter a tendência e fizeram projeções razoáveis para até aonde iriam os níveis do mercado. Ou seja, se empiricamente funciona para prever crises, por que não utilizar a AT?
Após procurar mostrar porque a AT seria útil, precisamos entender porque podemos usá-la se não há um aparente reconhecimento econômico e científico sobre sua validade. Esse debate é análogo ao da psicanálise: não há faculdades que ensinem isso, apenas cursos privados que não podem dar um diploma a seus alunos, mas muitos dos que a utilizam, comprovam na prática sua eficácia. Existem alguns estudos que ajudam a sustentar as hipóteses da AT, por isso, do ocultismo e misticismo, ela volta a transitar na realidade. Num desses, Andrea M. A. F. Minardi concluiu, num estudo em 2004, que séries de preços passados contêm algum poder de previsão.
O resultado de Minardi acalenta aos operadores day-traders – que são os maiores fiéis da AT – do mercado de capitais através de testes econométricos – estes sim, cientifica e economicamente válidos – para comprovar a funcionalidade da AT. Mas uma das explicações possíveis tem origem em razões behavioristas.
São seres humanos que fazem compras ou vendas no mercado financeiro. Cada qual faz sua avaliação sobre o preço justo de um ativo, e tem sua respectiva aposta (expectativa) de alta ou baixa. Além disso, não somos seres emotivamente inabaláveis, portanto, passamos para o mercado nossos sentimentos eufóricos ou pessimistas, nossos impulsos, configurando uma racionalidade limitada. Assim, parte da responsabilidade da crise subprime é dos investidores, com idiossincrasias que estão refletidas nos preços, seja na formação da bolha, seja no seu abrupto estouro.
A compreensão da configuração de um novo padrão pelos agentes é limitada, pois não reagimos de forma completamente racional a chegada de novas informações. Por isso, é válida a noção de que séries passadas de preços persistem, mantendo certa inércia. Em consequência, surgem algumas “irracionalidades” e anomalias, dentre as quais:
Erros de previsão: relacionam-se com fenômenos de reação em excesso, em que o investidor atribui um peso maior às informações mais recentes, em relação às anteriores.
Excesso de confiança: as pessoas tendem a subestimar a imprecisão de suas previsões e a superestimar suas habilidades.
Necessidade de evitar o arrependimento: os psicólogos descobriram que os tomadores de decisão culpam-se mais quando suas decisões não convencionais se mostram ruins.
Modelagem e raciocínio mental: as decisões parecem ser afetadas pela maneira como as alternativas são modeladas.
São comportamentos como estes, que os grafistas procuram identificar. Em reversões e continuações de tendências, há padrões gráficos que ocorrem repetidamente. E podem ser sustentados através dos indicadores de tendência e dos osciladores – outro tipo de indicador técnico.
Vamos pensar nas retas características dos gráficos. Suportes e resistências (retas traçadas que indicam pontos de reversão) são obedecidos, pois as pessoas têm memória, isto é, sabem que anteriormente, quando um ativo atinge determinado preço, ele caiu ou subiu, e através disso compram ou vendem. Esta heurística da representatividade, ou regra simples que auxilia no dia-a-dia e é baseada na forte ênfase do passado recente, pode levar a negligência de evidências relevantes e outros erros.
Portanto, pode-se concluir que se os mercados refletem a irracionalidade dos investidores, não são perfeitos. E se existe uma ferramenta, que está em fase de comprovação de eficácia, para medir isso e prever comportamentos, ela deve ser usada.
Giovani Damiano é estudante de Economia e trader




Grande Giovani,
Eu penso assim acreditar nos graficos ainda é a maneira mais facil de se sonhar que vai ganhar na bolsa.
Eu mesmo não tenho coragem de comprar ou vender me baseando somente nos graficos, penso que os graficos sempre nos dão as duas opções de queda ou alta,
A vida do investidor seria muito facil se fosse possivel ganhar dinheiro na bolsa acreditando nos graficos.
Ai não precisariamos nem de estudos bastava deixar o PC programar nossas compras e vendas..
até a vitória sempre e 100 anos de vida para todos nos
Samuel, esse debate é bem longo. O que é melhor: gestão ativa ou passiva? Na gestão ativa, o que é mais preciso/eficiente análise fundamentalista ou técnica?
Num outro texto aqui no A2 (http://www.avisoemdois.com.br/avisos/bolsa-de-valores-%e2%80%93-qual-a-melhor-estrategia/), eu disse que no longo prazo, o melhor é comprar e não fazer nada.
Eu particularmente ainda estou aprendendo para poder dizer qual definitivamente é o melhor método e estratégia na bolsa.
De qualquer forma, a AT ao menos poderia ser uma ferramenta a mais para poder definir alguns cenários, não a única e exclusiva.
Poderíamos, talvez fazer um mix de AT e AF, com vistas sempre à conjuntura macroeconômica.
Paro por aqui, dizendo que apenas fiz uma defesa sobre alguns aspectos positivos da AT.
O link não está funcionando. Digite no campo de busca do site (no topo da página) meu nome que vai aparecer o texto.