Fotografias da Maré

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Tenho dito aqui sempre que posso que o “fazer arte” só é possível se houver uma sintonia com a realidade do autor e ao elaborar essa arte, ao olhar o mundo que o cerca nasce uma critica que ajuda a entender o mundo. Nada diferente do que os gregos no seu auge faziam. Criaram deuses e semideuses com paixões humanas para entender os humanos e o mundo.
É o caso do projeto Mão na Lata onde a fotografa Tatiana Altberg ensina o usuário de crack da Maré no Rio de Janeiro. Se é possível ver arte feito pelos internos do manicômio ou de artes que surtam por que não os usuários de crack.
Que realidades eles nos apresentam? Seria um mundo cruel sem esperança em que vivem ou uma realidade menos sofrida que a droga proporciona? Em fim, é uma exposição que vale a pena pra ver e se emocionar, ou não. Busco ajuda a matéria que saiu no site 247 escrita por Rosilene Miliotte.
A fotógrafa Tatiana Altberg, coordenadora do projeto Mão na Lata – que ensina a fazer fotografias com pinhole (máquinas fotográficas rústicas feitas com latas usadas), começou a trabalhar com os usuários de crack da Cena de Consumo da rua Flávia Farnese (CCFF), na Maré. O resultado do trabalho foi a exposição “Anotações sobre uma aproximação”, apresentada inicialmente no Centro de Artes da Maré e agora na própria CCFF.

Por Rosilene Miliotti, para a Redes da Maré

“Anotações sobre uma aproximação”
No dia 28 de agosto, a exposição “Anotações sobre uma aproximação”, apresentada no Centro de Artes da Maré, ganhou um novo lugar, a própria Cena de Consumo da Flávia Farnese (CCFF), também conhecida como Cracolândia da Maré. Um dos objetivos dos encontros fotográficos, dos quais resultaram estas fotografias, foi um pretexto para a aproximação com os moradores da CCFF na tentativa de entender o perfil e as demandas destas pessoas.

A fotógrafa Tatiana Altberg, coordenadora do projeto Mão na Lata e responsável pela atividade, montou um varal com as fotos produzidas com ajuda do Léo*, usuário de crack morador da CCFF. “Os encontros e as fotografias em pinholeforam feitos na CCFF, onde eu fiz alguns retratos deles e sugeri que eles também fizessem uma fotografia. Mas todas às vezes eles encontravam dificuldade em criar e perguntavam ‘o que eu vou fotografar?’. Sugeri então que eles fizessem a foto de algo que eles achassem que fosse importante. E eles sempre respondiam ‘o que é importante pra mim não está aqui’. Glaucia*, por exemplo, foi a primeira que fez a foto. Ela encontrou um tratorzinho de brinquedo e fez a foto para simbolizar o filho dela”, conta.

Para Léo*, o trabalho foi ótimo. “Esse tipo de atividade nos ajuda bastante porque nós precisamos de tudo. A fotografia pinhole é diferente, mas não estranhei e nós precisamos de coisas diferentes para ocupar a mente, para viajar em outra coisa a não ser só o que a gente pensa, faz e vive”, explica.

“Aqui a gente aprende e ensina porque ninguém sabe tudo. Quando a gente para pra fazer a fotografia, é um momento de reflexão”, lembra Léo que já foi ao teatro, espetáculo de dança e participou da oficina Gabiarra Tech, no Bela Maré,uma imersão em cultura maker, trabalhando a apropriação de novas tecnologias para a construção de novas possibilidades.

Para Tatiana esse trabalho é o inicio de uma aproximação com essa comunidade. “O trabalho foi positivo, mas não foi fácil. Quando a gente chega aqui, cada um está num momento. Às vezes eles estão alheios ao que está acontecendo em volta ou com muito sono. Não é uma aproximação fácil, principalmente com a fotografia, porque a gente chega aqui e propõe uma ação, não é só uma conversa. Mas queremos fazer com que eles reflitam sobre o próprio contexto. Olhar, a partir de uma câmera, ter uma reflexão sobre o momento da vida deles”, conclui.

Após a exposição, cada autor pegou sua foto e levou para casa.

*Nomes fictícios

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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