A arte imita a vida?

larissa

A classe média que tem algum acesso a cultura acha que entende a vida e as necessidades da classe mais empobrecida da população. O acesso a cultura permite que pensem nisso. Por não entender esse universo tão afastado e recolhido na periferia são arrogantes em condenar os rolezinhos mesmo que esses sustentem o comercio dos shopping. Ficam horrorizados quando mulheres de chinelo, shorts sumaríssimo e bustiê, enfim de barriga de fora muitas vezes pronunciada caindo por cima da roupa enquanto que quem veste se sente maravilhosa. E por que não? É por isso que indico aqui excelente pauta do Brasil de Fato que levou três domésticas para assistir o filme “Que horas ela volta?” de Anna Muylaert e qual foi a reação. A reportagem é de Joana Tavares

A arte imita a vida?

Três empregadas domésticas relatam suas impressões sobre o filme “Que horas ela volta?”, indicação do Brasil à disputa do Oscar.
Por Joana Tavares, de Belo Horizonte (MG)

O filme “Que horas ela volta?” vem dando o que falar. Escolhido pelo Ministério da Cultura para disputar uma vaga no Oscar na categoria de melhor filme em língua estrangeira, o filme já foi visto por quase 150 mil pessoas no Brasil nas três semanas em que está em cartaz. As atrizes Regina Casé – que interpreta a doméstica Val – e Camila Márdila – que faz sua filha, Jéssica – foram premiadas em Sundance por suas atuações.

O filme chamou a atenção de críticos e público por tratar de um tema tão presente na realidade brasileira: a relação entre empregada doméstica, especialmente aquela que cuida das crianças, e seus patrões. O Brasil de Fato convidou três domésticas para dar suas impressões sobre o filme. Confira o que elas acharam.

“A sociedade tem de mudar”
Vera Lúcia Barbosa, 51 anos
Adorei esse filme, porque ele busca a realidade da gente. Eu fui babá, fui empregada doméstica, eu sempre trabalhei e dormi nas casas das patroas. Tem uns pontos ali da Regina [Casé] com a filha dela, que é muito parecido, parecido com a gente, com a nossa época, de uns anos trás. Porque hoje já está diferente. Acho que mudou. A Regina me lembrou, me lembra. Eu sou um pouco a Regina. Eu gosto dos meus patrões, amo, respeito, tenho carinho por eles, mas sempre sei meu cantinho, meu lugar. Não me considero diferente, nem menor que eles, mas sinto aquele respeito. Eu, no lugar da Regina, na situação com a filha, talvez eu faria a mesma coisa. O fato de sentar na mesa… não é porque eu não sei comer perto dos patrões. É porque desde o primeiro dia que eu entrei na casa das pessoas para trabalhar, me indicaram que teria que ser assim. ‘Você vai comer aqui na cozinha. O seu prato é esse. O seu talher, o seu copo é esse’. Então, não tinha essa de sentar na mesa com patrão. Hoje, em algumas casas em que trabalho, eu sento na mesa, mas fico muito sem graça. Muito sem jeito, porque lembro do primeiro dia. Eu tinha 14 anos quando comecei a trabalhar.

A Regina estava toda perdida com a filha, porque ela vive em outra época. A filha acha tudo aquilo muito estranho, a mãe não poder sentar na mesa pra comer, a mãe não poder entrar na piscina. Eu concordei com a Regina e concordei com a filha. Por que não? Porque a empregada não pode sentar, não pode comer junto? Por que não pode tomar um pouco de sorvete? O que tem de mais?

larissa2

Também entendi demais o carinho da Regina com aquele menino. Aquilo, gente, é verdade. A gente apega nos filhos dos patrões. A gente cuida como se fosse filho da gente. E muitas vezes, a gente não fica com o filho da gente. Igual eu. Eu passei minha vida trabalhando. Eu pouco fiquei com minha filha. Ela tem 19 anos e tem o mesmo nome da filha da minha patroa, Laura. Eu pouco fiquei com Maicón, que tem 22 anos. Mas fiquei mais com a Laura, então tenho aquele carinho com ela. Eu lembrei mesmo desse carinho.

Acho que nós temos sim um dom de gostar. A gente apega nas crianças, a gente gosta das crianças. Quando saí da casa da minha patroa, era como se eu estivesse deixando três filhos pra trás. E eu era solteira. Aí eu pedi para ir lá de vez em quando. De vez em quando eu saía do Gameleira e ia lá pra ver as meninas. Sentia falta. Eu chorava. E vinha pra ver elas. Não era pra pedir nada, era pra ver as meninas. Principalmente a Laura, que era mais apegada em mim. Os filhos das patroas apegam à gente também.

Essa situação está mudando muito, por causa da educação. Antigamente, a empregada trabalhava porque não tinha outra opção. Ia pra casa de família porque não tinha estudo. Porque vinha do interior e não tinha lugar pra morar. E o salário, a empregada doméstica não tinha. O patrão pagava o que queria, o básico. Hoje, não. Mudou muito. A maioria das pessoas estuda. Se tem uma empregada doméstica, você pode prestar atenção. Ela estuda, ela faz um curso. A cabeça é mais aberta. Hoje se ela perder o emprego, ela pode trabalhar num restaurante, numa lanchonete, montar um barzinho, porque ela tem um certo estudo. E antigamente a gente não tinha isso.

Mas o preconceito ainda existe. As pessoas precisam enxergar a empregada doméstica de um modo diferente. No filme aparece o preconceito, e ele ainda existe. Isso tem que mudar. Ainda existe preconceito. E a sociedade precisa superar esse preconceito.

Eu, por exemplo, fiz um curso de atendente de enfermagem, porque precisava só até quarta série. Cheguei a fazer o curso, mas não pude fazer o estágio, porque não tinha onde morar. Então eu tinha que dormir no emprego. Aí tive que abandonar o curso. Eu poderia hoje ser chefe de enfermagem, mas não tive condição. Mas esses jovens de hoje estão tipo a Jéssica. Eles têm estudo, eles fazem faculdade, têm mente aberta.

Ela veio do interior, mas ninguém nunca colocou limite pra ela. Porque ela estudou. Então ela sabe que a pessoa é igual. O patrão é igual ao empregado.

Essa política que teve de uns anos pra cá nos ajudou muito. Não só o direito da empregada. O direito do trabalhador em si. De um modo geral. Hoje um pedreiro tem respeito, o servente de pedreiro. Teve essa política que nos ajudou muito, nos valorizou. Hoje temos a cabeça aberta.

Eu trabalho, mas a minha filha estuda. Ela está entrando na faculdade, está em dúvida se vai fazer veterinária ou psicologia. Meu filho estuda administração. É meu sonho, que eles vão pra frente.

“Hoje a pessoa reivindica”
Eva Guilherme, 58 anos
Achei o filme legal. É como a vida mesmo. Nós começamos a trabalhar muito cedo, na nossa época era assim. Hoje muita coisa mudou. Mas antigamente era igual aquilo. Ela [Val, interpretada por Regina Casé] não tinha a filha dela, então ela cuidava do menino ali como se fosse dela. Enquanto ela pagava alguém pra cuidar da filha dela. E cuidou muito bem. Estudou, igual a mãe mandava. Ela mandava o dinheiro e falava: ‘minha filha tem que estudar’. Emocionei mais porque quando a menina chegou, o patrão queria a menina. Abuso. É isso que me emociona. Ele gostava muito da empregada, mas a filha ele queria levar pra cama. A menina podia ficar lá, desde que ela fosse deitar com ele.

Eu passei pouco tempo com meus filhos. Tenho três. Mas estava sempre junto. Desde que eu separei, eu sempre fiquei com meus filhos. Eu não saía, não passava a semana fora de casa. Foi muito difícil, mas eu estava ali, com eles.

Comecei a trabalhar com 11 anos. Mas foi tão cedo porque eu perdi a minha mãe e meus irmãos foram embora. Eu fiquei sozinha. E porque eu fiquei sozinha eu queria trabalhar, queria sair de casa. Por que o que eu ia ficar fazendo ? Meu pai e meu irmão mais velho levantava e saía pra trabalhar. E eu ficava naquela casa sozinha. Claro que eu tinha necessidade de trabalhar, mas não estava passando fome, nem nada. Mas não queria ficar sozinha, tinha medo. Aí fui trabalhar em casa de família. Acho estranho é as pessoas quererem aproveitar de você. Não quer só o empregado não, quer tudo.

Da época quando a gente era mais nova era assim como a Regina Casé fez. Hoje em dia mudou muito. Hoje as coisas são diferentes. Antigamente empregado tinha mesmo que conhecer o lugar dele, não tinha direito a nada, direito nenhum. Hoje a pessoa reivindica. Você vê que hoje tem menos empregada doméstica. E aí os patrões não tratam a gente do mesmo jeito mais não. Porque quem precisa, precisa mesmo. E reconhece os direitos. De dez anos pra cá, mudou bastante. Por exemplo, acho que ninguém mais dorme em emprego. Vocês conhecem alguém que ainda dorme em emprego? Eu não.

“Temos mais valor”
Angela Maria Ferreira Pereira, 66 anos
O filme me fez lembrar muitas coisas, dos lugares onde a gente trabalha. Aquela hora do sorvete mesmo. Às vezes tem uma coisa que os meninos gostam, e a gente deixa pra eles.

Mas nos lugares que eu passei, eu acho que quando me ofereceu, foi pra aceitar. Mas acho que a gente tem também que reconhecer o lugar da gente. Tem que ter um pouco de educação. A menina também estava muito exaltada, muito agitada. Mas aquele momento – muita coisa que oferece não é pra gente aceitar – pode até ter, mas acho que cada um tem que reconhecer seu lugar.
Acho que as patroas estão valorizando mais os empregados. Está tendo mais valor.

RESENHA
A classe operária vai à piscina: sobre os papeis e os espaços
Por Sílvia Alvarez
De patroas megeras e de empregadas heroínas nós brasileiros entendemos. Na história da dramaturgia televisiva esses papeis sempre estiverem presentes, funcionando como catarse coletiva – se não na vida real, pelo menos na novela extravasamos as doses diárias da opressão sofrida no mundo do trabalho quando a vilã rica se ferra ou a mocinha pobre finalmente conquista alguma coisa boa na vida.

larissa2_1
No filme de Anna Muylaert, Que horas ela volta?, essas personagens, nossas velhas conhecidas, voltam à cena. Bárbara (Karine Teles) é a patroa, mulher bem-sucedida, moradora do Morumbi, bairro rico de São Paulo, com marido e filho. Val (Regina Casé) é a empregada-faz-tudo, que desempenha funções de babá à cozinheira. Por diversos recursos de forma e conteúdo do filme, porém, saímos de nossas confortáveis posições de espectadores à espera da redenção da heroína (normalmente advinda de uma grande paixão) ou do castigo da vilã (que geralmente acaba em violência contra a mulher).

Nas sequências iniciais do filme, os enquadramentos nos fazem mergulhar no universo de Val. Inevitável o desconforto na poltrona do cinema. Acontece que o universo de Val é restrito. À Val, e a nós, espectadores, é negado o acesso à casa. Quando saímos da cozinha, é para transitar por um corredor que leva aos quartos da família, sempre com as portas fechadas. Passamos boa parte do tempo no quartinho onde vive Val ou no quintal – do lado de fora da piscina. Em um dos planos mais marcantes e recorrentes do filme, uma gélida parede branca de cozinha ocupa três quartos da tela do cinema, restando uma pequena fresta – a porta que dá acesso à sala. Dali, vemos somente a ponta da mesa de jantar onde a família se reúne toda noite.

Até que chega Jéssica (Camila Márdila), filha que Val deixou no nordeste para ir trabalhar em São Paulo. Quando a jovem é apresentada, é a primeira vez que temos acesso à reunião familiar do jantar. Na resposta da garota quando questionada sobre para qual curso pretende prestar o vestibular, surpresa: Arquitetura (eureka!). Jéssica chega não só para questionar os papeis impostos às empregadas domésticas, ela também questiona os espaços a elas designados. É quando Jéssica mostra a planta da casa para a mãe, por exemplo, que esta começa a se dar conta da contradição que é viver há 13 anos em um pequenino espaço no subsolo, outrora conhecido como senzala, em comparação com o restante da enorme casa.

Longe de parecer uma mocinha bem comportada, a adolescente sem paciência para a hipocrisia do “você é quase da família”, ocupa todos aqueles espaços que lhe é oferecido “por educação” pelos patrões (e os que lhe são negados também), para espanto de todos, inclusive de Val, que explica: a oferta só é feita pela certeza de que os empregados sabem “o seu lugar”. Geladeira, piscina, quarto de hóspedes, ateliê, universidade. Jéssica vai entrando, para incômodo da patroa, enquanto o espectador desprevenido se percebe achando a filha da empregada, que era pra ser do time das mocinhas, um tanto enxerida.

Longe dos clichês de novela, o clássico conflito patroa e empregada é retratado a partir de um micro-universo particular, uma casa no Morumbi, mas fala de e para muita gente. Tocando em questões que envolvem identidade de classe, gênero e migração, cutuca a classe média, da A à D, a velha e a “nova”.

Ao expor a persistência do passado de casa grande e senzala no Brasil neodesenvolvimentista, o filme mostra um país moderno, mas arcaico. A mensagem de esperança, personificada em Jéssica é: continuamos com os mesmo problemas estruturais de sempre, mas o sempre muda. Os papeis são ressignificados, os espaços ocupados. Algo mudou. Algo ainda pode mudar.

About

Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

View all posts by

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *