A rainha, os bruxos e a nova pax para o sistema financeiro.
“So in summary, Your Majesty, the failure to foresee the timing, extent and severity of the crisis and to head it off, while it had many causes, was principally a failure of the collective imagination of many bright people, both in this country and internationally, to understand the risks to the system as a whole”.
Resposta da London School of Economics para a Rainha Elizabeth
Felizmente, após um ano da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, o caos alardeado por muitos analistas econômicos não se concretizou. A pronta reação heterodoxa dos governos, compatível à dimensão da crise, dissipou o pânico, de modo que hoje permite o descarte da possibilidade de que se repita uma depressão, como a vivenciada nos anos 30. Se o momento é cercado por otimismo, persistem ainda inúmeras incertezas: Como seria a forma de recuperação das economias? O pior já teria passado? Como e quando será feita a retirada dos estímulos fiscais e monetário? Como seria a moldura de um novo equilíbrio para o sistema financeiro internacional? As lições da crise foram realmente aprendidas?
Além do impacto negativo sobre os inúmeros indicadores financeiros e os da economia real, a perda de reputação das autoridades monetárias e dos analistas econômico-financeiros desponta como um rastro importante do desastre. Também não é para menos, as previsões oferecidas pelos modelos econométricos e estatísticos vêm apresentando um desempenho bem insatisfatório. A inquietante indagação da rainha Elizabeth à London School of Economics (LSE), em novembro de 2008, resume cabalmente o grau de perplexidade da sociedade: Como uma tragédia dessa dimensão não pôde ser prevista e antecipada?
Em junho, os acadêmicos britânicos responderam formalmente à Rainha Elizabeth. Para eles, na realidade muitos visualizaram a aproximação da turbulência, contudo não puderam antecipar a sua virulência e, muito menos, o momento exato da sua eclosão. Traçando-se um paralelo, as análises padeceram das mesmas limitações dos estudos das Ciências Exatas e Naturais que, também, são incapazes de prever com exatidão a ocorrência dos desastres naturais.
O trecho acima sintetiza o argumento mais relevante da carta assinada por Paul Hennesy e Tim Besley. Em outras palavras, a LSE destaca o papel de um fator psicológico cerceando a compreensão das “mentes brilhantes” sobre o crescimento do risco sistêmico. Ainda na carta, os acadêmicos frisam que é difícil lembrar um exemplo tão grande de uma combinação perversa entre otimismo e arrogância.
Em suas entrelinhas, o documento responsabilizou os “bruxos” da engenharia financeira que, através da inovação financeira e da utilização de algoritmos complexos, convenceram a si próprios e ao público em geral que haviam descoberto formas para a diluição expressiva dos riscos. A criação de um sentimento hegemônico de que a política econômica teria alcançado o “estado da arte” e a celebração da extinção dos ciclos econômicos formaram um cenário no qual as expectativas eram dominadas pela “psicologia da negação” conforme as próprias palavras da LSE.
Nos rescaldos da crise, observa-se uma enorme fenda, em que os principais grupos de catequizadores vêm ferozmente se digladiando. À parte os fundamentalismos, é inegável a necessidade de que se faça um redirecionamento na discussão de alguns dos preceitos da Teoria Financeira e da Macroeconomia. Contudo, qualquer análise prospectiva dos reflexos da crise sobre a nova definição do sistema financeiro deve ser conduzida de forma pragmática, desprovida de preconceitos e adequada à nova realidade que se impõe.
Em um dos seus editoriais, a Economist direciona três focos importantes de questionamentos. O primeiro refere-se à responsabilidade dos trabalhos acadêmicos e das autoridades monetárias na gestação da grande bolha, o segundo às falhas na identificação da crise que se aproximava e, finalmente, à ausência de soluções para a resolução do imbróglio. No que tange à última polêmica, da capacidade de resposta à turbulência, a prática mostrou que tais críticas mostram-se exageradas.
Aliás, não deveria haver dúvidas de que as lições tiradas pela Teoria Econômica com a Grande Depressão de 1929 guiaram a reação dos governos que, através de estímulos fiscais e monetários, atuaram de forma rápida e coordenada. Sem se prender aos intermináveis debates teóricos acerca do caráter intervencionista ou não das ações, a pronta atuação das principais lideranças políticas e econômicas foi capaz de produzir resultados efetivos que deixaram para trás as previsões mais catastróficas. Ao contrário dos fenômenos das ciências naturais, as decisões de política econômica e a aplicação dos modelos teóricos tiveram papel relevante no objeto de estudo.
Contudo, se houve eficiência na velocidade de reação das autoridades econômicas, não se pode descartar a hipótese que as mesmas e o sistema financeiro tiveram responsabilidade na formação da crise. A era da “Grande Moderação” – com um longo período de crescimento econômico elevado e com baixa inflação – propiciou uma leniência com desequilíbrios importantes. Entre o forte descompasso entre a poupança e o consumo entre os EUA e a China, o excesso de alavancagem das famílias e empresas e as deficiências no âmbito regulatório do sistema financeiro.
A manutenção da taxa de juros real em um nível historicamente baixo favoreceu o descolamento dos preços dos ativos em relação aos seus fundamentos. O que representou uma valorização fictícia que se constituiu em um elemento fundamental para o avanço acelerado do crédito e, conseqüentemente, para a formação da bolha no mercado subprime. Assim, uma das grandes lições é a de que um ambiente com baixa inflação não necessariamente garante a estabilidade dos mercados e das suas instituições.
Mais especificadamente, a inflação baixa não é condição suficiente para que a volatilidade se mantenha estável. Nem na confiança duradoura dos agentes econômicos de que os preços dos ativos reflitam os seus fundamentos e, o que é pior, nem no cumprimento contínuo das obrigações contratuais dos seus participantes. O ciclo de expansão pode ser revertido a qualquer sinal de mudança de humor no mercado. Com isso, levantam-se questões mais que oportunas: Deveria a calibragem da taxa de juros ser feita não só com base nas pressões inflacionárias, mas também com base no comportamento do mercado de ativos? Como estabelecer uma regra que atenda aos dois objetivos?
Na realidade, haverá uma enorme dificuldade em estabelecer um padrão de referência para que as autoridades monetárias acompanhem também a dinâmica do preço dos ativos. Correr-se-á sempre o risco de se arbitrar uma taxa de juros baixa demais para evitar a formação de uma bolha especulativa, mas alta o suficiente para impedir um crescimento sustentável para a economia. Aqui as pesquisas terão que avançar, sem contar que, além das incertezas e dificuldades teóricas, há também uma forte restrição política.
Por mais que se apregoe a independência dos bancos centrais, como teria sido a reação dos consumidores, empresários e políticos, se eles tivessem realizado um choque monetário preventivo, quando os sinais de aquecimento excessivo nos mercados de ativos se tornaram mais flagrantes? É difícil imaginar que isso fosse possível em um ambiente com inflação baixa. Para que se tente evitar novas crises financeiras, parece mais factível, nesse momento, que haja a conjugação da política monetária com um reforço e uma reformulação do papel da regulação prudencial.
Aqui vale um lembrete, apesar do otimismo atual, persiste o risco da formação de uma nova bolha que leve a política econômica a se deparar com um grande dilema. Há a possibilidade de que os países estejam apenas vivenciando uma mera recomposição de estoques, de modo que não se pode assegurar que a recuperação seja sustentável. As dificuldades enfrentadas pelas empresas e famílias poderão trazer perdas patrimoniais para as instituições financeiras. Como complicador, por causa da alteração na legislação, muitos dos seus ativos não foram “marcados a mercado”, o que possivelmente postergará as perdas. Assim, com toda essa incerteza, o retrocesso dos estímulos fiscais e monetários dos governos ainda não é recomendável.
Contudo, há indícios de que a abundância de liquidez e a crença de que os governos não permitirão novas falências bancárias já estejam produzindo um retorno à especulação financeira.
Com as operações tradicionais de empréstimos bancários deprimidas e o grande acúmulo de reservas bancárias ociosas são fortes os indícios de que essa liquidez esteja sendo canalizada para mercados de risco, como o das bolsas de valores, commodities e das moedas emergentes. A súbita elevação desses ativos, conjugada com os lucros elevados e a manutenção de elevados bônus aos executivos dos bancos seriam uma pista de um retorno precipitado aos tempos das “mágicas” financeiras.
Durante a gestação da crise, através da inovação, o sistema financeiro disseminou uma plêiade de estruturas e instrumentos “esotéricos” que deram suporte a maior alavancagem, oferecendo rendimentos cada vez mais elevados. O avanço do crédito foi viabilizado pela venda de títulos no mercado de capitais, repassando o risco dos geradores das operações de crédito para outros investidores. Contudo, os avanços das técnicas de gestão de risco não tiveram a mesma velocidade de expansão e, na prática, esse modelo de “originação e distribuição” mostrou-se incapaz de dar uma transparência adequada às conexões entre mercados e instituições, o que acabou subestimando os riscos sistêmicos.
Por mais esotéricos que sejam, os modelos de avaliação de riscos financeiros e econométricos trabalham com premissas que são meras abstrações da realidade. Com a quebra dos seus pressupostos, as previsões dos modelos apresentaram um desempenho mais que frustrante. Uma razão aceitável é que os modelos se valem de dados que são extraídos de períodos de contração como de expansão, ou seja, de regimes que apresentam dinâmicas muito distintas.
Contudo, o objetivo da gestão de risco é o de permitir a administração dos momentos onde há essa quebra de comportamento. Esse desafio se torna cada vez mais imperioso, embora os esses ciclos sejam de curta duração, os impactos negativos da reversão têm sido cada vez mais significativos.
Assim, o maior desafio para melhorar o gerenciamento de risco é o capturar separadamente as fases de cada ciclo. Para tanto, o caminho sugerido é que se avance nas análises de cenários de estresse. Isso, contudo, incorpora uma certa dose de ”bruxaria”, dado que os agentes terão que, de forma discricionária, avaliar o momento onde ocorrerá a quebra de regime.
Todavia, em momentos de expansão, essa decisão estará sempre contaminada pelo foco estratégico. Assim, o desempenho ruim pode não ter sido fruto exclusivo da ignorância dos riscos envolvidos, mas também o reflexo da preocupação com a perda de participação de mercado, ao ficar prematuramente “fora da festa”. Novamente aqui, fica clara a incapacidade dos modelos em incorporar as motivações humanas nas tomadas de decisão.
O “calcanhar de Aquiles” do acordo de Basiléia II reside no maior dos seus objetivos, ou seja, no incentivo à utilização de modelos internos para o gerenciamento de risco e alocação de capital. A baixa performance da autoregulação dos mercados tornou consensual a necessidade de redefinição do marco regulatório para o sistema financeiro. Com certeza, o acordo que tem como diretriz básica a liberdade para que as instituições possam arbitrar o risco que desejam assumir, deverá sofrer emendas. Os problemas verificados nas formas de gestão e nas modelagens de avaliação de risco reforçam os argumentos para um estabelecimento de uma nova “pax” bancária que seja mais eficiente na prevenção de futuras crises sistêmicas.
No início do mês de setembro, com o intuito de reduzir substancialmente a probabilidade e gravidade das ocorrências de estresse financeiro, o Banco de Compensação Internacionais (BIS) ofereceu uma resposta abrangente a uma série de questões. No documento, a instituição busca estabelecer critérios para a revisão da regulamentação e da supervisão e da gestão de riscos do setor bancário, no que tange à adequação de capital.
Entre os critérios a serem discutidos para o estabelecimento de uma regra prudencial, encontram-se:
• o aumento da qualidade, da solidez e da transparência da base de capital das instituições financeiras;
• a introdução de um nível máximo de alavancagem como medida suplementar a estrutura especificada pelo acordo de Basiléia II;
• a introdução de um nível global de liquidez que inclui um nível de cobertura para os cenários de estresse e garanta um nível de liquidez estrutural de longo-prazo;
• a criação de uma estrutura de alocação de capital que não seja totalmente pró-cíclica;
• a emissão de recomendações para reduzir o risco sistêmico associado aos bancos que possam ameaçar a estabilidade do sistema.
Como não poderia deixar de ser, o setor financeiro reagiu com o temor de que os novos critérios possam promover um forte ajuste de capital dos bancos que ainda sofrem os efeitos da crise. O temor é de que os novos impositivos inibam os impulsos à inovação financeira e prejudiquem a eficiência da intermediação financeira. A tarefa de encontrar o termo adequado é um grande desafio, não só pela complexidade que envolve as decisões do setor privado na avaliação de risco e retorno, mas também pelo fato que os reguladores não podem reproduzir em laboratório a calibragem ótima para as regras. Pelas dificuldades, talvez tenham que se valer de alguma poção mágica, contudo espera-se que a rainha não volte a se desapontar.
Setembro/2009
Everton P.S. Gonçalves
Assessor Econômico da ABBC e Dr em Economia pela FGV/SP – egoncalves@abbc.org.br
“So in summary, Your Majesty, the failure to foresee the timing, extent and severity of the crisis and to head it off, while it had many causes, was principally a failure of the collective imagination of many bright people, both in this country and internationally, to understand the risks to the system as a whole”.
Resposta da London School of Economics para a Rainha Elizabeth
Felizmente, após um ano da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, o caos alardeado por muitos analistas econômicos não se concretizou. A pronta reação heterodoxa dos governos, compatível à dimensão da crise, dissipou o pânico, de modo que hoje permite o descarte da possibilidade de que se repita uma depressão, como a vivenciada nos anos 30. Se o momento é cercado por otimismo, persistem ainda inúmeras incertezas: Como seria a forma de recuperação das economias? O pior já teria passado? Como e quando será feita a retirada dos estímulos fiscais e monetário? Como seria a moldura de um novo equilíbrio para o sistema financeiro internacional? As lições da crise foram realmente aprendidas?
Além do impacto negativo sobre os inúmeros indicadores financeiros e os da economia real, a perda de reputação das autoridades monetárias e dos analistas econômico-financeiros desponta como um rastro importante do desastre. Também não é para menos, as previsões oferecidas pelos modelos econométricos e estatísticos vêm apresentando um desempenho bem insatisfatório. A inquietante indagação da rainha Elizabeth à London School of Economics (LSE), em novembro de 2008, resume cabalmente o grau de perplexidade da sociedade: Como uma tragédia dessa dimensão não pôde ser prevista e antecipada?
Em junho, os acadêmicos britânicos responderam formalmente à Rainha Elizabeth. Para eles, na realidade muitos visualizaram a aproximação da turbulência, contudo não puderam antecipar a sua virulência e, muito menos, o momento exato da sua eclosão. Traçando-se um paralelo, as análises padeceram das mesmas limitações dos estudos das Ciências Exatas e Naturais que, também, são incapazes de prever com exatidão a ocorrência dos desastres naturais.
O trecho acima sintetiza o argumento mais relevante da carta assinada por Paul Hennesy e Tim Besley. Em outras palavras, a LSE destaca o papel de um fator psicológico cerceando a compreensão das “mentes brilhantes” sobre o crescimento do risco sistêmico. Ainda na carta, os acadêmicos frisam que é difícil lembrar um exemplo tão grande de uma combinação perversa entre otimismo e arrogância.
Em suas entrelinhas, o documento responsabilizou os “bruxos” da engenharia financeira que, através da inovação financeira e da utilização de algoritmos complexos, convenceram a si próprios e ao público em geral que haviam descoberto formas para a diluição expressiva dos riscos. A criação de um sentimento hegemônico de que a política econômica teria alcançado o “estado da arte” e a celebração da extinção dos ciclos econômicos formaram um cenário no qual as expectativas eram dominadas pela “psicologia da negação” conforme as próprias palavras da LSE.
Nos rescaldos da crise, observa-se uma enorme fenda, em que os principais grupos de catequizadores vêm ferozmente se digladiando. À parte os fundamentalismos, é inegável a necessidade de que se faça um redirecionamento na discussão de alguns dos preceitos da Teoria Financeira e da Macroeconomia. Contudo, qualquer análise prospectiva dos reflexos da crise sobre a nova definição do sistema financeiro deve ser conduzida de forma pragmática, desprovida de preconceitos e adequada à nova realidade que se impõe.
Em um dos seus editoriais, a Economist direciona três focos importantes de questionamentos. O primeiro refere-se à responsabilidade dos trabalhos acadêmicos e das autoridades monetárias na gestação da grande bolha, o segundo às falhas na identificação da crise que se aproximava e, finalmente, à ausência de soluções para a resolução do imbróglio. No que tange à última polêmica, da capacidade de resposta à turbulência, a prática mostrou que tais críticas mostram-se exageradas.
Aliás, não deveria haver dúvidas de que as lições tiradas pela Teoria Econômica com a Grande Depressão de 1929 guiaram a reação dos governos que, através de estímulos fiscais e monetários, atuaram de forma rápida e coordenada. Sem se prender aos intermináveis debates teóricos acerca do caráter intervencionista ou não das ações, a pronta atuação das principais lideranças políticas e econômicas foi capaz de produzir resultados efetivos que deixaram para trás as previsões mais catastróficas. Ao contrário dos fenômenos das ciências naturais, as decisões de política econômica e a aplicação dos modelos teóricos tiveram papel relevante no objeto de estudo.
Contudo, se houve eficiência na velocidade de reação das autoridades econômicas, não se pode descartar a hipótese que as mesmas e o sistema financeiro tiveram responsabilidade na formação da crise. A era da “Grande Moderação” – com um longo período de crescimento econômico elevado e com baixa inflação – propiciou uma leniência com desequilíbrios importantes. Entre o forte descompasso entre a poupança e o consumo entre os EUA e a China, o excesso de alavancagem das famílias e empresas e as deficiências no âmbito regulatório do sistema financeiro.
A manutenção da taxa de juros real em um nível historicamente baixo favoreceu o descolamento dos preços dos ativos em relação aos seus fundamentos. O que representou uma valorização fictícia que se constituiu em um elemento fundamental para o avanço acelerado do crédito e, conseqüentemente, para a formação da bolha no mercado subprime. Assim, uma das grandes lições é a de que um ambiente com baixa inflação não necessariamente garante a estabilidade dos mercados e das suas instituições.
Mais especificadamente, a inflação baixa não é condição suficiente para que a volatilidade se mantenha estável. Nem na confiança duradoura dos agentes econômicos de que os preços dos ativos reflitam os seus fundamentos e, o que é pior, nem no cumprimento contínuo das obrigações contratuais dos seus participantes. O ciclo de expansão pode ser revertido a qualquer sinal de mudança de humor no mercado. Com isso, levantam-se questões mais que oportunas: Deveria a calibragem da taxa de juros ser feita não só com base nas pressões inflacionárias, mas também com base no comportamento do mercado de ativos? Como estabelecer uma regra que atenda aos dois objetivos?
Na realidade, haverá uma enorme dificuldade em estabelecer um padrão de referência para que as autoridades monetárias acompanhem também a dinâmica do preço dos ativos. Correr-se-á sempre o risco de se arbitrar uma taxa de juros baixa demais para evitar a formação de uma bolha especulativa, mas alta o suficiente para impedir um crescimento sustentável para a economia. Aqui as pesquisas terão que avançar, sem contar que, além das incertezas e dificuldades teóricas, há também uma forte restrição política.
Por mais que se apregoe a independência dos bancos centrais, como teria sido a reação dos consumidores, empresários e políticos, se eles tivessem realizado um choque monetário preventivo, quando os sinais de aquecimento excessivo nos mercados de ativos se tornaram mais flagrantes? É difícil imaginar que isso fosse possível em um ambiente com inflação baixa. Para que se tente evitar novas crises financeiras, parece mais factível, nesse momento, que haja a conjugação da política monetária com um reforço e uma reformulação do papel da regulação prudencial.
Aqui vale um lembrete, apesar do otimismo atual, persiste o risco da formação de uma nova bolha que leve a política econômica a se deparar com um grande dilema. Há a possibilidade de que os países estejam apenas vivenciando uma mera recomposição de estoques, de modo que não se pode assegurar que a recuperação seja sustentável. As dificuldades enfrentadas pelas empresas e famílias poderão trazer perdas patrimoniais para as instituições financeiras. Como complicador, por causa da alteração na legislação, muitos dos seus ativos não foram “marcados a mercado”, o que possivelmente postergará as perdas. Assim, com toda essa incerteza, o retrocesso dos estímulos fiscais e monetários dos governos ainda não é recomendável.
Contudo, há indícios de que a abundância de liquidez e a crença de que os governos não permitirão novas falências bancárias já estejam produzindo um retorno à especulação financeira.
Com as operações tradicionais de empréstimos bancários deprimidas e o grande acúmulo de reservas bancárias ociosas são fortes os indícios de que essa liquidez esteja sendo canalizada para mercados de risco, como o das bolsas de valores, commodities e das moedas emergentes. A súbita elevação desses ativos, conjugada com os lucros elevados e a manutenção de elevados bônus aos executivos dos bancos seriam uma pista de um retorno precipitado aos tempos das “mágicas” financeiras.
Durante a gestação da crise, através da inovação, o sistema financeiro disseminou uma plêiade de estruturas e instrumentos “esotéricos” que deram suporte a maior alavancagem, oferecendo rendimentos cada vez mais elevados. O avanço do crédito foi viabilizado pela venda de títulos no mercado de capitais, repassando o risco dos geradores das operações de crédito para outros investidores. Contudo, os avanços das técnicas de gestão de risco não tiveram a mesma velocidade de expansão e, na prática, esse modelo de “originação e distribuição” mostrou-se incapaz de dar uma transparência adequada às conexões entre mercados e instituições, o que acabou subestimando os riscos sistêmicos.
Por mais esotéricos que sejam, os modelos de avaliação de riscos financeiros e econométricos trabalham com premissas que são meras abstrações da realidade. Com a quebra dos seus pressupostos, as previsões dos modelos apresentaram um desempenho mais que frustrante. Uma razão aceitável é que os modelos se valem de dados que são extraídos de períodos de contração como de expansão, ou seja, de regimes que apresentam dinâmicas muito distintas.
Contudo, o objetivo da gestão de risco é o de permitir a administração dos momentos onde há essa quebra de comportamento. Esse desafio se torna cada vez mais imperioso, embora os esses ciclos sejam de curta duração, os impactos negativos da reversão têm sido cada vez mais significativos.
Assim, o maior desafio para melhorar o gerenciamento de risco é o capturar separadamente as fases de cada ciclo. Para tanto, o caminho sugerido é que se avance nas análises de cenários de estresse. Isso, contudo, incorpora uma certa dose de ”bruxaria”, dado que os agentes terão que, de forma discricionária, avaliar o momento onde ocorrerá a quebra de regime.
Todavia, em momentos de expansão, essa decisão estará sempre contaminada pelo foco estratégico. Assim, o desempenho ruim pode não ter sido fruto exclusivo da ignorância dos riscos envolvidos, mas também o reflexo da preocupação com a perda de participação de mercado, ao ficar prematuramente “fora da festa”. Novamente aqui, fica clara a incapacidade dos modelos em incorporar as motivações humanas nas tomadas de decisão.
O “calcanhar de Aquiles” do acordo de Basiléia II reside no maior dos seus objetivos, ou seja, no incentivo à utilização de modelos internos para o gerenciamento de risco e alocação de capital. A baixa performance da autoregulação dos mercados tornou consensual a necessidade de redefinição do marco regulatório para o sistema financeiro. Com certeza, o acordo que tem como diretriz básica a liberdade para que as instituições possam arbitrar o risco que desejam assumir, deverá sofrer emendas. Os problemas verificados nas formas de gestão e nas modelagens de avaliação de risco reforçam os argumentos para um estabelecimento de uma nova “pax” bancária que seja mais eficiente na prevenção de futuras crises sistêmicas.
No início do mês de setembro, com o intuito de reduzir substancialmente a probabilidade e gravidade das ocorrências de estresse financeiro, o Banco de Compensação Internacionais (BIS) ofereceu uma resposta abrangente a uma série de questões. No documento, a instituição busca estabelecer critérios para a revisão da regulamentação e da supervisão e da gestão de riscos do setor bancário, no que tange à adequação de capital.
Entre os critérios a serem discutidos para o estabelecimento de uma regra prudencial, encontram-se:
• o aumento da qualidade, da solidez e da transparência da base de capital das instituições financeiras;
• a introdução de um nível máximo de alavancagem como medida suplementar a estrutura especificada pelo acordo de Basiléia II;
• a introdução de um nível global de liquidez que inclui um nível de cobertura para os cenários de estresse e garanta um nível de liquidez estrutural de longo-prazo;
• a criação de uma estrutura de alocação de capital que não seja totalmente pró-cíclica;
• a emissão de recomendações para reduzir o risco sistêmico associado aos bancos que possam ameaçar a estabilidade do sistema.
Como não poderia deixar de ser, o setor financeiro reagiu com o temor de que os novos critérios possam promover um forte ajuste de capital dos bancos que ainda sofrem os efeitos da crise. O temor é de que os novos impositivos inibam os impulsos à inovação financeira e prejudiquem a eficiência da intermediação financeira. A tarefa de encontrar o termo adequado é um grande desafio, não só pela complexidade que envolve as decisões do setor privado na avaliação de risco e retorno, mas também pelo fato que os reguladores não podem reproduzir em laboratório a calibragem ótima para as regras. Pelas dificuldades, talvez tenham que se valer de alguma poção mágica, contudo espera-se que a rainha não volte a se desapontar.
Setembro/2009
Everton P.S. Gonçalves
Assessor Econômico da ABBC e Dr em Economia pela FGV/SP – egoncalves@abbc.org.br
Ótimo texto.