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À espera de um milagre

Na coluna de 12 de dezembro de 2007, ao estabelecer uma correlação do FED – Federal Reserve – e o Enigma da Esfinge, alertei para o fato de os mercados, numa tentativa de salvamento da chamada crise “sub primes”, estarem influenciando o banco central americano de tal forma, que sua atuação nas políticas de salvamento, poderia trazer conseqüências sérias para a economia americana e, portanto, para toda economia do planeta.

Não me parece que o erro foi de diagnóstico, já que teoricamente todo banco central deveria ser mais bem informado sobre a movimentação e os riscos que estavam incorrendo com as alavancagens em ativos dos demais agentes financeiros. Para que se possa entender melhor o momento em que se encontra essa crise de crédito, mais detalhada, recomendo a leitura do relatório preliminar do Fórum de Estabilidade Financeira (FSF) elaborado para a reunião do G7 em Tókio, 05 de fevereiro de 2008, disponível em www.fsforum.org.

Num breve resumo: o grande problema não está somente no fato das hipotecas imobiliárias terem sofrido uma perda de valor significativa que levaram os tomadores de empréstimos tradicionais a não honrar seus compromissos. O problema é mais sério do que parece. A criatividade e voracidade por altos lucros fez com que se criassem mecanismos e derivativos que multiplicaram uma mesma hipoteca por diversas vezes. E o mais grave é que essas posições se encontram hoje fora do balanço dos bancos, sem estarem precificadas e, na grande maioria, de valor zero já que não são lastreadas a nenhum compromisso.
O que estão fazendo os bancos centrais pelo mundo?

Fornecendo financiamento de curto prazo às instituições com problemas de liquidez na esperança que os mercados se ajustem o mais rápido possível e o crédito volte à normalidade.

Por experiências brasileiras nesse tipo de problema não é difícil concluir que a tentativa não trará o resultado esperado, pois enquanto essas posições fora do balanço não se tornarem claras e os bancos mostrarem a real posição financeira em que se encontram, a desconfiança será perene e as conseqüências cada vez mais graves.

As reduções constantes na taxa de juro americana, além de não solucionar o problema, estão provocando estragos terríveis e irreversíveis no curto prazo. Não está resolvendo a circulação do crédito, criando um circulo maligno, onde o dólar não para de cair, a inflação não para de subir e os investidores desnorteados correndo para os chamados “ativos reais”, com commodities como metais preciosos e petróleo atingindo preços históricos.

Por aqui, mesmo sabendo que iremos sofrer conseqüências dos mercados globalizados, a economia brasileira vai seguindo de vento em popa.

Crescimento robusto, inflação controlada, credor externo, reservas acima de US$ 190 bilhões, recordes na produção de veículos e outros tantos indicadores positivos que nos colocam numa posição privilegiada no atual contexto econômico mundial.

Hoje é o último dia de reunião do Copom que define a taxa referencial de juro, Selic. E como não perco nunca a esperança, acredito que nossos dirigentes do Banco Central irão tomar como exemplo as dificuldades que hoje vive o Fed ao abandonar o seu papel de “policy maker”, e não se tornar como ele um conduzido do mercado, com uma decisão condizente com o momento e as expectativas que vivem a economia brasileira.

Relatórios de agentes do mercado não deveriam servir de desejos e sim de parâmetros de expectativas onde a política monetária deveria atuar como indutora.

Essa taxa de juro absurda de 11,25% ao ano, é taxa de país em crise e não de quem aguarda para breve a condição de grau de investimentos. Mesmo porque com um desfecho mais grave da economia americana ela só irá provocar uma entrada maior de recursos estrangeiros e uma queda maior ainda da cotação do dólar. Nós fizemos à lição de casa que eles nos passaram e não aplicaram em casa.

A preocupação com a inflação, basicamente de alimentos, não se justifica no momento, porque ela não afeta o preço das commodities no mercado internacional, como não irá fazer com que o trabalhador reduza o tamanho do prato de comida.

O Brasil todo clama pela reforma tributária, analistas vivem repetindo que o governo gasta demais, mas poucos se atrevem a condenar essa taxa de juro que provoca uma enorme despesa desnecessária.

Sou otimista.

Acredito que hoje uma luz divina irá iluminar a mente dos membros do Copom e a taxa de juro será reduzida. Acredito tanto que sou capaz de apostar que em breve também teremos um mercado secundário forte da dívida pública e, por conseqüência, um custo menor de emissão para o tesouro nacional.

Milagre só acontece para quem acredita.

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