Que Horas Ela Volta?

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O cotidiano de uma família dentro de uma casa com suas relações sempre foi um bom jeito de mostras o Brasil. Estão ali todas as representações sociais e seus conflitos.

Temos bons exemplos como Tudo Bem de 1978 de Arnaldo Jabor. O filme mostra uma típica família de classe média às voltas com a reforma do apartamento. Os operários que fazem a reforma, que nunca termina, convivem com o dia a dia de uma família classe média. A classe média acha um estorvo conviver num mesmo espaço com essa gente considerada pouco educada. Essa gente só Server para servir à classe média. Lembre dos reclamos da classe média ocupando os aeroportos “parece uma rodoviária”.

Outro filme de 2000 Domésticas é um filme brasileiro, do gênero cômico, de 2000, dirigido por Nando Olival e Fernando Meirelles. É baseado na peça homônima de Renata Melo onde o universo das domésticas contrastando com a de seus patrões mostra o quanto a classe média é ridícula. E agora chega as telas Que Horas Ela Volta? De Ana Muylaert que atualiza hoje essa relação onde a profissão de doméstica é regulamentada para horror da classe média. Melhor texto sobre o filme encontrei na coluna do Paulo Moreira Leite no site 247 que reproduzo abaixo.
Luta de classes dentro de casa
Num país onde as trabalhadoras domésticas têm uma importância essencial na vida das famílias que jamais foi reconhecida pelo cinema, o filme “Que Horas Ela Volta?” é uma obra bem vinda e bem feita.

Num enredo que lembra Teorema, de Pier Paolo Pasolini, o filme narra mudanças e questionamentos que ocorrem numa família da elite paulistana, quando aparece uma personagem, Jéssica (Camila Márdila), capaz de questionar os papéis sociais herdados do mundo de Casa Grande & Senzala.

Obra de referência do cinema de 1968, no filme de Pasolini a liberdade sexual do personagem principal, encarnado por Terence Stamp, servia como elemento de crítica à sociedade burguesa, sua hipocrisia e futilidade. Sua presença modificava os horizontes de cada membro da família que o recebia como visitante.

Com várias referências que situam a história na segunda década do Brasil do século XXI, a obra de Ana Muylaert fala de luta de classes dentro de casa, em toda sua crueldade, esquemas de poder e mesquinharias. Não busca fazer graça nem embelezar a realidade. Seu assunto não é salário nem benefícios, mas cidadania, liberdade, dignidade.

Corajoso “Que horas ela volta?” mostra a dificuldade de uma família bem estabelecida – típica representante dos 0,05% do topo da pirâmide social brasileira — em assegurar um espaço decente a uma personagem que, filha da empregada (Regina Casé), não aceita viver nem comportar-se como pessoa subalterna. Em nenhum momento o filme se torna escandaloso, embora seja capaz de mostrar até detalhes sórdidos — como a marca de sorvete destinada a cada classe social — no interior de uma mesma casa. Os donos da casa sobrevivem com as delícias do rentismo, onde ninguém tem responsabilidade reais. O pai não precisa trabalhar porque vive de rendas. O filho é um pós-adolescente crescido, que procura a antiga babá para dormir — literalmente — nas noites em que o sono faz falta. Sua mãe faz o papel de guardiã da tradição, família e propriedade.

O filme fala de sentimentos desenvolvidos entre patrões e empregados. Há situações de afeto real e sincero, mas também desprezo, insegurança — sempre num horizonte onde a dominação bruta é corretamente descrita como parte inevitável do convívio entre seres humanos hierarquizados. Ana Muylaert mostra relações que parecem relações afetivas, mas são relações de trabalho, ainda que mascaradas por sentimentos e emoções. Num sinal de que algo mudou na vida de quem está embaixo, Jéssica fez cursinho para o vestibular, onde teve aulas com um professor “crítico”. Formou uma consciência que lhe permite enxergar aquilo que ninguém quer ou não consegue ver.

O final é relativamente otimista, mas sem perder o senso de realidade. Mostra personagens capazes de reconhecer o que é mais importante em suas vidas e a partir daí modificar seu destino.

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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