Marília Pêra

13343540

Muito se falou sobre Marília Pêra sobre sua qualidade artística e noticiários foram sustentados com declarações de amigos e de atores que com ela contracenaram. Essa cobertura cheia de comoção com amigos chorando e fãs querendo se despedir é uma boa tática pra manter o ibope e sobre seu pouco se falou. Não vi ainda, pode ser que exista um texto de algum critico ou professor de teatro falando de seu trabalho.

Me arrisco aqui sobre seu trabalho já que a Globo direcionou a atuação de Marília Pêra as suas novelas capitalizando sua morte ao seu produto, isso é o que conhecemos como “agregar valor”.

Marília por ter pais atores aprendeu o oficio atuando e com ele o respeito pela profissão. Como diz Fernanda Montenegro: Se você quer ser ator desista, não passe perto, saia disso. Agora, se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte e vai ser ator.

Marília Pêra se enquadra perfeitamente nessa qualidade de ser ator.

Vi Marília Pêra atuando no espetáculo Roda Viva, 1968, ao lado de Rodrigo Santiago dirigido pelo José Celso Martinez Correa.  Inspirado na sua própria musica “Roda Viva” Chico Buarque faz sua primeira incursão pelo teatro onde narra o quanto pode ser castrador e inibidor de criatividade a indústria cultural. O espetáculo foi apresentado no Teatro Ruth Escobar e foi invadido pelo CCC- Comando Caça aos Comunistas. Na verdade o CCC buscavam outro espetáculo, Primeira Feira Livre Paulista de Opinião que se apresentava em outra sala de espetáculos ao lado do Roda Viva. O espetáculo Primeira Feira Livre Paulista de Opinião naquela noite se apresentou em outro local e os integrantes acabaram por invadir o Roda Viva. Marília, então com 26 anos já chamava atenção no papel de Juju que no Rio de Janeiro foi de Marieta Severo.

No ano seguinte surpreende no Musical A Moreninha, uma adaptação do romance do mesmo nome de Joaquim Manuel de Macedo. Marília era a própria Moreninha, a menina casta, virgem e delicada em busca de um amor verdadeiro como convinha às moças da época. A Moreninha foi encenada no Teatro Anchieta.

Já em 1970 Marília volta a encenar outro musica, “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato”. Esse espetáculo nasce da atuação de Marília Pêra no papel da vedete Joana Martini e de Helio Souto no papel de Baby Stompanato na novela de Bráulio Pedroso. O sucesso da dupla na novela fez com que Bráulio escrevesse um espetáculo musical só com esses personagens. Dois atores que cantavam e dançavam dando suporte a história de Joana e Baby, Zezé Mota e Marcos Nanini. A forma caricatural com que atuava no papel de Joana Martini era de se saborear.

Podia citar outro grande espetáculo, “Fala Baixo senão eu grito”, dramaturga paulista Leilah Assumpção que foi encenada pela primeira vez em 1969. Recebeu o prêmio Molière e o prêmio da APCT – Associação Paulista de Críticos Teatrais, atual Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A direção foi de Clóvis Bueno. A atriz Marília Pêra fez o papel de Marianinha, uma solteirona virgem que vive em um pensionato de freiras. Paulo Villaça fez o ladrão que, numa certa noite, pula a janela do quarto de Marianinha com a intenção de roubar. Na conversa entre os dois, que dura a noite toda, a solteirona revela ao público e si mesma suas frustrações.

Esses são alguns dos espetáculos em que Marília atuou em que o espetáculo teatral era muito mais que subir no palco e contar piadas grosseiras e inundar o publico de besteirol. Com a morte de Marília Pêra diminui os integrantes de uma geração que quer fazer um teatro consequente que hoje escapa das mãos da classe média e está sendo assumida pela periferia.

 

About

Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

View all posts by

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *