No fio da navalha

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São 8hs, já estou sentado em meu lugar na mesa de operações e ligo meu computador. Enquanto ele carrega os programas começo a meditar sobre tudo isso que está acontecendo neste momento de mercado em que todo mundo que converso insiste em chamar de crise.

Abro meus e-mails, planilhas com gráficos, suportes, resistências, retas traçadas e etc.… A parafernália começa. Notícias onde economistas e analistas alertam para a grave crise que já está se instalando no Brasil.

Estaremos em crise mesmo? Ontem depois de enfrentar um trânsito maluco de 2hs em São Paulo para conseguir chegar em casa, recebo um telefonema do amigo Elias dizendo que o mês de outubro foi o melhor faturamento da historia de sua empresa de apenas três anos de existência. No sábado outro amigo, o Rui, que trabalha com revenda de pneus e nunca foi dos mais otimistas, confessou que está vendendo como nunca. Estamos já em crise econômica ou existe um desejo mórbido de que ela se instale de verdade? Acho que vou deixar de assistir as notícias na TV. Essa insistência de que não vamos escapar de forma nenhuma da tal crise me apavora.

O computador está lento. Volto para minha reflexão diária e me pergunto: como será esse miserável mercado hoje?

Alguns dos chamados fundamentos me mostram uma pré-julgada direção, acredito isso já ser sabido, mas como irá se comportar o tal mercado hoje? Isso no momento é o que mais me interessa. Não quero saber muito do cenário macro, estou mais preocupado mesmo é com o dia de hoje, com o day trade. Amanhã é outro dia, amanhã penso no amanhã. O sucesso nos traders de hoje é o que mais me importa.

Apesar de pensar no dia-a-dia, os acontecimentos recentes não me saem da cabeça. Quanta coisa não passa pela cabeça de uma pessoa envolvida com o mercado.

Alguns pensam tanto e tão rapidamente que chegam a processar as ideias mais rápidos que um “pentium”.

E ficam ali: pensando e tentando organizar suas ideias, processando as informações na esperança de antecipar qual será o comportamento do mercado no dia. Por vezes divagam tanto que só o do dia não basta, querem descobrir o comportamento preciso da abertura, de toda manhã, da tarde e do fechamento.

A maioria de meus parceiros de negócios e de amigos aqui do trabalho hoje vive deprimida e desanimada e eu estou com esse mesmo sentimento que eles.

Até bem pouco tempo vivíamos uma grande euforia com os mercados, parecia que essa felicidade jamais teria fim, que vivíamos o ciclo da felicidade eterna. De repente tudo veio abaixo e de uma hora para outra a euforia virou um estado deprimente.

Acabo percebendo que o comportamento humano é altamente influenciado pelo meio e também pelo chamado efeito manada. Estávamos numa grande euforia há bem pouco tempo e hoje num estado de total desalento.

O certo é que o momento revela essa nossa precariedade psíquica que está presente o tempo todo, mas que aflora de modo mais claro diante de uma grande dificuldade. Quando tudo vai bem, temos a impressão de que somos todos competentes, que vamos ficar ricos rapidamente. Esse mercado é fácil. Parece que estava tudo combinado. Seguiríamos a mesma direção e ficaríamos ricos rapidamente. Não nos dávamos conta de que essa arrogância e onipotência iriam nos levar, de fato, a um estado de impotência e estupidez.

Culpa dos norte-americanos, do Alan Greenspan, desse Bush, da desregulamentação dos mercados. Por que deixaram correr tudo tão solto e criarem tantas operações exóticas? Porque todo mundo, os que compraram e os que venderam, toparam desregulamentar. No fundo somos todos culpados, o difícil é admitir a culpa, daí essa mania de tentar imputar a culpa a alguém.

Já são quase 9 h da manhã, daqui a pouco os mercados vão abrir e minha cabeça não para de processar esses pensamentos.

Eu deveria era ter zerado minhas posições antes, deveria ter colocado boa parte da minha grana na renda fixa, em um fundo DI, comprado um título público ou algo mais conservador?

Numa autocrítica, como poderia pensar em renda fixa num momento onde todos estavam ganhando tanto e tão rapidamente?

Eu não poderia ficar de fora dessa.

Aplicar meus recursos e ficar esperando a operação vencer por tanto tempo?

Tanto tempo sim. Porque 30, 60, 90, 180 dias com o mercado acionário “bombando” e todo mundo ficando rico, é uma eternidade!

Cheguei a esquecer me o que é renda fixa. Na grande imprensa passaram a determinar que renda fixa era qualquer aplicação feita em fundos chamados de fundos de renda fixa, CDB com percentual do DI, fundo DI e etc.… Em resumo, qualquer coisa que não fosse aplicação em bolsa, confundindo o investidor quando é tudo muito simples. Renda fixa é uma aplicação feita com prazo e taxa de juros pré-determinados. Só isso.

Depois que apliquei num determinado prazo a uma determinada taxa de juros, as taxas podem cair ou subir, aconteça o que acontecer o meu rendimento já está determinado previamente.

Quando tenho uma aplicação onde os juros flutuam ou são atrelados a um rendimento variável e quando resgato antes do prazo, não estou investindo em renda fixa.

Olho na tela de cotações e as taxas de juros futuras continuam subindo, ficando cada dia mais atraentes, mas vou comprar mais ações. Aos poucos. Desta vez não pretendo seguir a manada. Acredito que vamos descolando levemente das amarguras da América. A economia brasileira vai bem e obrigado. Apesar desta taxa de juros fora de contexto.

Fico pensando: posso ter sido vítima da manada, mas esse Banco Central com sua política de consenso onde todos foram para o abismo, também não escapou. Aprendi que autoridade monetária é indutora de política monetária, por isso é chamada de “policy maker”. Se o Banco Central é conduzido pelas expectativas de consenso de mercado, quando ele atua não produz efeito. Todo o mercado já esperava o sentido de sua atuação e ela acaba não atingindo os objetivos.

São 9h17min. E a crise?

Será que vou sair mais maduro e mais fortalecido?

Será que conseguirei ser mais racional e tomar minhas decisões com menos emoções e maior independência, conseguindo traçar meu próprio cenário para no futuro saber onde foi que EU errei?

Espero que sim. Não dizem que as crises nos ensinam e ficamos mais experientes para o futuro? Provavelmente, mas pode ser que não.

Afinal sou um ser humano, cheio de inseguranças e contradições, humanas.

Demasiado humano!

Desculpem, mas tenho que ir.

Os mercados já abriram.

 

“Aquele que conhece a si mesmo é um sábio. Aquele que conquista a si mesmo é invencível.” Tom Kelley

 

*Texto originalmente publicado quando era Colunista na Infomoney em 12/11/2008. A história trata de uma autoavaliação do pós-crise por parte de um suposto trader de um banco. Uma ficção carregada de realismo.

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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