Nos últimos meses estabeleceu-se uma grande euforia nos mercados financeiros refletida na súbita valorização dos índices das bolsas de valores, dos preços das commodities e das moedas frente ao dólar. Mais recentemente, esse movimento foi acentuado com a divulgação dos resultados dos testes de estresse aplicados em diversos bancos americanos. Ainda que haja a necessidade de alguma injeção de capital, a evidenciação pela autoridade monetária de um baixo de risco de insolvência, fortaleceu a sensação de que o pior da crise já tenha passado. Contudo, é importante ter em mente a possibilidade de que esse movimento seja insustentável, de modo que mais à frente esse otimismo venha a se mostrar exagerado.
Contendo um tom menos otimista, as declarações do presidente do Banco Central Europeu, em meados do mês de maio, foram precisas ao avaliar o comportamento a ser trilhado pelas principais economias no futuro próximo. Todavia, tudo indica que foram mal interpretadas pelos agentes econômicos e o cenário favorável passou a ser superestimado. De fato, o depoimento de Jean Claude Trichet, apenas sinalizou o final da fase de pânico e que, talvez, o ritmo da queda da demanda esteja se desacelerando. Recorrendo-se à matemática, o depoimento deve ser interpretado apenas como a possibilidade de que ritmo da atividade global esteja se aproximando do seu ponto inflexão. Mas, o que significaria isso?
Se as palavras serviram como estímulo adicional para a apreciação dos ativos, definitivamente, não asseguram que as economias já estejam por exibir crescimento. Na realidade – como destacou Willem Buiter da London School – o depoimento incorpora alguns conceitos do cálculo diferencial que passaram quase despercebidos.
Assim, a referência ao ponto de inflexão indicaria, exclusivamente que o presidente do Banco Central Europeu acredita que a atividade esteja se reduzindo em um ritmo decrescente. Ou melhor, que a segunda derivada da função de atividade estaria passando de negativa para positiva, enquanto que a primeira ainda manter-se-ia negativa.
Resumindo, o ciclo econômico estaria vivenciando apenas um ponto de inflexão. A retomada do crescimento da atividade só efetivamente ocorrerá quando a primeira derivada mudar do sinal negativo para positivo, o que hoje é, ainda, prematuro afirmar.
Apesar de todas as dificuldades surgidas com a crise, é inquestionável que a atuação menos ortodoxa dos governos tenha conseguido reverter o processo de deterioração das expectativas dos agentes econômicos. Aliás, os impactos seriam ainda mais devastadores se os estímulos fiscais e monetários não tivessem surtido efeito. As ações impactaram positivamente, de modo que há uma relativa normalização dos mercados financeiros, com uma considerável redução nos “spreads” no mercado interbancário e nas concessões de crédito para as grandes empresas. A grande injeção de liquidez produziu um revigoramento no fluxo de capitais especulativos com um novo balanceamento da riqueza que, nesse momento tende a favor de ativos negociados em bolsas, “commodities” e moedas emergentes em detrimento da cotação do dólar.
Com base na relativa melhora de alguns indicadores, como na venda de casas, da construção civil, confiança e gastos dos consumidores, Ben Bernanke – Presidente do “Federal Reserve”- já visualiza o surgimento de alguns “brotos verdes” para o aquecimento da atividade econômica. Os indicadores antecedentes produzidos pela OCDE endossam esse relativo otimismo ao identificar sinais de pausa na desaceleração nas economias da China e Europa.
Se na China, a recuperação da produção industrial está em um horizonte mais próximo, na Europa a incerteza quantos aos desdobramentos futuros é maior. Já nos EUA, embora os mercados de ativos mostrem-se mais estáveis e haja uma melhoria no humor, há ainda fatores de preocupação, tais como, a manutenção da tendência cadente nos preços no setor imobiliário, os problemas no crédito e os temores reminiscentes com a saúde financeira dos bancos.
Assim, parece precipitada a conclusão de que a crise já seja uma página virada. Quando comparada com outras experiências históricas, vê-se que há um considerável caminho a percorrer. O processo de desalavancagem e o ajuste do nível de poupança nos países avançados estão apenas começando. Sem contar que a manutenção do elevado grau de capacidade ociosa implica em um risco de que haja uma depressão. Na concretização desse cenário, a perda de valor dos ativos reduziria ainda mais a riqueza dos agentes econômicos, exigindo um rebalanceamento dos gastos das famílias e empresas, ainda altamente endividadas. Neste caso, a elevação da poupança seria maléfica e poderia levar a formação de um ciclo vicioso de contração da atividade.
E no Brasil qual seria o sinal da primeira derivada? Com esse horizonte complicado da economia internacional, o ambiente interno também está cercado de incertezas. Contudo, as medidas de estímulo ao consumo – como a isenção de impostos sobre bens-duráveis e de aumentos nos gastos com funcionalismo – têm favorecido a expansão do consumo, de modo que na margem, a atividade econômica apresenta indícios relevantes de uma retomada, ainda que lenta. Apesar de ostentarem um ritmo decepcionante para muitos analistas, tanto a produção industrial, como as vendas de varejo e criação de empregos mostram uma ligeira recuperação.
Como atenuantes a esse otimismo tem-se associação entre a baixa velocidade na retomada da produção industrial com a forte retração no comércio internacional e, como conseqüência, a queda na demanda das exportações desse segmento. Seguindo essa linha, o processo lento de ajustamento de estoques, a redução nos investimentos e as travas do crédito geram inquietação. Ao contrário do setor automobilístico, muitos outros setores da economia ainda não realizaram a queima total de estoques indesejados. Finalmente, só agora com os efeitos das ações do governo e da maior calmaria nos mercado, que a retração dos bancos privados nas concessões de crédito começa a se reverter.
Na última carta de conjuntura, o Ibre da FGV relativiza as ressalvas na balança comercial. Segundo o instituto, enquanto as vendas dos itens manufaturados e semimanufaturados apresentam quedas expressivas, o desempenho dos produtos básicos tem sido alentador, tanto no que tange aos preços como ao volume. Esse movimento teria como raiz o aumento da demanda chinesa e asiática, que passada a maior turbulência, seria o sinal de que o estímulo fiscal e creditício da China começa a funcionar. Dada a diversidade da pauta comercial brasileira, a volta da demanda por commodities poderia, mais adiante, significar o aumento de exportações de bens industrializados para parceiros de economias emergentes exportadores de bens básicos.
Concluindo: porque o produto interno é mais dependente da demanda interna, são grandes as chances de que para o Brasil a primeira derivada seja positiva. Contudo, o grau de inclinação da segunda não deverá indicar uma retomada mais acelerada da atividade. Isto dependeria do comportamento das economias desenvolvidas. No que tange às mesmas, as dúvidas e incertezas são mais profundas. Com certeza, tão cedo, a economia global não voltará a apresentar o ritmo exibido anteriormente. O processo de reestruturação está apenas iniciando e será longo e custoso o que não afiança a crença em um ritmo mais pujante para a economia brasileira. #Maio/2009
Everton P.S. Gonçalves
Assessor Econômico da ABBC e Dr em Economia pela FGV/SP – egoncalves@abbc.org.br
Este documento foi preparado pela Assessoria Econômica da ABBC, com finalidade única de prestar informações ao mercado. Esse trabalho reflete a opinião pessoal, não devendo ser interpretado como oferta ou solicitação de oferta para comprar ou vender quaisquer títulos e valores mobiliários ou produtos e instrumentos financeiros.




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