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O Caminhão do Faustão

A forte expansão do mercado financeiro no Brasil e, principalmente, o aumento vertiginoso da participação do investidor pessoa física em todos os segmentos, com destaque para as operações com títulos públicos via Tesouro Direto e na Bolsa de Valores, mostra a necessidade que os pequenos investidores têm de buscar mecanismos que criem melhores condições de competir com os investidores de grande porte.

Descontos maiores de corretagens, acesso operacional rápido aos mercados e ferramentas de análise são alguns exemplos de conquistas que os investidores de pequeno e médio porte conseguiram ao longo dos últimos anos.

Esta reflexão quanto às condições de competitividade de mercado me fez lembrar uma passagem interessante que aconteceu no mercado de títulos públicos nos anos 1990 na cidade do Rio de Janeiro.

Como é sabido, o Rio de Janeiro foi, por um longo período, o centro financeiro e cultural do Brasil, com todas as instituições financeiras tendo seus principais executivos baseados na Cidade Maravilhosa. Esse fenômeno durou até por volta do ano 2000, quando depois passou a ser São Paulo o centro de comando das instituições financeiras e também da Bolsa de Valores.

Neste período, anos 1990, o mercado monetário movimentava um volume expressivo de recursos no chamado overnight e nas negociações de compra e venda definitivas de títulos públicos federais, principalmente as LTNs (títulos pré-fixados). A competição em busca de inferir sobre a tendência da taxa de juro futura era frenética; bancos, corretoras e distribuidoras de valores buscavam rendimentos no giro diário dos recursos do over e também no carregamento e giro de posições em títulos – públicos e privados.

As corretoras e distribuidoras de menor porte procuravam se unir para enfrentar os gigantes do mercado, que eram os grandes bancos, as corretoras e bancos de investimentos maiores. O leilão de títulos públicos tinha um giro enorme, as operações se iniciavam nas negociações a termo anteriores à emissão dos papéis no chamado “leilão a termo” e seguiam no dia da sua emissão em diante. Sendo assim, a disputa por adquirir o título no leilão a uma taxa muito próxima da taxa máxima da emissão era ferrenha.
Foi então que, da união destas menores instituições, uma distribuidora de valores chamada Pace decidiu chamar os amigos e parceiros para entrarem juntos nos leilões de títulos LTNs. Ao somar o volume de propostas de todos que participam deste consórcio, a chance de comprar os papéis no leilão a um preço muito próximo da taxa máxima de rendimentos era muito maior, já que quanto maior o volume, maior o poder de consenso e de fogo para participar da disputa.

No início eram alguns poucos que participavam deste acordo, porém, com os resultados positivos alcançados no decorrer do tempo, o número de participantes aumentou muito e por consequência o volume financeiro de ingresso nos leilões também subiu, chegando a um momento onde todos queriam participar. Terminado o período de entrega das propostas no leilão, a maior curiosidade era saber qual foi a taxa em que este pessoal tinha entrado. Como as operações e conversas entre operadores eram feitas por contatos telefônicos, a criatividade peculiar dos operadores logo criou um termo para falar sobre as propostas concentradas na Pace DTVM. As dúvidas que antes eram: Que taxa você entrou? Qual a taxa do pessoal que entra em conjunto? , passaram a ser: O que está achando do leilão, qual a taxa que entrou o “Caminhão do Faustão”? Você mandou proposta do “Caminhão do Faustão”?

Assim, em alusão a um quadro do programa de domingo do Fausto Silva que distribuía um caminhão de mercadorias aos ganhadores, a união de pequenos e médios do mercado foi chamada por um longo tempo de “Caminhão do Faustão”.

Relembrei este fato, que é de conhecimento de muita gente da chamada velha guarda do mercado, por considerar um bom exemplo de união e esforços para competir com os chamados grandes.

No quadro atual, algumas mudanças ainda precisam ser feitas no mercado financeiro brasileiro. Um exemplo seria um rigor maior por parte da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) na fiscalização e punição com ressarcimento aos prejudicados nos casos de insiders, monopolização de ativos e manipulações de preços. Acredito que em um futuro próximo teremos um mercado maior, mais transparente e menos centralizado, seja em operações corriqueiras como também nas operações de créditos e financiamentos de uma maneira geral.

“Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado”, Albert Einstein.

COMENTÁRIOS

1 Comentário em “O Caminhão do Faustão”

  1. Estimado Waldir:

    Mas uma interessante matéria, como tantas outras as quais nos tens acostumado a nós leitores das colunas do site. Gostaria de deixar minha impressão sobre alguns pontos tratadas na mesma. Em primeiro lugar, na minha visão o incremento do tamanho do mercado financeiro brasileiro está muito relacionado a um fenômeno o qual estamos vivenciando atualmente e do qual muito se falará no futuro: a inclusão social e de aumento das classes de consumo nas economias emergentes. Este evento em transição está mudando a geopolítica internacional e o mesmo coloca o Brasil como ator principal no mapa mundial por dois fatores principais, por ser um dos paises que configuram este quadro e em segundo lugar, por ter papel estratégico como subministrador de insumos energéticos, minerais e agrícolas para grandes massas populacionais de paises em crescimento carentes dos mesmos. Outra reflexão que surte ao ler a matéria e que esta mudança lenta, no entanto consistente do eixo de consumo é fruto do novo processo de liberalização econômico iniciado pos entrada da China na Organização Mundial do Comercio em inicio do milênio que é resultado assim como na mudança de sede do mercado de capitais brasileiro da maior competitividade da economia asiática, fenômeno que com o sem apreciação do yuan nos próximos meses, veio para ficar. No cenário atual de muitas incertezas a continuidade do crescimento dos emergentes parece surgir como umas das poucas convergências de opinião, assim como o bom cenário esperado para commodities. Neste ponto o racional parece estar bem claro: se o mercado acredita que a China continua a crescer, então compra Brasil. Se as commodities terão um bom desempenho nos próximos anos: Brasil é compra. Tudo parece indicar que o fluxo externo continuará forte para o Brasil e qualquer evento de realização pontual como o evento Grécia de inicio do mês passado configuram ponto de entrada para os mercados de juros e bolsa. Esta alta atratividade de uma nação para o capital externo também ocorreu em outros países em outra realidade histórica. Os Estados Unidos foram destino de enormes fluxos de capitais após a primeira guerra. A própria América Latina na década de setenta foi destino da abundancia de petrodólares e mais recentemente os tigres asiáticos em meados da década de noventa.

    Estes enormes fluxos de capitais geraram em determinado ponto a sensação de continuidade na valorização de ativos, contribuindo para a geração de distorções entre preço e valor de equilíbrio que acabaram com fortes realizações nestes mercados. Ainda é cedo para falar de grandes distorções e a alta liquidez global estimulada pelos Estados Unidos contribuirá para a continuidade da valorização do mercado acionário brasileiro. Esta claro porém que este processo de valorização não é “ad eternum” e que o investidor precisa cada vez mais estar atento as grandes divergências existentes.

    Abraço,

    Sebastián Laguarda Adinolfi

    Por Sebastián Laguarda Adinolfi | março 11, 2010, 14:45

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