Liberté, Egalité, Fraternité
(Liberdade, Igualdade, Fraternidade)
No Século XVIII a França vivia uma grave crise econômica. A situação do país era caótica, os privilégios dados à nobreza e ao Alto Clero dilapidaram as finanças e as palas secas, responsáveis por uma crise agrária, levou os camponeses à miséria extrema, com desabastecimento das cidades e retração do comércio interno.
Os chamados privilegiados estavam isentos de impostos, e apenas uma ordem sustentava o país, deixando obviamente a balança comercial negativa ante os elevados custos das sucessivas guerras, altos encargos públicos e os supérfluos gastos da corte do rei Luís XVI.
No dia 14 de Julho de 1789, a Bastilha, prisão que abrigava os opositores do governo ou mesmo os que se opunham à religião oficial, foi tomada por revolucionários.
A Bastilha abrigava apenas sete prisioneiros, no entanto a multidão invadiu-a tanto por representar um símbolo do absolutismo, como para tomar as armas que havia em seu interior.
Em 26 de agosto foi aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de inspiração iluminista, defendia o direito a liberdade, à igualdade perante a lei, a inviolabilidade da propriedade privada e o direito de resistir à opressão.
Passados 220 anos, o mundo se depara com uma situação semelhante.
O setor bancário americano e seu absolutismo disseminaram para outros cantos do mundo suas operações exóticas e sua irresponsabilidade social.
Governos centrais foram obrigados, em nome de salvar a economia real, a tomar medidas e lançar pacotes econômicos de salvação.
Trilhões de dólares foram despejados nas economias e taxas de juros foram levadas ao piso mínimo praticados nas últimas décadas.
Economias desenvolvidas naufragaram e as periféricas sofreram suas consequências inevitáveis da globalização.
Taxas negativas de crescimento (recessões), desemprego crescente, demissões de trabalhadores, fechamento de indústrias e quebras de bancos marcaram os últimos meses do último ano.
Quase um ano depois da fase mais aguda da crise financeira mundial, mesmo com o fantasma de um retorno aos piores dias pairando no ar, os ativos financeiros recuperaram boa parte das perdas e o mundo continua a aguardar a prometida regulação e controle das operações financeiras e seus derivativos.
No dia de hoje, 14 de julho de 2009, nos deparamos com pitorescas manchetes: – Debate sobre novo plano nos EUA continua aquecido
- Obama vê avanço do desemprego nos próximos meses
- Goldman Sachs anuncia lucro acima do esperado de US$ 3,44 bi no 2º trimestre – Países da OCDE devem perder 30 milhões de empregos até 2010
Não necessitamos de muita expertise para constatarmos que nada mudou.
Como pode se debater e reivindicar um novo pacote de estímulo a economia americana com base nas projeções de aumento do desemprego nos próximos meses, se o setor que mais deveria ser punido continua obtendo lucros exorbitantes em meio à crise?
O sistema financeiro não foi punido, as regras não mudaram, no entanto a chamada economia real e a população menos favorecida, continuam pagando o preço da irresponsabilidade de um setor que controla financeiramente e politicamente as decisões mundiais.
Estamos retornando muito rapidamente ao mesmo caminho que conduziu a essa crise, com isso a expectativa de que, o pior da crise ainda esta por vir, cresce a cada dia.
Afinal de contas as principais economias do mundo tiveram um crescimento econômico espetacular na última década, enquanto as desigualdades sociais aumentaram.
Hoje existe um conceito paranóico de que a solução de tudo passa novamente pelo crescimento econômico, por geração maior de riquezas. Isso implicitamente traz a idéia de que o bolo crescendo os menos favorecidos irão se beneficiar novamente com as migalhas.
Riquezas no mundo existem de sobra, é preciso que ela seja distribuída de maneira mais equitativa.
A data histórica de 14 de julho é um dia propício a reflexão do momento atual que vive a economia americana e as demais economias afetadas por uma crise antes de tudo, ética e moral, que varreu os conceitos e princípios de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Data que marcou o início da mais importante Revolução do Mundo Contemporâneo.
*Maximo Umiliani é Economista, pós-graduando em Ciências Sociais e trader




Fantástica reflexão. Pena que não consigo compartilhar do tom pessimista na opinião de que “o pior ainda está por vir”, já que nesse mercado o que prevalece é o cinismo e a irrealidade. A impressão que fica é que não há nada capaz de sensibilizar o mercado: os interesses são muito grandes, não se deixam abalar.
A pertinência da associação entre os lucros especulativos do mercado financeiro e a manutenção de um estado podre de privilégios da corte do rei Luís XVI nos coloca o questionamento, a nós profissionais de mercado, de como participar desse mercado sem sermos comparsas desses esquemas corruptos e descarados.
Obrigado por mais essa bela reflexão!
“Não necessitamos de muita expertise para constatarmos que nada mudou.”
Não consigo concordar mais com uma coisa do que com isso.
Gostei muito da reflexão.
GOSTEI MUITO DO TEXTO!
PARABÉNS!
SHOW!
ANDRÉ
Muito boa reflexão. Posso fazer uma analogia com um artigo que li esses dias na revista Época Negócios, de Clemente Nóbrega, dizendo que nos organizamos em redes. Aeroportos, www, neurônios do cérebro, malha do sistema elétrico etc, praticamente tudo. Mas redes tendem a exibir arquitetura concentrada. Poucos nós muito conectados, mas a maioria pouca conexão. A resposta pras crises futuras tem resposta no longo prazo. Pra mim dois pontos de apoio precisam se reequacionar. Riqueza e conhecimento. Enquanto não difundirmos a maior riqueza de todas, que é o conhecimento, nada mudará. A distribuição dele pra mim é a única saída para todas as crises atuais e futuras. Infelizmente as atuais vão esperar mais um pouquinho.
Maximo
Parabéns pela reflexão, a analogia com a revolução francesa foi fantástica, tem tudo a ver com os momentos econômicos e sociais de hoje.
Melhor texto que lí ultimamente.
Ricardo
parabens pela artigo, analogia dos dois momentos historicos nos da uma visao mais realista da atual crise,,,,
otima materia, mercado precisando de gente com lucidez,,,