Histórias do Império – O Boticão de Ouro

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Retomando as historias verídicas dos tempos em que o mercado financeiro tinha o Rio de Janeiro como a principal Praça do Brasil e sem entrar no mérito dessa discussão em torno da ultima decisão do Banco Central em alterar ou não a taxa de juros na reunião da semana passada, me levou a lembrar de um fato considerado uma das maiores, senão a maior, trapalhada do BC de todos os tempos, fato que gerou a seguinte frase por parte do presidente da república à época: “Quem no Banco Central tomou essa decisão tão estapafúrdia?”.

Foi em outubro de 1988. O presidente da Republica era José Sarney, o Ministro da Fazenda era Mailson da Nóbrega e o presidente do Banco Central Elmo Araujo Camões. A retomada do regime democrático era recente, o país economicamente estava totalmente desorganizado, vínhamos de dois planos econômicos que não obtiveram sucesso, Plano Cruzado e Plano Bresser, a inflação estava nas alturas, a inflação acumulada do ano de 1987 foi de 415,83% e a de 1988 já estava atingindo o patamar de 1.000% ao ano.

Foi então que o diretor que administrava a taxa de juros no Banco Central na DIDIP (Diretoria da Dívida Pública e Mercado Aberto) Juarez Soares, decidiu implementar uma política de juros agressiva, um chamado choque de juros no combate a inflação. Como o controle da política monetária era realizado basicamente pela taxa *over night, onde o BC realizava suas atuações para alterar seu patamar, Juarez Soares iniciou uma escalada na taxa que foi subindo gradativamente de algo em torno de 25%/30% para em outubro atingir o patamar de 38%.

Naquela época o mercado costumava operar, a termo, a taxa do over nigth do dia seguinte, o volume operado era grande e em certa medida influenciava a taxa praticada no mercado a vista, taxa essa que flutuava bastante ao longo de todo dia gerando lucros e prejuízos a seus participantes, dependendo da posição assumida.

No dia 12/10 o mercado a termo ficou mais agitado que o normal, alguns participantes começaram a tomar todas as ofertas, volumes e taxas que eram ofertadas nos spreads elevando a taxa dos últimos negócios próxima a 42%. Foi um burburio tremendo naquele dia.

Na manhã de 13/10, antes da abertura dos negócios num rompante Quixotesco veio o comunicado da mesa de operações do Banco Central: “BC toma ou dá recursos no over à taxa de 50%”. Imaginem as consequências e os comentários naquele dia e posteriores.

Os mercados entram em pânico, bolsas de valores despencaram, boatos de novo congelamento de preços pipocava, projeções da inflação que até então estavam em torno de 30% ao mês, dispararam, acusações de insider no mercado era a fofoca do dia. No gabinete do ministro da Casa Civil, Ronaldo Costa Couto, as ligações de governadores, empresários e de bancos cobrando explicações foram o dia todo. “Que maluquice é esta?”, perguntou à Costa Couto o então governador mineiro, Newton Cardoso.

No final daquele dia o governo tomou a seguinte decisão:
MINISTÉRIO DA FAZENDA
DECRETO DE 11 DE OUTUBRO DE 1988
O Presidente da República, de acordo com o artigo 59 da Lei n9 6.045, de 15 de maio de 1974, resolve
EXONERAR
JUAREZ SOARES do cargo de Diretor do Banco Central do Brasil.
Brasília (DF), 1.3 de outubro de 1988; 1679 da Independência e 1009 da República.
JOSÉ SARNEY
Mailson Ferreira da Nóbrega

E de onde vem o título desta história, Boticão de Ouro?

Este era o apelido dado a Juarez Soares por alguns participantes do mercado daquela época.

Com a fama adquirida nesta atitude na DIDIP muitos chegaram a imaginar se tratar de uma correlação com o famoso potro de corridas no turfe, Boticão de Ouro, que teve uma carreira fenomenal, ganhando grandes prêmios importantes aos três anos de idade, mas que por uma fatalidade quebrou a pata numa importante prova onde liderava com folga e acabou sendo sacrificado, assim como o diretor.

Não foi isso. O apelido era anterior ao fato. Boticão de Ouro porque a formação acadêmica de Juarez Soares era em Odontologia. De certo possuía algum curso de especialização em finanças e economia. Não me recordo se tinha.

Esta foi mais uma das historias pitorescas do mercado financeiro, dos tempos que lembrava o Brasil Império. Outras virão.
Saudações

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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