A musica como manifestação popular

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A musica brasileira sempre serviu pra criticar o poder, expor seus males e fazer uma critica social. É através da musica, ou de outras manifestações populares, que o povo se vinga de certa maneira. Temos sambas que contam que no Rio “de dia falta água de noite falta luz”. Ou rap que diz “Só quero ser feliz, viver tranquilamente na favela onde nasci”. Seja Rap ou samba o jornalista Franklin Martins, que cobre política, fez um inventário dessas musicas e sua ligação com o poder desde o fim do século 19 até os nossos dias. É uma boa leitura para o fim de semana para quem gosta. Reproduzo o texto de Paulo Donizetti da Rede Brasil Atual.

Franklin Martins conta história do Brasil traduzida pela música

Projeto ‘Quem foi que inventou o Brasil?’ compila de Arthur Azevedo ao rap de Gog e ao funk, e mais de mil obras da música popular que contam o que houve por aqui do final do século 19 ao início do 21, por Paulo Donizetti – Rede Brasil Atual

 

Martins e o resultado de 18 anos de pesquisa

São Paulo – “Por que pobre pesa plástico, papel, papelão/ Pelo pingado, pela passagem, pelo pão?/ Por que proliferam pragas, pestes pelo país?/ Por que, presidente?” O trecho é de Brasil com P, escrita pelo rapper Gog em 2000. Assim como essas duas dezenas de palavras, as outras 500 dessa canção começam todas com a mesma letra, de preto, pobre, prostituta. O rap é uma das mais de 1.100 obras destacadas na trilogia Quem foi que inventou o Brasil? Que o jornalista Franklin Martins lança nesta segunda-feira (22) em São Paulo. Serão três volumes contando, com relatos, letras e muitas imagens, o poder da música popular de descrever a história da República no exato momento em que ela está acontecendo.

Os dois primeiros volumes serão apresentados nesta segunda. O primeiro recupera um acervo precioso da história musical brasileira dos primeiro anos da República ao golpe de 1964; o segundo vai daí a 1985. O terceiro, que conta o período da redemocratização até 2002, deve ficar pronto em agosto. A pesquisa, segundo Franklin, começou há 18 anos, “primeiro como hobby, depois virou cachaça, até se transformar nesses livros”. O trabalho conta com uma primorosa pesquisa iconográfica coordenada por Vladimir Sacchetta e que inspirou também a construção de um portal homônimo na internet. Para expandir o acesso do público a essa garimpagem sonora e visual, rendeu ainda uma exposição que foi aberta neste fim de semana, no Instituto Tomie Ohtake, onde fica até o início de agosto.

O título Quem foi que inventou o Brasil? É inspirado numa marchinha de Lamartine Babo. Para o autor, poucos países do mundo têm a produção musical tão fortemente associada a uma narrativa política e social cotidiana como as marchas, sambas, rapse até o rock do Brasil. “Seja como protesto ou como sátira, como humor ou crônica, deboche ou contestação. Queria também que as pessoas ouvissem trechos de discursos, até para conhecer a voz de políticos como Getúlio Vargas, JK, Carlos Lacerda, por exemplo,”, conta o jornalista.

A escolha das músicas levou em conta a relação imediata com os fatos que retratavam. Uma das mais significativas do início da República, por exemplo, traz uma letra do dramaturgo Arthur Azevedo, As Laranjas de Sabina, sobre um protesto contra a retirada da ambulante, negra, que vendia as frutas diante da Academia de Medicina, no Rio de Janeiro: “Sou a Sabina, sou encontrada/ todos os dias lá na calçada/ lá na calçada da Academia/ da Academia de Medicina? Um senhor subdelegado? moço muito resingueiro? Ai, mandou, por dois soldados/ retirar meu tabuleiro, ai (…) Os rapazes arranjaram/ uma grande passeata/ Deste modo provaram/ como o ridículo mata (como gostam da mulata)”.

Franklin traz a associação de letras com política ou com a cena social em quase todos os ritmos. “A música caipira tem uma expressão muito forte em várias épocas. E curiosamente a Bossa Nova, movimento que influenciaria quase todas as gerações de músicos e compositores surgidos depois dela, praticamente não saía da toada ‘o amor, o sorriso e a flor’, talvez por ter se restringido a um período muito efêmero, entre o final dos anos 50 e o início dos 60. Alguns de seus quadros, como Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Sérgio Ricardo, Nara Leão é que acabariam conduzindo depois a bossa para os temas mais políticos e populares.”

Para o autor, ao final de mais de cem anos de música e realidade, o século 20 terminou encontrando nos guetos – no rap, no funk, no samba-reggae, no manguebeat – a voz que mais bem retrata o momento político e social. A própria Brasil com P, que Franklin Martins destaca como de grande importância, ao lado da simplicidade do funk Eu Só Quero é Ser Feliz, foi inspirada em um outro rap, Poder Para o Povo Preto, mas que tinha no meio da frase o artigo “o” para incomodar, como contou certa vez Gog em uma entrevista: “Poder Para o Povo Preto… Essa frase, imortalizada no hip hop brasileiro pelo parceiro KL Jay, também me serviu de inspiração, já que a letra ‘o’ entre as palavras ‘para’ e ‘povo’ me incomodava. Eu ouvia maestros, cantores, críticos musicais dizendo que rap não é música, não tem poesia. Daí pensei: ‘Vou escrever algo sem vogais, conjunções, só com a letra ‘p’, e mais tem que ter sentido e expressão’. Foi desse desafio que nasceu a letra, mostrar que se sou o povo, posso ser o que quero”.

O trabalho de Franklin Martins compila tudo isso. De Arthur Azevedo ao rap de Gog e ao funk de Cidinho e Doca (Eu só quero é ser feliz), passando por tudo que a música popular tem para contar do Brasil de uma ponta a outra.

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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