Um Banco Central refém – Parte 2

Hands in handcuffs on the table

 

 

 

 

 

 

 

 

O ex-presidente do banco central norte-americano lançou nesta segunda-feira, 12/10/2015, o seu livro de memórias, “Ben Bernanke, a coragem de agir”. Não tive a oportunidade de ler o livro ainda, porém tenho acompanhado alguns debates na mídia americana que começaram mesmo antes de seu lançamento.

O que mais me chamou a atenção nessas analises do livro não foi o comentário de Bernanke, sem mencionar nomes, que “analisando em retrospectiva alguns executivos de Wall Street deveriam estar presos”, nem o importante nota sobre uma alteração na meta de política monetária do Fed, a partir de uma taxa de inflação para uma taxa de crescimento do PIB nominal, mais relevante foi ele acreditar que o Fed poderia ter feito mais para impulsionar a economia no pós-crise se tivesse maior apoio político para ações adicionais.

Diz ele: “enquanto o Fed enfrentou pressão política significativa de republicanos do Congresso para fazer menos para fortalecer a economia, nem Barack Obama nem os democratas do Congresso estiveram muito interessados em oferecer pressão do outro lado”.

Essas revelações de Bernanke são importantes para observarmos o quanto o Fed e outros bancos centrais se tornaram dependentes da classe política e essa de seus financiadores de campanha, no caso americano de Wall Street.

Em recentes debates presidências americano o tema regulação dos mercados repetem a observação de Bernanke, os Democratas não tocam no assunto e os republicas prometem total liberação.

No Brasil todas as vezes que ocorrem mudanças na presidência e principais diretorias do Banco Central a maior preocupação que se estabelece é se o nomeado é uma “figura do mercado”, alguém que teoricamente pertença ao chamado mercado e por consequência entenda o que deve ser feito na política monetária.

Acontece que, salvo raras exceções, os nomeados que em sua maioria possuem notáveis saberes acadêmicos, poucos conhecem do mercado propriamente dito, de suas nuances, do seu comportamento e reação diante de uma atitude de política econômica por parte do BC e tampouco do modus operandi (forma de operar) a ser praticado no dia a dia e principalmente em períodos de instabilidade.

Já vivenciei ativamente vários planos e participei de inúmeras situações de política monetária por parte do BC no mercado e posso garantir com absoluta certeza que não só a monitoramento, mas o controle das distorções de curto prazo numa atuação mais efetiva, num trabalho árduo e diário na correção de desvios de rota provocados pelo mercado, facilita o papel de executor.

Vamos começar pela atuação cambial: Mesmo sendo de conhecimento de todos que dentre as novas medidas traçadas pela equipe econômica a desvalorização do real, objetivando o ajuste externo, veio para ficar, a maneira que foi administrada de determinado momento para cá passou a ser autoalimentadora da crise. Os players locais e não os internacionais carregados de posições em dólar, basicamente em derivativos e operações referenciadas, passaram a impulsionar a cotação, quando essa sobe a temperatura política acompanha num processo que favorece a crise e dificulta as votações no congresso. Os juros e dólar sobem mais porque aumentou a crise política ou a crise política aumenta porque os juros e o dólar dispararam?

Qual o problema do Banco Central administrar a cotação comprando e vendendo reservas para reduzir essa excessiva volatilidade e incerteza que só prejudica as empresas? O câmbio nunca teve flutuação totalmente livre mesmo no Brasil e no mundo. Não existe a chamada flutuação pura, pois todas as vezes que não convém à política econômica os bancos centrais atuam de alguma forma.

A justificativa mais plausível para o BC não vender parte, mesmo pequena dos US$ 372,9 bilhões de reservas é que com o fluxo cambial positivo apontando não saída de resevas e com as apostas na alta concentradas nos derivativos a cotação poderia despencar para um patamar prejudicial ao ajuste. Qual o problema de vender e depois recomprar ou de trocar os swaps por reservas?

Dá trabalho administrar diariamente, mas só se atinge objetivos com trabalho.

Antes de passar para os juros quero deixar bem claro que a crítica não está sendo dirigida a pessoas e sim ao conceito e forma que vendo sendo operacionalizada a política monetária e cambial pela autoridade monetária.

O mercado de juros e títulos públicos: O modelo copiado de Metas para Inflação, cada dia mais contestado nos lugares onde primeiro foi implementado, praticamente acabou com os efeitos dos juros. As incertezas nas atuações dos principais bancos centrais no mundo são evidências disso.

A atuação efetiva no patamar de juros ficou restrita unicamente as reuniões do Copom. O tradicional instrumento de política monetária “open market” que prescinde execução com títulos pré-fixados não existe mais. Hoje quase metade da dívida pública federal é rolada nas chamadas operações compromissadas, um instrumento que deveria ser transitório, oriundo da crise da marcação a mercado, mas infelizmente passou a ser aplicado de maneira regular e crescente.

Basta observamos no site do BC os dados de movimentação de títulos para constatarmos que mercado secundário, de fundamental importância para liquidez da dívida, praticamente não existe mais. Os leilões são realizados mediante pré consulta a grandes gestores que determinam o que desejam comprar e por vezes, para comprar o que precisam vender.

A doutrina está tão impregnada que funcionários do BC e do tesouro, além da imensa maioria dos gestores, economistas e analistas, por desconhecimento operacional e de mercado, acreditarem que o tesouro é quem precisa de qualquer forma vender seus títulos e não os gestores de recursos de terceiros é que de fato precisam comprar, precisam de lastros para carteira, possuem mandatos para gerir os recursos que não lhes pertence, em sua maioria de maneira conservadora.

Nos dias de hoje praticamente todas as operações financeiras estão indexadas ao misterioso CDI, somos provavelmente o único país a remunerar com prêmios as operações de curto prazo.

Porque não se trabalha para gerar mesmo riscos e inseguranças do curto prazo e assim permitir um alongamento natural do perfil da dívida para o longo prazo? Com títulos pré-fixados os únicos verdadeiramente de política monetária. Conforto maior tem que ser permitido a quem de fato aplica e poupa seus recursos de maneira planejada. Quem tem preferência pelo curto prazo, para o dia a dia que tenha mesmo desconforto, que incorra em altos riscos. Privilégio deve ser dado para quem investe.

Importante não confundir o aplicador ou poupador, que provém os recursos para a economia, com investidores. Investimento é outra coisa.

Recentemente o Banco Central divulgou que tinha recalibrado o seu supermodelo de projeções econômicas, o Samba, e constatado que o ciclo de juros baixos, quando chegamos a 7,25% ao ano, foi o principal causador da inflação. Isto significa que estamos fadados a praticar os juros mais altos do mundo por longo tempo? O Modelo não consegue constatar o fato mais óbvio, que a taxa de juros em uma economia totalmente indexada se torna inelástica? As convicções são irreais!

Somente a taxa básica de juros, consome mais de R$ 350 bilhões de recursos por ano. Imaginem a transferência de renda na taxa praticada nos mercados de crédito, onde o BC passa a impressão de esquecido de monitorar tamanho é o spread bancário?

Que o planejamento seja de longo prazo e o Banco Central trabalhe as condições necessárias de curto prazo não permitindo que este seja projetado pelas condições e volatilidade inerentes ao imediatismo do mercado.

Até porque a concentração das aplicações e financiamentos cada vez mais concentradas está fazendo com que hoje não exista de fato mercado.

Já passou da hora do Brasil rapidamente estabelecer condições de longo prazo para investimentos, se continuarmos com essa miopia financeira estaremos fadados a sermos um apêndice do imediatismo dos mercados.

Ao Banco Central urge fazer a sua parte. Para que as algemas que o aprisiona definitivamente desatem.

 

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. -Antoine de Saint-Exupéry

 

* Open market
Em economia financeira, open market (em português, ‘mercado aberto’), refere-se ao mercado de títulos no qual atuam um banco central e os bancos comerciais de um país e no qual são comprados e vendidos os títulos da dívida pública. O banco central promove leilões de títulos públicos com os dealers (principais bancos do país) e participa das operações, comprando ou vendendo esses títulos.

No open market, os bancos centrais podem realizar, rapidamente, “acomodações” diárias no volume da oferta de moeda. Ao intervir nos mercados monetários, os bancos centrais podem controlar as taxas de juros de curto prazo, regular o nível de liquidez da economia e sinalizar a orientação da política monetária ao comprar ou vender títulos públicos.

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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