Desinformação econômica só confunde o cidadão

confuso

O jornalismo brasileiro hoje atravessa uma crise que não é só consequência do avanço nas fontes de comunicações como a internet, mas também de uma baixa qualidade de conteúdo e de informações que são passadas para o público em geral.

O Jornal Brasil Econômico, de origem portuguesa, que chegou ao Brasil em outubro de 2009 com o objetivo de abocanhar uma fatia de um mercado, basicamente concentrado em um só jornal de edição impressa especializada em economia, anunciou nesta sexta feira 17/07 que irá encerrar sua edição impressa.  O motivo alegado foi que a publicação foi atingida pela desaceleração econômica e por consequência retração nos investimentos publicitários.

O argumento de desaceleração econômica já seria injustificável visto que o jornal ingressou no Brasil logo após a grande crise global de 2008, quando as expectativas de uma recuperação econômica em todo o mundo eram sombrias. O que de fato não conseguem admitir é que desde seu lançamento as vendas foram fracas e suas pautas jornalísticas, por baixo investimento em qualidade, caíram na mesmice da falta de conteúdo que se alastra por toda mídia econômica brasileira. O repasse de notícias de fontes duvidosas e de conhecimento questionável.

A sistemática atual da disseminação de uma notícia econômica hoje é feito da seguinte forma: um jornalista de um determinado veículo liga para uma instituição financeira para avaliar determinado movimento em um ativo/derivativo financeiro ou para saber da opinião do entrevistado sobre o futuro comportamento dos mercados, a primeira pessoa que atende ao telefone é questionada e emite sua opinião, essa opinião é publicada e a seguir os outros veículos de informação compilam o fato e ele se espalha por toda a web e para as redações dos jornais impressos publicarem no dia seguinte.

Ocorre que, com raras exceções, tanto o jornalista como o entrevistado não são especialistas muito menos familiarizados no assunto e para dar ares de credibilidade, as fontes ora são anônimas, outras são qualificadas como “avaliação de especialista”.

A verdade é que quem tem de fato poder de interferir diretamente no comportamento dos mercados não costumam se pronunciar ou se assim o fazem é em defesa de seus interesses.

É fato notório que a crise no setor jornalístico acabou direcionando muitos profissionais que não são especialistas em determinadas áreas para outras, as quais, não foram preparadas o suficiente para produzirem uma pauta de avaliação mais criteriosa e elaborada que contribua para o debate econômico e para uma avaliação isenta e mais técnica sobre o tema abordado. Sem contar que a chamada “contenção de custos e investimentos” arrebanhou alguns jornalistas sem a expertise devida para pautar determinados assuntos.

Mais importante que produzir é divulgar a matéria, bastando apenas citar a fonte que a originou.

Ontem aconteceu um fato que evidencia a forma como a desinformação financeira se propaga e como ela acaba se tronando uma notícia “verdadeira” até mesmo, por muitos profissionais que fazem parte do mercado financeiro.

No período da tarde a cotação do dólar frente ao real vinha recuando, quando em pouco tempo passou a subir e atingir quase 1% de alta para fechar com 0,70%, como de costume jornalistas passam a buscar os motivos dessa reviravolta. Uma conceituada agência de notícias entrevistou alguém no mercado e divulgou a seguinte notícia que logo se espalhou para todas as outras agências e redações dos jornais: “Dólar sobe após MPF abrir investigação sobre Lula”

Como sempre acontece virou quase uma verdade e muitos não se deram conta que o fato econômico que permitiu essa reviravolta na verdade foi o anuncio por parte do Tesouro Nacional da recompra dos bônus brasileiros emitidos em dólares com vencimento para 2040, o que na prática é um pagamento a ser feito de US$ 1,156 bi, aos detentores dos títulos.

Este foi só um exemplo marcante de como a desinformação financeira acaba se propagando por diversas vezes dentro do noticiário econômico no Brasil.

Ora, se assim são avaliados algumas notícias e expectativas dentro do ambiente financeiro, que teoricamente é dominado por especialistas, pobre coitado do cidadão comum que não participa deste meio que as recebe acreditando tratar-se de matérias abalizadas.

Outro dia vi uma frase que retrata a crise de credibilidade que passa hoje o nosso jornalismo: “Meu pai já dizia: basta-me a notícia a opinião sempre será a minha”

 

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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