Serena Assumpção

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Serena Assumpção está lançando o cd Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré. Iansã, Iemanjá, Xangô. Todos orixás, trazidos para esse continente através de um povo escravizado de várias nações africanas como ketus, efons, ijexás, bantus, xambás, dentre outros povos. Dizer que é uma resistência cultural é pouco e simplório. É mais que isso. É demonstrar que sem a cultura negra a cultura desse país seria outra coisa muito provavelmente um tédio.

Se a musica tem de mexer com a alma nada melhor do que um batuque africano. É o melhor exemplo disso.

Serena dá continuidade do que foi nos 70 o Movimento Negro Unificado. Cada um na sua área contribuía para essa afirmação. Entre eles estava Itamar Assumpção com seu disco Pretobras. Já no primeiro disco Beleleu, leu e Eu com a banda Isca de Policia. Estava dado o universo real dos iscas de policia, a garotada negra da periferia.

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Serena vai mais longe vai buscar não uma denuncia, vai expor o que todos sabem de uma maneira inconsciente, a musica negra foi à salvação da musica ocidental. O batuque, a sincopa, e o improviso fizeram nascer o samba, o choro e o jazz. Michel Focault, filosofo, dizia que apesar da intensa repressão é possível criar um ponto de fuga. No Rio, com a grande repressão contra os negros e sua cultura, de religião, musica a capoeira eles encontraram seu ponto de fuga. Portela na avenida cantava na avenida em 2000 “Trabalhadores do Brasil – época de Getulio Vargas” trazia no ritmo um batuque dedicado a Oxossi. Era o ponto de fuga da escola. Esse é apenas um exemplo. O que Serena faz é mostrar que no cenário musical o som do terreiro tem muito a oferecer. Se não fosse o batuque com certeza “A Sagração da Primavera de Igor Stravinsky não existiria”. Apesar de reprimida essa cultura de terreiro sempre foi freqüentada por “pessoas de bem”.

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Serena reverencia quem melhor se serviu dele associando a um orixá. Ogum reverencia o Profeta Gentileza, Xango para Iya Sandra, Iansã para Madame Satã e Nina Simone, Nanã para Clementina de Jesus e Clara Nunes e assim por diante. Cada orixá homenageia uma figura importante desse universo negro. A primeira musica dedicada a Exu é talvez a mais conhecida.

Essas musicas populares e de domínio publico passam por arranjos tão envolventes e delicados. Algumas delas são precedidas de uma fala em língua africana, Ioruba, que em tom solene apresenta a musica delicada que vêm a seguir. Como num terreiro o disco é cerimonioso e respeitoso.

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As musicas fizeram por merecer os arranjos que não reduzem a um pop industrial. Os arranjos, as vozes dão uma amplitude expondo o que há de mais bonito e que tanto no terreiro quanto no disco apazigua a alma.

Serena assim como o pai morreu de câncer, foi no mês de março deste ano. Morreu? Não. Sua irmã diz pra onde foi Serena.

“Serena foi voar / Nadar nas profundas águas / Num canto de sereia / Serena voou encantos / Foi navegar seus ultramares / Serena agora está livre / Livre e mais Serena / pra sempre / Serena”

Se a cultura negra tem toda essa dimensão por que foi excluída da cerimônia ecumênica da abertura das Olimpíadas.

About

Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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