Meu governo por um Banco Central

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No dia 23 de abril deste ano fará IV séculos que um dos maiores escritores, senão o maior, da historia da humanidade, William Shakespeare, faleceu.

Shakespeare inspirava suas peças na filosofia de húbris ou hybris. Um conceito grego que pode ser traduzido como “tudo que passa da medida que é descomedimento” e que alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência.

Seu túmulo nunca foi mexido porque dizem que quem mexer estará amaldiçoado, já que sobre seu corpo estaria repousada a sua 38ª peça inédita, daí tanto mistério.

Nas peças de Shakespeare, assim como nos escritos de Maquiavel, a inevitabilidade do conflito, o chamado, “choque de interesses”, é inerente ao jogo político e evidencia o caráter trágico ao revelar as contradições e os paradoxos deste.

Se tivéssemos um Shakespeare vivo, um escritor que focava suas obras na dimensão trágica da política, de certo ele escreveria uma obra baseada nos modelos econômicos que levaram o mundo ao estágio trágico que hoje se encontra.

Toda essa referência histórica deste magnífico escritor nos conduz a um fato no dia de hoje bem semelhante às tragédias e conflitos de poder brilhantemente narrados em suas obras, a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) para definir a taxa básica de juros e o comportamento do banco na condução da política monetária.

É sobejamente sabido por todos da crise política econômica que se instalou no Brasil desde o final do ano de 2014 até os dias de hoje e as consequências sócio econômicas que esta crise trouxe para toda a sociedade.

Desde o início do chamado ajuste de preços, principalmente de tarifas públicas, do cambio e dos juros o papel do Banco Central do Brasil se resume em aumentar gradualmente a taxa de juros nessa reunião de seu comitê e mais nada. Qualquer simples manual de política monetária ou de vivência e experiência em um choque como o que tivemos teria como princípio básico duas atitudes a serem tomadas na política de juros e câmbio: no câmbio uma desvalorização rápida pretendida dentro do ajuste seguida de atuações firmes para dirimir sua volatilidade acompanhada de um choque de juros que amortizasse os efeitos inflacionários da desvalorização cambial (elevar de uma só vez a taxa básica que estava em 10,9% para algo em torno de 15%).

Porque então não fizeram aquilo que deveria ser feito?

Não o fizeram pelas mesmas razões de insistirem nesse modelo, que empiricamente tem se mostrado ineficaz desde sua implementação, o chamado Regime de Metas para a Inflação e lógico pelos interesses subjacentes que ele suscita. Um choque de juros e câmbio provocaria uma perda de riqueza imediata em alguns setores com forte poder de barganha política e principalmente econômica.

O poder em todo mundo é econômico, o político é só um apêndice. As recentes crises mundo afora e as políticas que se seguiram depois delas mostraram quem de fato detém o poder.

Interessante observar que desde o regime de metas, sai governo, entra governo e a política monetária mesmo não obtendo sucesso se perpetua no erro comum dos dois principais partidos políticos. O que difere na escolha do modelo é que o anterior sabia para quem e o que estava fazendo, enquanto o atual por falta de quadros com conhecimento técnico, da continuidade justamente por acreditar que o consenso de imutabilidade, a coragem para mudar e o medo da crítica ditam o caminho a ser seguido.

O mundo com baixo crescimento econômico e com risco de desembarcar em mais uma crise, a queda e projeções de queda próximas de 3% do PIB brasileiro, o desemprego crescente, o juro real em torno de 8,50%, os spread bancário nas alturas, a inadimplência das empresas e famílias, se o aumento da taxa irá provocar mais despesas de juros para o governo central e alguns estados falidos, isso tudo não tem importância, o que importa é a “Independência do Banco Central” para convergir às expectativas, do mercado claro, para a chamada meta dentro de seu modelo matemático chamado Samba.

Mudar para um modelo que privilegie a produção, o emprego e o bem estar social está fora do debate, fora de questão, já que requer uma atuação mais efetiva e indutora de política monetária e cambial por parte do Banco Central. Como uma peça de Shakespeare o conceito de húbris é o maior impeditivo.

Dentro do contexto pouco importa se o Banco Central hoje vá subir ou reduzir a taxa básica de juros, se ira ceder à vergonhosa chantagem do mercado e de alguns de seus ex-dirigentes ou focar exclusivamente na economia, o que importa é que na essência nada será mudado até o dia que o governo, assim como Ricardo III, capitular em sua ultima batalha e num devaneio semelhante e agonizante oferecer.

Um Banco Central, um Banco Central, meu governo por um Banco Central!

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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