Crise cambial ou ajuste?

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Se a psicologia comportamental necessitava de um laboratório amplo e efetivo para evoluir seus estudos e pesquisas, os acontecimentos recentes no mercado financeiro brasileiro estão lhe dando uma oportunidade fantástica.

Uma das grandes contribuições da economia comportamental foi identificar as limitações cognitivas do ser humano na tomada de decisões, os chamados erros de comportamento, que prejudicam avaliações racionais.

O professor Herbert Alexander Simon, que recebeu o Nobel de Economia por sua pesquisa precursora no processo de tomada de decisões dentro de organizações econômicas, desenvolveu o Modelo da Racionalidade Limitada para apontar as limitações cognitivas do ser humano na tomada de decisões.

Dentre os vários processos que provocam erros de avaliações vou abordar aquele mais relevante para compreendermos melhor a recente desvalorização cambial no Brasil, a chamada “perseverança ou validação ilusória”. Nele os analistas geralmente relutam em buscar informações que contradigam suas crenças formadas previamente, se tornam céticos quanto às evidências que enfraquecem suas opiniões, buscam dados para corroborarem seus cenários, só falam com analistas que pensam da mesma maneira e só validam reportagens que apoiem suas projeções.

Desde quando a presidente Dilma assumiu o seu segundo mandato e trocou quase toda a equipe econômica delineou-se que a necessidade de um ajuste e as mudanças necessárias se faria de forma diferente da que vinha sendo feita até o termino do primeiro mandato.

Quando me perguntaram em uma entrevista na Broadcast no início do ano, dia 13/03/2015, sobre a desvalorização cambial que já vinha ocorrendo, dei a seguinte avaliação: O economista do Corecon, Waldir Kiel, avalia que com o mercado externo ajudando na alta, o governo só assiste a escalada do dólar sem intervir, porque e conveniente à nova política econômica do governo Dilma.

Segundo ele, a subida do dólar ocorre com entrada de capital, e não com fuga, o que reforça que a alta convém à nova estratégia macroeconômica, que esta ancorada em um dólar mais forte, na elevação da Selic para conter a inflação e no ajuste fiscal das contas públicas visando atingir um superávit primário de 1,2% do PIB neste ano e estimular o crescimento da economia interna.

No mesmo mês de março quando argumentei em meu facebook que o chamado risco Brasil não correspondia a uma crise e sim a uma desvalorização pretendida, fui questionado por um grande trader do mercado financeiro e respondi dessa forma: Fulano, importante é saber que o dólar e os juros não estão subindo em virtude de uma crise e sim da mudança na equipe econômica e por consequência nos rumos que vinham sendo tomados. Quem se deu conta que se tratava de uma reversão de ciclo, ao menos no médio prazo, viu que a nova política está voltada para três itens basicamente: ajuste fiscal, juros altos e correção cambial. Quando a maioria desses economistas de mercado perceber o fato, virá o overshooting, ai vai ser a hora de vender o dólar à vontade e dar os juros. Enfiar o pé na jaca.

Oportunamente escreverei minha avaliação sobre os benefícios dessa enorme depreciação do real para o reequilíbrio das contas externas e a retomada do crescimento econômico brasileiro.

Retomando a “perseverança ou validação ilusória”, desde que o Brasil entrou em uma guerra política sem fim que a imensa maioria dos acontecimentos econômicos, passou a ser avaliada de forma exclusivamente política, não dando a devida importância a algumas medidas que já estavam e estão em curso. A desvalorização cambial, de certo uma das mais relevantes, passou a ser tratada como uma crise cambial.

Mesmo diante de tantas evidências, como a entrada e não saída de divisas (fluxo cambial), o nível de US$ 370 bilhões de reservas e as atuações do Banco Central como o objetivo sempre reiterado de dirimir a volatilidade e não objetivar preço, os argumentos para a alta passaram a se justificar por uma crise. Quando a justificativa política não convence a subida na taxa de juros americana passa a ser vista como um desastre econômico que vem mais a frente.

Importante lembrar que grande parte dessa reserva de US$ 370 bilhões foi formada com a chamada “Guerra Cambial” onde o afrouxamento monetário americano e de outros países como o Japão provocaram uma excessiva desvalorização do dólar perante as demais moedas e por consequência um desaquecimento econômico nos demais países. Mesmo com as compras maciças do Banco Central a moeda norte americana chegou a ser cotada próxima de R$ 1,50. O reverso está ocorrendo agora com a valorização do dólar pelo mundo.

A despeito de a desvalorização ser uma estratégia da equipe econômica a motivação que potencializou a volatilidade e desconstruiu as analises racionais tiveram contribuição decisiva por parte da autoridade monetária.  A falha de comunicação e a passividade operacional, aliadas a um mercado cada dia mais concentrado nas mãos de poucos players permitem que se suba a cotação do ativo através das operações derivativas.

De longa data que os ativos deixaram de formar preços, principalmente no mercado de juros onde os títulos públicos não possuem mercado secundário suficiente para precificarem a curva de juros. O rabo balança o cachorro!

A entrevista do presidente do Banco Central Alexandre Tombini, quando questionado sobre a possibilidade de usar as reservas internacionais para intervir no câmbio, ele afirmou que “todos os instrumentos estão à disposição do BC foi suficiente para evidenciar aquilo que é sabido”. Não existem compradores finais de dólares para remessa. A cotação despencou, em parte justificando o fato de o Banco Central ainda não ter se utilizado deste instrumento que poderia causar uma queda muito forte e prejudicar o ajuste cambial dentro da avaliação que a equipe deve estar fazendo.

Independente do movimento ocorrido é fundamental que o BC tome as rédeas do mercado e cumpra o seu papel de autoridade monetária. Se na mesma entrevista Tombini salientou que o mercado não determina a taxa básica de juros também não pode comandar a taxa de câmbio em um país com US$ 370 bilhões de reservas e com fluxo cambial positivo.

Não vivemos uma crise cambial e sim um ajuste!

 

Segue uma excelente avaliação de nosso colunista Richard Rytenband no Jornal da Record News

O saudoso Sr. Waldemar Andrade costumava usar a seguinte frase: “Avaliações financeiras são como um passarinho verde em uma árvore. Poucos conseguem ver o passarinho, maioria só consegue ver a árvore, muitos nem a árvore conseguem enxergar”

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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2 thoughts on “Crise cambial ou ajuste?

  1. Excelente texto. Exibe um ponto de vista que faz todo sentido e que não eu tinha ouvido até agora. Por isso, parabéns pela ótima análise independente!

    Abs

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