Enquanto o Banco Central do Brasil, contrariando os últimos números da economia, procura um suposto excesso de demanda que justifique seu aumento de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros, o mundo discute intensamente a crise dos alimentos. Interessante observar o comportamento das chamadas autoridades monetárias nesse nosso novo mundo financeiro.
Por aqui, enquanto os últimos dados da indústria mostram que os investimentos realizados no ano passado começam a maturar e que os estoques estão em níveis suficientes para atender aos níveis atuais de demanda, além do indicador do uso da capacidade instalada da Confederação Nacional da Indústria (CNI) recuar em fevereiro para 82,9% de 83,1% em janeiro, o “Bicho Papão”, movido por um forte lobby político e financeiro, continua a nos assombrar com frases de efeito como a última que consta da ata do Copom: “persistência de eventuais descompassos entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta agregada que tendem a aumentar o risco para a inflação”.
Por mais “consenso” que possa existir entre a grande maioria dos chamados economistas e analistas do setor financeiro, o mais impressionante é como não se aprofunda o debate e procura-se tornar essa atitude do Banco Central do Brasil como uma medida sensata de prevenção de um incêndio que só o Banco Central joga gasolina. O mote da moda é que temos que ser racionais e sem paixão nas decisões de política monetária para que o país continue em sua trajetória de crescimento sustentado e não perca a conquista da estabilidade de preços.
Um sistema de metas que não foi suficientemente testado para demonstrar sua eficácia, o efeito da globalização e da taxa de câmbio que tem grande influência sobre os preços, os ganhos de produtividade que permitiram aos produtos que possuem desenvolvimento tecnológico recuarem de preço, e a eficácia de uma taxa de juros local no controle de preços de commodities pelo mundo, não entram nunca na pauta de discussões. Tornamos a economia uma ciência exata e ponto final.
Isso tem causado certo desconforto e constrangimento em alguns membros do governo ao tentar justificar um aumento numa taxa de juros que já era uma das maiores do mundo. Taxa Selic, porque a taxa de financiamento ao consumidor é tão pornográfica que os bancos, para incentivarem novos empréstimos consignados de risco quase zero e com as menores cotações do mercado, chegam a pagar comissões de até 30% do valor do contrato aos chamados agentes promotores de empréstimos.
Na Europa, nos EUA e nos organismos internacionais a discussão do momento é a alta generalizada nos preços dos alimentos.
Os chamados verdes acusam o aquecimento global como causa principal das mudanças nas condições climáticas que provocam a carência de alimentos, os protecionistas europeus e americanos acusam os produtores de biocombustíveis. E assim todos se acusam e acabam dando importância menor às bolsas de futuros de commodities mundiais que basicamente negociam preços e não a entrega do produto físico.
A leniência dos bancos centrais, principalmente o americano, na solução para a crise dos chamados subprimes, financiando os rombos e injetando trilhões de dólares para gerar mais liquidez e evitar o chamado risco global, acabaram dando mais munição para os apostadores do mercado atuar em outros ativo-derivativos. Ao invés de uma punição, os apostadores ganharam mais fichas.
Já que a liquidez global continua grande, as apostas mudaram de mesa, partiram para os futuros de commodities, e saíram pedalando os preços para cima. Os futuros puxam os preços do mercado físico, os aumentos são ditados pelos players de mercado e não só por aumento de demanda ou menor produção.
Assim, os mercados globais hoje vivem num alucinado vai e vem de números e indicadores diários e numa volatilidade sem precedentes.
As conseqüências futuras podem ser tão desastrosas que podem nos levar a uma famosa frase de Sócrates: “Se todos nossos infortúnios fossem colocados juntos e, posteriormente, repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos”.
Enquanto aguardamos os desdobramentos desta crise, o melhor a fazer neste momento de incertezas, é se manter calmo e aproveitar as altas taxas de retorno aplicando na tradicional e conservadora renda fixa.




COMENTÁRIOS
Nenhum comentário em “Mais que nunca renda fixa”