Mercados futuros agropecuários

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Por que existem mercados futuros?

Na explicação clássica sobre a existência de mercados futuros, a aversão ao risco é tida como o fator essencial para sua existência (KEYNES, 1930 apud IRWIN, 1989). Nesta visão, produtores e comerciantes agropecuários avessos ao risco buscam proteção contra possíveis movimentos de preço desfavoráveis. Estes mercados, então, se desenvolvem no intuito de permitir ao primeiro grupo de participantes do mercado, aquele que busca proteção, transferir seus riscos a um segundo grupo, interessado justamente na oscilação dos preços dos contratos, uma vez que é da volatilidade que obtém ganhos especulativos. Chamamos os primeiros participantes de hedgers, e os segundos de especuladores.

 

Portanto, o mercado futuro agrícola é um ambiente de negociação, onde se busca de um lado a transferência de risco a outro agente, e do outro lado, ganhos especulativos proporcionais ao tamanho do risco assumido. Quem vende a futuro garante que pode receber pelo seu produto um determinado valor em uma data de vencimento, já combinados. Previne-se, desta forma, contra uma eventual desvalorização. Quem compra a futuro, garante que pode pagar, prevenindo-se, assim, contra disparadas de preços. A ideia é neutralizar se não todo, mas grande parte do risco de preço, decorrente da incerteza de como determinado preço se comportará em uma data futura.

 

Sempre associaremos o mercado futuro, em teoria, ao conceito de proteção de preço (hedge). Porém, os números de volumes de negociação desses mercados, assim como a profusão de participantes não relacionados às dinâmicas agropecuárias, evidenciam a grande maioria de participantes envolvidos na ponta da especulação. Estes participantes, os especuladores, cumprem papel fundamental na dinâmica dos mercados futuros, uma vez que garantem liquidez aos mercados, que é dado fundamental para a existência de negócio: é necessário que haja alguém interessado em comprar um contrato, a um determinado valor, ao mesmo tempo em que alguém queira vender, este mesmo contrato, neste mesmo valor. A presença abundante de especuladores garante com que o produtor rural, ao lançar seu contrato no mercado, encontre uma contraparte interessada na realização do negócio. São participantes diferentes, com expectativas distintas, em relação ao mesmo contrato, e formas completamente diversas de atuação no mercado.

 

História do mercado de futuros

Os fundamentos para a negociação de futuros e opções (contratos futuros passíveis de negociação) surgiram ainda na antiguidade. A preocupação com os elementos de risco e incerteza, presentes nas atividades econômicas, desde cedo estimularam a invenção de instrumentos, com características de futuros e opções, para lidar com essa situação. Para entender o mercado de futuros, portanto, é preciso voltar ao passado, no tempo em que os produtores visitavam as províncias para negociar alimentos e acertar com os produtores o recebimento dos produtos das safras seguintes, com preços garantidos ou não. Era uma prática vantajosa para ambas as partes e um instrumento que assegurava um comércio futuro. Os acordos eram particulares e não possuíam padrão preestabelecido. A fixação de locais para comercialização de produtos para a entrega no ato da negociação e para o fechamento de entrega futura já era feita em períodos anteriores a Roma e à Grécia antiga.

 

Evidentemente, no contexto medieval e mercantil europeu, várias das características dos contratos futuros atuais se manifestam em cidades da Europa. Amsterdã se destaca ao apresentá-las sob a forma de negociações em Bolsa, em meados do século XVII. Espalham-se para outras cidades e ganham significativa importância na Bolsa de Londres. Dalí migraram para os Estados Unidos, fortalecidas pela mentalidade e organização anglo-saxão.

 

As primeiras bolsas de mercadorias, no século XIX, eram essencialmente de mercados disponíveis. Hoje, a proteção contra os riscos financeiros implícitos na volatilidade de preços é o principal produto negociado nessas instituições. Por essa razão, as trocas de propriedade dos produtos tomam lugar no mercado de balcão, enquanto as bolsas se especializam na negociação dos contratos para liquidação em data futura.

 

Estima-se que os contratos futuros estiveram em uso na Chicago Board of Trade desde 1860. Desde então foram estabelecidos diversos procedimentos que possibilitaram o crescimento do volume de negociações em bolsa de futuros, como a formalização das práticas de comercialização, a padronização de contratos, as normas de conduta e os procedimentos de compensação e liquidação. Portanto o produto agropecuário negociado em bolsa de futuros hoje é altamente padronizado, caracterizando-se, enfim, como uma commodity (Schouchana e Perobelli, 2001).

 

Atualmente, a alma de qualquer bolsa de futuros são os complexos mercados de derivativos, em sua maioria, financeiros. Pela própria característica deste tipo de contrato, em que se exige apenas uma margem de garantia no momento de negociação, e não o preço cheio do contrato, tais instrumentos, os derivativos, proporcionam a negociação de volumes financeiros dezenas ou centenas de vezes superiores a produção real do país.

 

No Brasil existem atualmente, 30 bolsas de mercadorias em atividade, segundo o site de agronegócios do Banco do Brasil. A BMSP (Bolsa de Mercadorias de São Paulo) foi a primeira bolsa com operações efetivas de mercados futuros. Criada em 1917, fez sua fusão operacional com a BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) em 1991. A BM&F iniciou suas atividades em 1986, e é hoje referencia para o mercado nacional, consolidada como a líder absoluta na negociação de contratos derivativos. No mercado internacional está entre as cinco maiores bolsas do mundo, demonstrando a evolução do mercado financeiro no Brasil.

 

Funções e características dos mercados futuros agropecuários

Os mercados futuros agropecuários desempenham várias funções, entre as quais destacamos:

  • Facilitar a administração de riscos;
  • Ajudar produtores a descobrirem preços para contratos a termo;
  • Servir como fonte de informações para tomada de decisões como plantar ou não, vender antecipado ou armazenar etc.

 

A existência de mercados futuros cria uma extensa rede de informações, o que ajuda muito na administração de riscos e tomada de decisões. Mercados futuros é um lugar onde a informação é produzida, interpretada, analisada e negociada, de forma que pode ser uma fonte muito rica de análise para participantes e não participantes do mercado. O conceito é de que os mercados futuros tornem os mercados físicos mais eficientes por proverem informações confiáveis sobre o comportamento futuro dos preços.

 

Mercados futuros é também uma extensão do mercado físico, e seu propósito é fazer os mercados físicos funcionarem melhor e com maior liquidez. Evoluem dos contratos a termo e evolvem tanto aqueles que necessitam de proteção como os que procuram simplesmente especular. O estreito relacionamento entre mercados físicos e futuros, tornou os mercados futuros um instrumento de descobrimento de preço para muitas commodities agropecuárias.

 

Todo produtor sabe dos riscos na lucratividade causados por variações de insumos e produtos. Em que tempo planejar, plantar, criar e executar um projeto, acaba envolvendo riscos e custos que tornam o produtor mais ou menos competitivo junto ao setor que participa. Os mercados futuros são uma possível alternativa para administrar riscos, estabilizando margens e lucros.

 

Mercados futuros seguem regras complexas impostas pelas bolsas e pelos órgãos reguladores. A maior parte dos negócios é liquidada mediante operações de reversão da operação inicial (comprado vende, vendido compra) e existe muito pouco ou quase nenhum movimento físico.

 

Toda operação é assegurada por uma margem de garantia exigida pela bolsa de futuro, visando dar maior garantia a quem opera. Assim todo produtor que ingressar nesse mercado deve ficar ciente que existe a exigência de um depósito garantidor para os contratos futuros que ele operar e que essa margem pode ser recuperada ou ter chamadas adicionais até o vencimento do contrato, de acordo com as variações que ocorrerem nos preços de mercado futuro enquanto estiver posicionado.

 

Importante observar que toda operação realizada em mercados futuros tem custos operacionais que devem ser levados em conta nas projeções de preços por parte do produtor. O custo diário de se carregar um contrato futuro agropecuário no Brasil pode ser muitas vezes superior à possibilidade de caixa do produtor, uma vez que o sistema de ajuste diário praticado pela BM&F exige que diariamente as posições em aberto sejam recalculadas, e a diferença financeira em relação ao dia anterior, em virtude da oscilação normal do mercado, seja ajustada ao contrato. Ou seja, caso o produtor venda um contrato futuro e tenha a intenção de carregar este contrato até seu vencimento, por exemplo, terá diariamente um desencaixe financeiro proporcional à direção do mercado em relação a sua posição. Caso os preços para aquele contrato subam, dia após dia, o produtor terá desencaixes financeiros proporcionais, reajustando sempre sua posição financeira ao ajuste diário praticado pelo mercado. Esta medida promove grande segurança aos mercados, já que no caso de default esse não passará de alguns dias (caso não tenha recursos para honrar o contrato, a Bolsa intervém imediatamente, no dia seguinte ao do esgotamento do limite de capital do negociador) e, portanto, não adquirirá uma proporção tão grande quanto teria caso fosse descoberto apenas no vencimento do contrato, meses adiante. Porém, em contrapartida, torna muito difícil a negociação desses contratos para o produtor que não dispõe de capital antecipado, pois deve antecipar privadamente o ajuste que só será efetivado na comercialização efetiva da produção real, após apuração da produção e qualidade da safra ou de seu gado.

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Economista e Palestrante. CEO do Portal Aviso em Dois e do Projeto Arrisque

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