A inescrutável renda fixa brasileira

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De todas as modalidades financeiras a renda fixa, sem dúvida, é a mais fácil e ao mesmo tempo a mais difícil. Simples e fácil de calcular e a mais complexa de se avaliar e projetar.

No Brasil o conceito e a prática se perderam desde a execução da política monetária por parte do Banco Central até na distribuição de produtos financeiros que invariavelmente são oferecidos como renda fixa e que na realidade possuem indexadores variáveis como a mediocridade da taxa CDI.

Por motivações evidentes de interesses do setor bancário e sua administração de recursos de terceiros o Banco Central há muito tempo deixou de praticar a verdadeira política monetária que tem como premissa ser executada com títulos pré-fixados. Não o faz por desconhecimento ou então para atender demandas que não são pertinentes a seus propósitos constitucionais. A situação é tão bizarra que deixarei para uma abordagem mais ampla em outro texto.

O mais grave de tudo é que além do conceito primário do que é de fato uma aplicação em renda fixa estar totalmente desvirtuada, sua intensa propagação pela imensa maioria dos ditos educadores financeiros e assessores de investimentos acabam não instruindo o público e por vezes fazendo com que oportunidades de altos rendimentos propiciados pelo cenário recente não sejam devidamente aproveitadas.

Torna-se oportuno insistir no conceito e na prática para melhor entendimento do que é uma aplicação em renda fixa: toda operação que tem prazo e rendimento acordado do início ao resgate, não é por acaso que o valor de resgate é previamente conhecido e a taxa de juros é descontada deste valor para apuração do valor presente.

Fundos de Renda Fixa e títulos com indexadores que variam no tempo não são operações em renda fixa.

A vantagem da renda fixa é saber o quanto de rendimento será obtido até a data do resgate. Não é por acaso que o sistema bancário só empresta recursos com taxas pré-fixadas e nunca em percentual do CDI.

No início do ano quando o as taxas de juros futuras, que servem de referência para a renda fixa, subiram de forma inédita a recomendação corrente era para que o investidor se ancorasse na renda fixa. A imensa maioria seguiu os “conselheiros” que infelizmente não possuem bagagem e conhecimentos da modalidade e acabaram aplicando seus recursos em operações com taxas flutuantes e não em renda fixa.

Perderam uma grande e rara oportunidade de um rendimento fora do comum pré-determinado até a data do resgate da operação.

Enquanto no ano de 2016, de 04/01 a 17/08, o Ibovespa subiu 37% e o acumulado do CDI, referencial de quem alocou suas aplicações em títulos indexados como LCI, LCA, CDB, Debêntures e outras tranqueiras que foram empurradas como renda fixa, foram de 8,64%, vejam os exemplos de rendimentos em Renda Fixa de fato:
Operações no Tesouro Direto:
Compra da LTN com vencimento em 01/07/2019 em 04/01/2016 a taxa de 16,66% e vendendo os títulos em 17/08/2016 a taxa de 11,95% ao ano, o rendimento no período foi de 36,44%. Mesma operação para a NTN-F 01/01/2021 comprada a 16,44% e vendendo pelo preço atual de 11,92% a rentabilidade no período foi de 44,28%. Observe que quanto mais longo o prazo maior foi a rentabilidade obtida até o momento.

Recomenda-se que ao investir em renda fixa que mantenha o título até a data de vencimento para assim ter a garantia da rentabilidade contratada no início da operação.

O comparativo foi para demonstrar o quanto os clientes são ludibriados por recomendações de vendedores dos produtos e mal instruídos por alguns chamados “educadores financeiros” na modalidade Renda Fixa.

A solução é o investidor ser mais criterioso e pesquisar antes de decidir por uma aplicação financeira se quem está recomendando tem conhecimento do assunto e não está somente obtendo ganhos de comissão de venda. Além de buscar se instruir financeiramente porque Renda Fixa não é um investimento que tem tanta complexidade para ser tão inescrutável como é hoje no Brasil.

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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2 thoughts on “A inescrutável renda fixa brasileira

  1. Mas tem uma variável intrínseca de que esse juros são relacionados com o poder de pagamento do tomador, e o Brasil nesses anos como tomador e deficitário se deixou levar por distorções nas relações de risco x retorno. As pessoas querem culpar o PT apenas, mas na verdade essa relação de aumento de gastos em detrimento ao aumento de arrecadação vem de muitos governos passados. Logicamente não houve uma agenda de negociação para as reformas serem efetivadas, afim de minimizar impactos em juros, impostos etc … Negociamos sempre com esses políticos agarrados nas tetas de algum benefício. País complexo para colocarmos e elegermos apenas um problema.

    1. Marcelo. Obrigado por seu comentário. No entanto o texto aborda a difusão errada do que é renda fixa, no Brasil. Como eu disse no texto a discussão sobre a taxa de juros e política monetária farei, em breve, em outro texto.

      Abraços

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