Colunas

Mercado é quase soberano

Em situações normais de estabilidade de preços, operadores costumam justificar os movimentos dos ativos dizendo que “o mercado é soberano”, o mercado nunca está errado se você acha que você está certo e o mercado errado, saiba que o errado sempre será você.
Se os preços sobem é descem é porque os mercados assim desejam, por mais absurdo que possa parecer para alguns.
Quem comanda é o mercado.
Mas o que é mercado?
Em definição ampla, designa-se por mercado o local no qual agentes econômicos procedem à troca de bens por uma unidade monetária ou por outros bens. E que os mercados tendem a equilibrar-se pela lei da oferta e da procura.
Existem vários tipos de mercado: mercado de concorrência perfeita, monopolista, oligopolista e concorrência monopolista.
O financeiro é normalmente conceituado como mercado de concorrência perfeita. O que não é verdade, pois a intervenção dos estados, mesmo em períodos de estabilidade, mostra o quanto existe de políticas particulares e interesses específicos.
Existem inúmeros exemplos de defesa de interesses próprios: as brigas na OMC, a OPEP, definição de preço do aço no mercado mundial, no Brasil a guerra fiscal entre os estados e inúmeras situações que observamos o tempo todo.
O que desequilibrou os mercados dos paises desenvolvidos a ponto dos estados intervirem desta forma agressiva como nos dias de hoje?
A indústria de serviços financeiros e seus produtos exóticos e derivados.
No caso dos EUA o economista Paul Crugman dá o seguinte diagnóstico: “Estamos falando de muito dinheiro. Nos últimos anos, o setor financeiro foi responsável por 8% do PIB americano, um aumento em relação aos quase 5% na geração anterior. Se esses 3% adicionais foram constituídos por dinheiro sem valor o que provavelmente é verdade, estamos falando de um rombo anual de US$ 400 bilhões em fraudes, abusos e desperdício”.
O enriquecimento rápido multiplicou muito mais o dinheiro do que os produtos no planeta e chegamos a um momento que poucos querem admitir: a hora do ajuste, ajuste de preços relativos.
As bolsas de valores com alta liquidez foram nas alturas, por outro lado as primeiras a sofrerem o ajuste.
Isso irá ocorrer com todo tipo de ativo que subiu de preço no sentimento de riqueza rápida, abundante e infinita. Os de maior liquidez ajustam antes, os de baixa liquidez ao longo do tempo.
O fato de o Brasil ter entrado no final da festa, por incrível que pareça, foi muito benéfico. Continuamos baratos e nosso ajuste será bem menor que nos países acima da linha do Equador.
Os Bancos Centrais pelo mundo todo estão inundando as economias com recursos e baixando violentamente as taxas de juros por eles praticadas.
Os governos tentam salvar indiscriminadamente qualquer setor que esteja com problemas de solvência ou de liquidez.
Até mesmo as montadoras de automóveis americanas que estavam em situação difícil a mais de 10 anos, com a concorrência japonesa, conseguiram angariar seu quinhão.
Se os governos não ficarem atentos, mesmo com a iniciativa privada perdendo grande espaço para o estado, muito em breve estaremos de volta ao mundo maravilhoso da multiplicação da riqueza, sem controle, sem pudor e com a mesma desregulamentação.
No Brasil as intervenções estão sendo realizadas mais no sentido de fazer fluir a liquidez do que por problemas de insolvências de empresas e bancos.
Se o dinheiro não circula o crédito fica escasso, não encontrando financiamento as empresas encontram dificuldades para produzir e acabam demitindo funcionários.
Dinheiro na economia brasileira tem de sobra, o problema é que está concentrado nas mãos de grandes instituições que não fazem os recursos girarem. Por isso o Ministério da Fazenda e os governadores através de instituições públicas como a CEF, BNDES, Banco do Brasil e Bancos Estaduais ampliaram suas linhas de crédito para a atividade econômica não recuar e se possível impulsionar.
E o nosso Banco Central nesse imbróglio todo? Qual tem sido o seu papel?
Liberar compulsórios dos bancos, atuar no câmbio basicamente com swaps gastando poucas reservas e manter uma taxa de juros nas alturas. Nada de novo.
Liberar compulsório com uma taxa de juros de 13,75% ao ano e com uma confiança em dúvida na economia só leva os agentes a comprarem o título que é o mais seguro do país, o título público. Por isso o dinheiro não vem para a economia.
Mesmo com a bolsa oferecendo excelentes oportunidades de investimentos a Renda Fixa no Brasil é covardia.
O BC vive uma grande incoerência, faz previsões sombrias de crescimento do PIB, sabe que a atividade econômica corre sérios riscos, mas não baixa a taxa selic. Está na contramão do Ministério da Fazenda.
O argumento maior é o do controle da inflação. Se os últimos desdobramentos provaram que a globalização do capital e dos produtos limita a atuação da taxa de juros local, porque insistir neste modelo?
Porque um juro tão alto?
Como dizia minha sabia amiga Dna Nedi: deve ser porque é chique!
É muito difícil convencer esse pessoal da Era Carteziana a desistir de seus modelos, que na prática não mostram funcionalidade, para tratar a economia como instrumento social.
O Brasil mudou, mas a chamada política monetária continua sendo dosada como se o paciente país estivesse em estado terminal. Continua sendo ditada pelo consenso e interesses do “soberano mercado”.

Por muito tempo cheguei a acreditar que o mercado realmente era soberano, mas na prática com o passar do tempo e com todas essas intervenções anteriores e atuais dos estados, constatei que não é tão soberano assim.

Soberano é quem topa qualquer parada não quem pára em qualquer topada!

COMENTÁRIOS

Nenhum comentário em “Mercado é quase soberano”

  1. Com esse título fica mais coerente ainda Sr waldir.
    Muito bom o artigo, e pra quem segue acreditando na mao invisivel que regula o mercado, fica um aviso aqui.

    Sergio Schumacher

    Por Sergio_schumacher | janeiro 8, 2009, 11:24
  2. Parabéns pelo texto. Muito bom mesmo.

    Apenas uma discordância (talvez apenas temporal). O mercado erra, não no momento em si, uma vez que o momento não permite-se avaliar o erro e o acerto, assim sendo não tem como errar.

    O mercado erra porém ao sinalizar cenários que não se confirmam. Ex. Dólar a R$ 4,00 com medo das medidas que o Lula poderia tomar e não o fez.
    O recuo das cotações com o passar do tempo mostrou que o mercado errara.

    Mas tudo isso é só para registrar minha passagem pelo seu site e registrar meus parabéns.

    Abração

    Por Marcelo Porto | janeiro 8, 2009, 15:37

Comente