O debate econômico do momento na sociedade brasileira está focado nas medidas que foram propostas pelo governo no sentido de equacionar os rendimentos da poupança com as demais aplicações financeiras quando a taxa básica de juros, selic, recuarem para um patamar onde os rendimentos da caderneta fiquem acima das demais aplicações e causem distorções.
Qualquer que seja o ambiente, mídia, amigos, família, empresa, restaurantes ou por outros cantos do Brasil a fora a pergunta que se faz é basicamente a mesma: o que você achou das mudanças nas regras da poupança?
Invariavelmente as idéias convergem para uma grande falácia econômica disseminada ao longo do tempo de que uma fuga em massa das demais aplicações financeiras para a poupança irá criar dificuldades para a rolagem da dívida pública federal. A lógica deste raciocínio viesado é que sendo os fundos de pensão e de investimentos os principais e grandes compradores dos títulos públicos se a poupança passar a ter rendimentos maiores, tais fundos sofrerão resgates e por conseqüência não comprarão títulos e o tesouro nacional terá dificuldades em rolar a dívida pública.
O que impressiona é o fato de mais uma vez o país focar o debate em detalhes e deixar passar a oportunidade de se discutir e efetivar medidas que altere toda essa estrutura arcaica de modelo financeiro. Estrutura construída por remendos em um ambiente passado, de hiperinflação, crise financeira e taxa de juros nas alturas.
O arcabouço atual está totalmente dissociado da realidade e dos anseios de uma economia desenvolvida e de um crescimento mais igualitário.
Toda vez que surge um caso como este da poupança a tendência é o debate se politizar na razão especifica e a discussão mais ampla dos problemas ficarem em segundo plano e sem uma iniciativa de mudanças estruturais necessária.
Algumas questões que deveriam ser debatidas para mudar a situação de verdadeiro apartheid financeiro existente hoje no país:
- Por que é que não se discute a eficácia do modelo de meta de inflação e juros altos, mesmo depois de serem tragados pela crise financeira global?
- Mesmo com um patamar de inflação baixa por um tempo razoável, qual o motivo das aplicações financeiras estarem indexadas e o curto prazo ter o privilegio de uma remuneração tão alta?
- Se o perfil do investidor da caderneta de poupança é de segurança e conservadorismo, por que ele não deve ser beneficiado? Quantas pessoas já foram ironizadas por amigos, parentes e consultores econômicos, por aplicar dinheiro em uma modalidade de rendimentos pífios comparados as oportunidades existentes no mercado?
- Vincular a poupança ao rendimento dos títulos públicos de longo prazo não seria uma solução?
- Investir é ter uma visão de médio/longo prazos ou se aproveitar das oportunidades de momento?
- Qual a razão da indexação de aplicações no chamado CDI? O que é esse referencial de juros, qual a sua importância para a economia, como ele é apurado, em volume e preço, e quais os interesses que ele contempla?
- Porque é que não se discute antes de tudo a desoneração não só fiscal, mas de custos de administração das aplicações financeiras?
- Quais a razões de o Brasil ter um mercado secundário de títulos públicos insignificante perante o tamanho da dívida pública? Não seria por isso que a curva de juros é determinada pelo derivativo e não pelo ativo?
Investimento é programação financeira, não se pode confundir investidor com oportunista, longo prazo é visão empreendedora, curto prazo é custo de oportunidade e por isto tem que ter os riscos inerentes a escolha.
No Brasil de hoje a indústria da concentração financeira controla a maioria das aplicações e empréstimos, se beneficia de exorbitantes spreads e de taxas cobradas na administração dos recursos de terceiros. A indústria não tem interesse na mudança e na assunção de riscos que remunere a sua eficácia.
Qualquer atividade tem os seus riscos. Indústria, agricultura, comercio e a pecuária tem os riscos inerentes a atividade. Por que só o mercado financeiro, que é o setor que mais especula e o mais volátil tem que ter conforto?
Observem que o último relatório de atividades de Política Monetária disponível no site do BC é datado de dezembro de 2002. Hoje só existe uma resenha de mercado aberto divulgada semanalmente. Onde foi parar a política monetária, no resumo da reunião dissociada da realidade, do Copom?
Enquanto se discute como remendar, mais uma vez a poupança, a maioria do público, não sabe que desde a crise da marcação a mercado de 2002, o Banco Central toma recursos excedentes em operações compromissadas no over e de curto prazo, dos agentes financeiros que se recusam a comprar títulos públicos definitivos.
Em valores de dezembro de 2008 os recursos da poupança somavam R$ 270,7 bilhões e a estimativa do saldo das operações compromissadas ultrapassa a casa dos R$ 300 bilhões?
Dados da última semana indicam que só no over night o Banco Central tomou em torno de R$ 85 bilhões por dia.
Os agentes não compram os títulos em definitivo, mas são obrigados a aplicar em títulos para ter lastros que vinculem e remunerem o patrimônio. A experiência recente com a crise mostra que nada mais seguro que um título público.
Qual o motivo desta mordomia?
Para encerrar deixo um último questionamento: Uma taxa de juros flutuante de curto prazo que provocasse desconforto a quem fizesse esta opção e por conseqüência um beneficio e voluntarismo para o longo, não seria a solução para todas essas distorções existentes hoje na economia?




Waldir
Muito oportuno seu texto.
O Sr. escreveu o que ninguém tem coragem de dizer.
Acho que não querem debater os entraves economicos por interesse dos bancos que mandam e desmandam no Brasil.
abs
Realmente Waldir, o Tesouro Nacional está como todos nós prevíamos refém dos grandes bancos que administram bilhões em fundos.
Claro que, para eles rolarem a dívida interna e darem um certo refresco para o Governo, cobram algum e quem paga é o cotista.
Agora,o Governo corre atrás de mexer rapidinho na poupança para os bancos não perderem a boquinha. Talvez agora o Tesouro acorde..e reconsidere o corner que se meteu anos atrás.
CARO KIEL
É UMA PENA QUE ESSE ARTIGO NÃO
CHEGUE AOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE GRANDE CIRCULAÇÃO, POIS ACHO EU,A MATÉRIA É OPORTUNA E MOSTRA QUE A MUITAS VARIÁVEIS. MAS A BANCA É FORTE, GOSTA DE FACILIDADES, ENTÃO PARA QUE COMPLICAR.
PARABÉNS .