Historia de Arcanjo

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Nesse final de semana assisti ao documentário Tim Lopes – Historia de Arcanjo. Dirigido por Guilherme Azevedo e com roteiro de Bruno Quintella, filho de Tim, “Histórias de Arcanjo” narra a trajetória do jornalista, morto por traficantes em 2002, na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, quando investigava o abuso de menores em bailes funk.

O documentário mostra o trabalho de Tim, sempre preocupado com questões sociais. Um filme que me fez pensar nos caminhos que o jornalismo tomou nas ultima décadas. O que sempre me fascinou no jornalismo foi a possibilidade de contar historias, revelar o lado humano nas situações mais dramáticas e nas situações mais felizes. Buscar a alma desses personagens reais.

Tim Lopes é o personagem desse tipo. Morou na rua pra fazer uma matéria sobre garotos abandonados, dormiu no IML- Inst. Medico Legal, foi operário, e outras tantas reportagem de qual vivenciou. Esse foi um bom momento do jornalismo. Hoje não, é o gabinete que manda.

Repórter nenhum hoje admite amassar barro na periferia. Prefere ser jornalista de gabinete onde trabalha com as informações oficiais de agrado dos chefes e de uma relação promiscua com o poder.  Hoje a verdade de uma noticia tem de ser corroborada por uma fala oficial. E sempre me lembro do caso da Escola Base. Não existe mais o garimpo, que é o termo usado nas redações para a busca de informações. Vale a noticia do policial militar que matou alguém e nunca foi noticiado quem era esse alguém.

Presenciei nos anos 70, lá do século passado uma blitz feita pelas duas policias, civil e militar, era tempos de caçar comunistas. Um ônibus de passageiro que serve a periferia foi parado por essa blitz. Sob o comando de uma voz autoritária pediu para que todos saíssem do ônibus. Lá no fundo dormia um senhor de aparência de 60 que pela figura maltratada podia ter menos. Um policial militar vendo que a ordem para que todos saíssem não fora atendida deu um safanão no dorminhoco que o atirou na calçada. Por descumprir a ordem dada foi alvo dos policiais. Deram uma geral no coitado que ainda estava tonto pela queda e pelo sono e nada achando que o comprometesse foram a bolsa de trabalho. Pelas ferramentas encontradas era fácil saber que era encanador.

Um jovem policial militar encontrou uma serra tico tico afiada onde na extremidade contraria uma fita enrolada para servir de cabo. Um ferramenta tão comum entre os encanadores Nas mãos desse jovem policial virou uma arma perigosa e sem demora o levaram pra delegacia.

Tentei contar historia desse possível encanador, quem, era, quanto ganha, se tinha filhos, mas a chefia de reportagem me negou essa chance. A verdade era oficial. Um homem de provavelmente de 50 anos foi apanhado com uma arma mortal.

É esse tipo de reportagem que Tim Lopes gostava de fazer. Na época, digo os anos 60 e 70, existia teve uma geração de jornalistas que agiam assim. Tive o prazer de trabalhar com Otavio Ribeiro, Pena Branca, na historia do assassinato de Angela Diniz pelo seu namorado Doca Street e uma personagem misteriosa Gabrielle Dayer.

Conto esses episódios para lembrar que o jornalismo foi mais interessante, pelo menos para quem fazia. Não existia nenhum glamour e a vedete não era o apresentador do jornal. O que interessava era a noticia.

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Jornalista cultural, tendo trabalhado nos principais veículos midiáticos nacionais e, durante 15 anos, chefiou a pauta e reportagem do programa Metrópolis da TV Cultura

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