Temos observado ao longo da história ciclos de prosperidade seguidos de alguns períodos de crise e recessão. As crises econômicas vêm de tempos em tempos, provocando pavor mundial, como no último século e agora nos dias atuais.
A globalização foi avançando e com ela a revolução dos meios de comunicação e da informatização, trazendo uma falsa ilusão de prosperidade e de igualdade econômica entre os povos.
A interligação dos mercados financeiros trouxe enormes benefícios, mas também trouxe instabilidades nos países menos preparados para enfrentar a competição pela atração dos capitais internacionais.
Essa importante mudança que não surgiu de um único evento e que não se sabe ao certo como começou ou quando irá terminar trouxe também a percepção enganosa, principalmente nos países mais desenvolvidos, de que foi provocada por suas políticas locais quando na verdade foi um acontecimento internacional.
Ao longo do tempo, a interferência dos governos locais e a coordenação internacional de política tentam domar o fantasma das crises, mas mudanças bruscas no padrão de expectativas têm propagado a desordem e a volatilidade de preços, desorganizando a produção e destruindo riquezas acumuladas em um padrão errático e imprevisível.
Hoje o mundo observa atentamente e com preocupação os desdobramentos da crise americana provocada pelos créditos subprimes. E uma provável recessão pode trazer conseqüências imprevisíveis nos mercados globais.
Vivemos numa verdadeira ebulição de teorias econômicas que tentam buscar as causas e conseqüências deste momento econômico e dos desdobramentos futuros na economia mundial.
A desaceleração das economias nos países desenvolvidos em contraposição ao crescimento vigoroso dos países ditos periféricos, puxados pelo grupo dos BRIC com sua locomotiva China, tem exposto rapidamente essas mudanças no quadro econômico global. O que, de certo, levará em breve a um novo contexto, ainda não muito claro, mas totalmente diferenciado dos padrões até hoje estabelecidos pela velha teoria econômica.
O que está cada dia mais claro é que a integração global e as inovações financeiras estão deixando as políticas monetárias locais cada dia menos eficientes na aplicação da taxa de juros, evidenciando que já não são capazes, isoladamente, de controlar os fluxos financeiros internacionais e o movimento de preços das commodities nos mercados futuros pelo globo.
O debate é tão amplo e fascinante que daria para ocupar um espaço que não cabe nesta breve coluna, mas serve como pequena análise do momento em que nós encontramos. Hoje o Banco Central dos EUA, Fed, define as taxas de juros que serão praticadas em sua economia. É quase certo que optará pela manutenção em 2,00% ao ano, mesmo com um aumento da inflação americana, pois a preocupação maior é com o desempenho econômico que dá claros sinais de recessão. Convém lembrar que os empréstimos feitos ao setor bancário pelos principais bancos centrais do mundo ainda não retornaram à sua origem, e assim um aumento de taxas de juros só irá agravar a situação delicada que passa o setor.
Mesmo com esse contexto incerto na economia mundial, o Banco Central do Brasil dá mostras de continuar alheio a tudo, ao perseverar na aplicação de um modelo que está se mostrando incapaz de controlar os preços mesmo nos países pioneiros em sua implementação.
Os motivos continuam a ser justificados de acordo com o mote do momento. Ora inflação de demanda, ora gastos do governo ou expansão demasiada do crédito, mas nunca discutindo a verdadeira razão que é uma inflação de custos, custos globais.
Assim, esse remédio genérico, taxas de juros, é aplicado em dose cavalar na esperança de que controle preços que é incapaz de controlar. Essa chamada taxa Selic é totalmente indexada a aplicações de curto prazo referenciadas a um chamado CDI, que na prática não existe, mas serve de referência para quase todas as aplicações financeiras. O dinheiro não flui de acordo com a liquidez e por isso acabamos praticando a taxa de juros de curto prazo mais alta do planeta.
Os produtos do chamado aumento de demanda gerado pela expansão do crédito, na realidade, estão em deflação, contra uma inflação basicamente de alimentos e de derivados do petróleo, que contamina outros produtos e é basicamente provocada pela disparada dos preços das commodities globais.
Esta semana mesmo foi divulgado o indicador E-flação *, mostrando essa incoerência. Com todo esse cenário incerto a aplicação em renda fixa no Brasil continua sendo, cada vez mais, o investimento mais seguro e atrativo do momento.
É preciso aproveitar o momento para aplicar na tradicional renda fixa, que está rendendo taxas pelo prazo de 18 meses, de 14,80% ao ano. Não esqueçam que renda fixa não são aplicações em fundos de renda fixa e fundos indexados, comprem títulos com taxas e prazo previamente determinados.
Infelizmente essas taxas acabam inibindo investimentos e freando o crescimento econômico, também por isso é hoje a aplicação de menor risco e de pornográfica remuneração.
Então fujam da turbulência dos mercados voláteis e se ancorem nessa mamata até quando ela durar, não se prenda a investimentos que podem lhe tolher os movimentos e os projetos de futuro.
Do mercado, escravo eu?
Não, escravo meu!
*E-flação na contramão da inflação
O e-Flation, índice que mede os preços no e-commerce, vem registrando deflação – ao contrário dos índices oficiais de inflação, cuja disparada assusta o Brasil e o mundo. Recentemente, o Programa de Administração do Varejo (Provar), de São Paulo, anunciou que o e-Flation da primeira quinzena de junho registrou índice negativo de 1,01%.




COMENTÁRIOS
Nenhum comentário em “Escravo eu?”