Cauby Peixoto

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Estou de volta. De tempos em tempos ressurge nessa coluna, busco uma regularidade que tempos bicudos não permitem. Já expus em colunas passadas que toda vez que retomo a coluna alguém havia subido aos céus. Triste sina a minha. Embora o Cauby não fosse das minhas relações pessoais ou profissionais é sem duvida um personagem presente na minha formação musical e suponha da minha geração. O rádio era o entretenimento durante o dia e o televizinho só à noite. Brincávamos, fazíamos lição com o rádio ligado. A morte de Cauby é o fim da época de ouro do rádio embora ainda restem poucos de seus personagens como Ângela Maria. Cauby sempre da maneira pode acompanhou as tendências musicais. Gravou musicas cafonas que o consagrou, versões de musicas americana onde pode exibir sua qualidade vocal e musicas que na sua voz ficaram irrepreensíveis como “Bastidores’ de Chico Buarque. É claro que diante de uma carreira tão longa alguns sucessos só poderiam ser ouvidos na sua interpretação até hoje como” Conceição” seu primeiro sucesso. Ele é o símbolo do artista do rádio, tanto pela performance ao cantar despudoradamente quanto ao saber lidar com seu publico.

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Cauby era sucesso e como tal noticia toda semana. Seu empresário, malandramente, contratava meninas de pele mais escura, dizia-se na época que eram domésticas para rasgar as roupas quando saia de uma apresentação na Radio Nacional. Elas eram chamadas “macacas de auditório” expondo o preconceito dos coxinhas da época.

Cauby vinha de uma família de músicos. O grande pianista da época Nonô (Romualdo Peixoto) era seu tio, um grande cantor da época Ciro Monteiro era seu primo. Seus irmãos Arakem, pistonista e Moacir pianista  eram respeitados na noite paulista.

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Era uma tradição na indústria fonográfica na época, anos 50 e 60, copiar direitinho os sucessos americanos. Senão fosse pela letra cantada em português era de se jurar que a musica era o original. Dois bons exemplos dessa época era Nora Ney cantando o rock “Rock Around the Clock” de Bill Halley e seus cometas. Curiosa por que o repertório de Nora Ney era de musica de fossa, tal ao gosto dos anos 50. Cauby gravou “Blue Gardênia” sucesso de Nat King Cole, trilha sonora do filme Gardênia Azul estrelada por Anne Baxter. A gravação de Cauby embalava os sonhos das mocinhas casadoiras que aspiravam um casamento onde seria bela, recatada e do lar.

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Cauby cantou em inglês, idish, Frances e outras línguas que sequer conhecia. Isso demonstra um ouvido atento para que pudesse cantar sem cair na galhofa. Cauby tinha sempre um sucesso a apresentar nos seus shows como New York New York e ultimamente no Bar Brahma revia seus sucessos como Conceição, New York New York, Blue Gardenia e Bastidores.

Cauby tinha muitas histórias e uma delas foi contado por um baixista importante dos anos 50, Chu Vianna. Em uma das apresentações em que acompanha Cauby, Chu resolveu provocá-lo. Assim que se trocava e colocava sua roupa de apresentação, em geral com um colete iluminado de paetês, sempre perguntava ao dar os últimos retoques na vestimenta aos músicos presentes:
– Como estou professor.
No que Chu Vianna respondeu
– Você vai cantar vestido assim?
Cauby não percebeu que era Brincadeira e incomodado pela resposta resolveu trocar de roupa.

A melhor história me foi contado pelo também baixista Luis Chaves do Zimbo Trio. Na metade dos anos 60 quando o programa Fino da Bossa era sucesso absoluto nas capitais brasileiras, Elis Regina e o Zimbo foram convidados para se apresentar num estádio em uma capital do nordeste que me foge da memória, em comemoração a um aniversário da instalação de uma fábrica de refrigerante local. A entrada era algumas tampinhas desse tal refrigerante. O palco era um caminhãozinho improvisado de palco com quatro alto falantes cornetas, desse que a agente vê em vendedor ambulante. Esse caminhão/palco dava voltas pelo gramado do estádio para que todos pudessem ouvir as apresentações. Quando acabava uma apresentação os artistas seguintes tinha de correr até onde estava o caminhão e dar inicio a sua apresentação e subia no palco quase sempre sem fôlego. Conta Luiz Chaves que na hora em que fizeram a apresentação da Elis e do Zimbo o caminha estava longe e a Elis teve arregaçar a saia e correr até o palco enfiando seu salto alto naquele terreno dedicado ao futebol. Luiz Chaves disse que grande lição daquele dia foi à apresentação de Cauby. De como ele sabia lidar com seu publico. Cauby encerrava as apresentações e era super aguardado pelo publico, era o motivo pelo qual o estádio estava cheio. Ao ser anunciado como ultima atração Cauby teria de sair correndo de encontro ao palco móvel e como acontecia até então com os músicos e cantores chegaria sem fôlego. Cauby usou a malandragem que a vida de artista lhe deu. Foi andando em direção ao palco e agachava de tempo em tempo colhia um pouco da grama beijava e atirava ao publico que ia ao delírio. Subiu ao palco com o fôlego intacto.

Esse foi o Cauby que conheci e que mais que um cantor era um personagem.

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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