O ministro caiu e dólar subiu?

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Venho comentando e alertando os ouvintes em meus programas na Rádio Cidadã sobre o jornalismo econômico suas deficiências e seus vieses.

O jornalismo no Brasil, assim como em todo o mundo, depois do avento da internet, passa por uma crise profunda, a concorrência trouxe prejuízos de audiência e por consequência financeira com a queda de anunciantes.

O pior de todos os prejuízos foi para os leitores, a tentativa de concorrer a velocidade das notícias na websfera fez com que se perdesse muito do conteúdo para focarem basicamente nas manchetes. Para o jornalismo econômico que requer uma analise mais apurada dos fatos a perda de qualidade é muito mais acentuada.

Com a recente crise política qualquer movimento no preço dos ativos é dado como consequência de algum fato político, desprezando-se, na maioria das vezes, o contexto e o cenário econômico que propiciou o movimento.

As expectativas de que o Fed iria aumentar as taxas de juros já em 2015 vinha sendo o principal condutor do rali do dólar pelo mundo, em especial nos países emergentes, fato que começou em julho de 2014. As taxas de juro mais elevadas nos EUA, pelo menos teoricamente, iriam fazer com que o dólar subisse, com os investidores mais atraídos pelo maior retorno em ativos americanos, embora no passado o dólar tenha enfraquecido logo após o início dos ciclos de altas das taxas.

O enfraquecimento da economia global, aliado a dados da economia americana, passou a sugerir que o Fed só iria iniciar a normalização monetária em março de 2016, como sinaliza a taxa dos fed funds no mercado americano, abrindo espaço para um enfraquecimento do dólar, daí a razão de nas últimas duas semanas ter ocorrido desvalorização do dólar frente outras moedas.

No dia de ontem, logo pela manhã, a cotação do dólar frente ao real já dava claros sinais que passaria o dia pressionada,

Neste domingo a China divulgará o relatório do crescimento de seu PIB no terceiro trimestre (expectativa de 6,8% no ano), pra não ser pego de surpresa o mercado aproveitou para realizar o movimento ocorrido nessas duas últimas semanas, tanto que dentre 24 moedas de países emergentes 19 recuaram frente ao dólar no transcorrer do dia e o real seguiu no mesmo movimento.

É sabido que invariavelmente os ativos mudam de preço nos mercados antes das notícias, como diz um velho e verdadeiro jargão: “não é a notícia quem faz o mercado e sim o mercado que faz a notícia”.

Como os players responsáveis de fato pela movimentação de preços não costumam dar entrevistas sugestivas de tendências que prejudique sua atuação para jornalistas econômicos, estes saem em busca de alguém que possa explicar o motivo. Assim o primeiro argumento é noticiado, pisca a manchete no veículo de informação e esta se alastra rapidamente fazendo o argumento virar “verdadeiro”.

Foi o que aconteceu, mais uma vez, para justificar a alta do dólar frente ao real próximo do fechamento do mercado spot, subiu em razão de uma suposta saída do ministro Joaquim Levy. A cotação então subiu um pouco mais, recuando um pouco no fechamento do mercado futuro.

Claro que a saída de um importante membro da equipe econômica é motivo de especulações no câmbio, porém neste caso foi somente por um contexto econômico.

Por essas razões que venho chamando a atenção dos ouvintes, em sua maioria cidadãos não familiarizados com o mercado financeiro já que se trata de uma rádio comunitária, para tomarem muito cuidado e não se deixarem levar pelas notícias divulgadas. Neste momento de crise política que atravessamos, os vieses jornalísticos tomaram conta do noticiário e podem leva-los a incorrer em prejuízos financeiros.

 

“Se o desejo escraviza o pensamento, a verdade foge de imediato pela janela mais próxima. Quando as pessoas abandonam sua natureza essencial para seguirem seus desejos, suas ações nunca são corretas.”  – Lao Tse

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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