Rap e política

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Muitas das manifestações culturais precisam ser estudadas e uma delas sem duvida é o Rap. A academia tem instrumentos para avaliara esse fenômeno cultural. E foi o que fez Roberto Camargos, pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia e doutorando em história social pela mesma instituição. Ele lançou Rap e política- percepções da vida social brasileira que apresento a seguir com texto da editora Boitempo

“Foi nessa época que jovens oprimidos e sem opção fizeram de um movimento sua expressão”

–THAÍDE E DJ HUM, BRAVA GENTE

Rap e política traz as vivências sociais, culturais e políticas de quem faz e experimenta o rap em seu cotidiano.

Neste seu livro de estreia, Roberto Camargos se debruça sobre mais de 10 mil composições de temas variados, produzidas no país desde a década de 1990 até os dias de hoje, para introduzir o leitor a esse universo em expansão de intenso diálogo da música com a vida social, uma espécie de “raio-x do Brasil”. Camargos mostra o rap nacional – dos Racionais MC’s aos rappers maranhenses, goianos, baianos e de outros rincões brasileiros – como um fenômeno que supera a música feita para e pela indústria cultural, para se tornar uma forma ativa de engajamento social e resistência. As composições têm em comum a sua origem: experiências históricas e sociais de uma comunidade musical ainda hoje marginalizada.

“Interessado em observar o mundo ‘de baixo para cima’, e não dos mesmos lugares de poder de sempre, Roberto Camargos explica com sutileza por que é que o rap (entre outros vários gêneros musicais, digamos, populares) incomoda tanta gente, irrita tanta sensibilidade, exaspera tanto crítico musical e insulta tanto senso comum ‘de cima para baixo’ – mesmo hoje, 2015, depois de décadas de acúmulo histórico e de adventos fora-e-dentro da indústria cultural como os dos ícones pop Criolo e Emicida”,
– Pedro Alexandre Sanches, na orelha do livro

Tendo despontado nos Estados Unidos no fim da década de 1970, trazido por imigrantes jamaicanos, o rap se caracterizou como um gênero musical produzido por jovens pobres que buscavam uma forma de compartilhar suas vivências. Difundido por diversos meios de comunicação de massa, além de filmes e discos, chegou ao Brasil em meados dos anos 1980, quase simultaneamente em diversas cidades. De lá para cá, o gênero inicialmente visto sob o prisma da apropriação cultural foi totalmente convertido em modo de expressão e atuação política de setores da nossa sociedade.

Na pesquisa de Roberto Camargos, as músicas convertem-se em documentos por meio dos quais é possível pensar e refletir sobre uma época, desdobramento de uma postura que, no lugar de traçar uma história dos objetos e das práticas culturais, lança-se na direção de uma história cultural do social. O livro se divide em sete capítulos: “Duas ou três palavras sobre o rap”; “Diálogo com as críticas”; “A construção do sujeito engajado”; “Política e cotidiano”; “Tribunal da opinião”; “Representações, experiências, verdades” e “Poéticas do vivido”.

Superando o questionamento raso sobre a legitimidade do rap e do hip hop enquanto manifestações culturais, Rap e política se concentra no amálgama de visões, sentimentos e concepções de mundo articulados por vários sujeitos sociais em um trabalho de refiguração da experiência. “O que me chama a atenção é o modo como o rap modificou o cotidiano de jovens brasileiros, que passaram a se interessar por essa linguagem e a dialogar com ela”, destaca o pesquisador. “Por meio do rap e de seus interlocutores – pessoas comuns e trabalhadores –, ganha corpo uma intrigante interface entre história, cultura, sociedade, protesto social e vida cotidiana”.

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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