Nina Simone – 02

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Na semana passada postei um texto sobre o filme “What happened, Miss Simone”?, sobre a cantora Nina Simone e neste final de semana li esse texto abaixo no facebook da minha amiga Adyel, cantora e atriz e percebi que engoli gato por lebre e por isso divido com vocês essa critica ao filme.

“What happened, Miss Simone?” é um insulto à memória de Nina Simone
Ok, o documentário não é um lançamento, foi lançado há dois meses pelo canal NetFlix… na verdade este texto não seria escrito, pois, na primeira vez em que assisti a este documentário não conseguia nem opinar sobre, de tão ruim, na verdade, “What happened, Miss Simone?” é um insulto à memória de Nina Simone:

1 – um dos principais fatos de ojeriza para com este documentário é o fato de que, o ex-companheiro e produtor de Nina Simone, Andy, é um dos principais entrevistados do filme e tido como aquele que foi responsável pelo sucesso de Nina Simone. Porém, o fato de que ele espancava sistematicamente Simone não é um problema para os realizadores. O fato de que ela foi internada três vezes por conta de surras levadas, também não é um problema. E, pasmem o filme ainda insinua que ela gostava de apanhar!

A simples pergunta: por que você espancava Nina Simone não é feita;
2 – o contato de Nina Simone com os revolucionários norte-americanos, no caso, com as ativistas do coletivo Panteras Negras foi paradigmático em sua vida. Simone fez da sua canção uma arma, como ela mesma vai afirmar. A partir daí ela passa a sofrer um boicote sistemático da indústria cultural norte-americana. Mas, para o documentário isso não foi uma questão política, mas que, se os shows de Nina Simone foram cancelados a culpa era… Da Nina Simone!

3 – A partida para Libéria. A tomada de consciência de Nina Simone e o seu entendimento de que a democracia racial era uma farsa é outro momento de suma importância em sua vida. Daí que ela decide partir pra Libéria e deixa para trás a indústria, se liberta do marido que a espancava e explorava e vai viver em um país fundado por escravos. Mais uma vez isto não é tratado como uma opção política, mas como um ato de uma pessoa excêntrica (no sentido pejorativo deste termo) e mimada.

4 – uma péssima mãe. Não bastasse se retratada como uma péssima companheira, o documentário também a retrata como uma péssima mãe e para isso se utiliza da filha, Liza Simone. Fica claro que ela e a mãe tinham problemas e que não foram resolvidos. A maneira como o filme pesa a mão nesta história e alivia o fato de que Nina Simone era espancada pelo companheiro diz muito, ou melhor, diz tudo sobre este “documentário”. Ainda mais quando utilizam a seguinte fala de sua filha: “de espancada passou a espancadora”.

Ao meu entender, estes quatro aspectos são os piores e que gritam no documentário, mas, ainda há tantos outros problemas nesta produção. Para se ter uma ideia o nome “Panteras Negras” não é citado, sendo que, aparecem várias fotos das ativistas com o punho cerrado, imagem clássica do movimento. Mas isso não é dito.

Por fim, e as coisas sempre podem piorar, após dois anos vivendo na Libéria, Nina Simone começa a ter problemas financeiros e decide que é hora de voltar a cantar, mas, ela não volta pros EUA, aliás, ela nunca mais volta para sua terra natal. E mais uma vez, pra fechar com chave de ouro, estes atos finais de Nina Simone são atrelados a um problema de bipolaridade e só um remédio cavalar a salvaria…

Nina Simone não merecia tal insulto à sua memória. Numa época (1960/70) de extremado conservadorismo e de perseguição política aos movimentos de esquerda, ela deu a cara a tapa e se tornou uma porta-voz do movimento negro e das teses revolucionárias. Pagou um preço altíssimo, mas para a obra em questão isto não foi uma questão, a culpa foi da Simone.

Após o término do documentário entendemos também o seu título: “O que aconteceu, Miss Simone?”, para o filme há algumas respostas: você perdeu a cabeça? Enlouqueceu? E por aí abaixo… isso pode ser conferido nas fotos que são selecionadas para representar a fase final da cantora.

Nina Simone ainda há de ganhar um documentário a sua altura. Sobre este, assistam, mas para entender como não se deve fazer.

 

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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