Nina Simone

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Para uma geração como a minha que via em John Coltrane, Bob Dylan, Janis Joplin, Joan Baes e outros tantos exemplos de uma aguerrida luta contra o preconceito e a busca de liberdade, Nina Simone sempre foi uma incógnita. What happened, Miss Simone? Produzido pelo Netflix, dirigido por Liz Garbus joga luz sobre essa mulher.

What happened, Miss Simone? Foi exibido na abertura do Festival de Sundance, no Festival de Berlim e no brasileiro É Tudo Verdade. Era um ano em que o mundo lutava por liberdade e justiça. Se lutava contra as ditaduras, contra a guerra do Vietnã, e pelos direitos civis dos negros americanos.

Uma menina negra que desde criança queria tocar musicas de concerto como Bach, Debusy e outros importantes compositores foi recusada por uma escola de musica por ser negra apesar de seu reconhecido talento.

Teve sorte, e provavelmente outras Nina Simone não conseguiram como ela ter acesso a uma educação musical. Uma luta contra o preconceito que apesar da luta se faz presente hoje no mundo. Uma Europa xenófoba cheia de preconceito contra imigrantes que aportam por lá em busca de uma melhor condição de vida. Ou como no Brasil onde cresce uma campanha contra negros, nordestinos e homossexuais.

O texto abaixo do Kauê Vieira, no Afreaka encontrado por mim no site Outras Palavras dá o tom do filme.

Nina Simone e a música como expressão dos direitos civis

No rastro do documentário “What happened, Miss Simone”, vale refletir sobre vida, música e lutas da compositora negra que dizia: “É obrigação artística refletir meu tempo”

Por Kauê Vieira, no Afreaka

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os fatos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais cotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategistas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades.

De ambos os sexos, ativistas famosos e anônimos faziam uso de variados instrumentos culturais para reunir as pessoas e discutir a importância do orgulho negro. O discurso estava presente no teatro com o espetáculo “To Be Young Gifted and Black” – peça de Lorraine Hansberry que falava de racismo, igualdade social e de gênero; em reuniões nas igrejas gospel da comunidade; na literatura e retórica dos envolventes discursos de Martin Luther King, Malcolm X e Rosa Parks e na música, principalmente na obra de Nina Simone.

Nina Simone estava determinada em usar a música em prol dos negros.

Nascida em 1933, na Carolina do Norte, estado do sudoeste do país e fronteira com alguns dos pontos nevrálgicos dos conflitos raciais, Eunice Waymon, nome de nascimento da artista, sofreu desde pequena os males do racismo. Contudo, desde os primeiros contatos com as teclas de um piano, colocou na cabeça que seria a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos e foi em busca do sonho. O tempo passou e já atendendo pelo nome de Nina Simone, a jovem conquistou o público com um estilo que unia jazz, blues, música clássica e gospel. Em função de canções como ‘I Loves You Porgy’, Nina, mulher e negra, era disputada por importantes casas de show conhecidas pela predominância branca, como o Town Hall em Nova Iorque.

O sucesso da cantora crescia em compasso com os conflitos raciais. Muitos foram os estopins para a fúria dos negros, sendo o massacre de 1963 um dos mais marcantes, quando quatro crianças negras foram mortas em um atentado racista em uma igreja batista na cidade de Birmingham, no Alabama, logo após o assassinato do ativista Medgar Ever no Mississippi. Os fatos despertaram um sentimento novo em Simone, que percebeu o significado de ser negra nos Estados Unidos. Um momento crucial para a carreia da cantora, que resolveu transformar sua arte em política, se tornando um símbolo de expressão dos direitos civis e da luta do movimento negro.

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Ao perceber o que era ser negra nos EUA, Simone decidiu se tornar uma ativista dos direitos civis.

O primeiro e duro recado da artista para as injustiças do país veio com ‘Mississippi Goddam’ (Mississippi puta que o pariu na tradução livre), que expressa toda sua raiva e indignação acerca da situação dos homens e mulheres negros dos EUA. A faixa era um hino político e suas letras cheias de raiva e desespero contrastavam com o conhecido repertório da artista e deixavam claro o objetivo de Simone de usar sua música como mais um instrumento em favor dos direitos civis.

Determinada, Simone seguiu mergulhada em um momento considerado decisivo para a comunidade negra e continuou dedicando toda a sua produção musical para o assunto. Em 1968, o movimento dos direitos civis sofreu outro duro golpe, a morte de um de seus principais líderes, Martin Luther King, morto aos tiros em 4 de abril de 1968. O fato mexeu muito com Sinome que mais uma vez recorreu ao talento musical para expressar seus sentimentos e escreveu a canção ‘Why? The King of Love is Dead’ (Por que? O Rei do amor está morto na tradução livre), cantada por ela três dias depois em uma performance emocionante no enterro de Doctor King.

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No ano seguinte Simone, grande amiga da escritora Lorraine Hansberry, gravou um dos hinos dos direitos civis, ‘To Young Gifted and Black’, homenagem ao trabalho da amiga, conhecida por usar a arte como ativismo em prol dos negros e também por despertar a consciência política de Nina. No entanto, a guinada política de Nina não trouxe apenas benefícios para a cantora, que passou a ser negligenciada e evitada pelas casas de músicas, gravadoras e parte do público, que evitavam se envolver diretamente com a causa. Esgotada com a violência dos conflitos e com a rejeição imposta por uma cultura ainda racista, Nina Simone resolveu se afastar dos holofotes e deixou os Estados Unidos em 1970. Morou em Barbados, e em seguida passou um longo período na Libéria, depois Suíça, Holanda e França, onde acabou fixando residência.

O movimento dos direitos civis deixou feridas profundas na sociedade norte-americana ao mesmo tempo que inspirou e inspira jovens dispostos até hoje a mudar a realidade de homens e mulheres negros. Tal como antes, as artes e especialmente a música vem exercendo papel fundamental nas mudanças. Nomes como Erykah Badu, Lauryn Hill e muitos outros beberam na fonte e seguiram os corajosos passos de Nina Simone em busca de uma sociedade que precisa aprender de uma vez por todas a conviver com as diferenças. Nina Simone faleceu em 2003 deixando um legado ímpar para o mundo da arte e emblemático para a luta pelos direitos civis e igualdade racial.

 

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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