Educação Financeira

Finanças Comportamentais

Finanças Comportamentais (FC) estudam o comportamento dos mercados financeiros de modo a incluir aspectos psicológicos em suas análises sem, contudo, abandonar diversos pressupostos da teoria econômica. É ramificação da Psicologia Econômica – o A2 publicou em outubro de 2009 uma coluna sobre este tema específico –, definida sinteticamente como o estudo do comportamento econômico de indivíduos e grupos, buscando fundamentar suas proposições em dados empíricos. Recorre a experimentos em laboratório, grandes levantamentos junto à população e observação direta dos fenômenos com vistas a conhecer e prever o comportamento dos indivíduos no que diz respeito a suas escolhas econômicas. Semelhantemente, as FC são um ramo da Psicologia Econômica – ou Economia Comportamental – que estuda a falibilidade humana em mercados competitivos.

Basicamente, as FC criticam alguns dos pressupostos da teoria econômica neoclássica e modelos de administração financeira, buscando explicar determinadas anomalias no mercado, que não podem ser consideradas apenas “ruídos”. Por isso, testes práticos são aplicados para compreender em detalhes o comportamento dos agentes, aplicando o conhecimento das ciências cognitivas e comportamentais advindas da psicologia.

Existem diversas definições para FC, mas elas não divergem muito entre si.   De qualquer forma, analisam como os seres humanos interpretam informações acerca de investimentos e como eles agem no momento de investir. Richard Thaler – conselheiro econômico de Obama em sua campanha presidencial e estudioso da área – aponta que em determinados momentos, para resolver alguns problemas financeiros, devemos aceitar a possibilidade de que os agentes do mercado podem agir de forma não totalmente racional.

Dessa forma, as FC examinam o que ocorre com os preços, os retornos e a alocação de recursos financeiros, quando diferentes tipos de investidores negociam entre si e apenas uma parcela deles possui racionalidade completa. Também não buscam definir o que é comportamento racional ou julgar se decisões tomadas estão corretas ou não. Devem sim entender e prever implicações no mercado causadas por processos psicológicos de tomada de decisão.

Enfim, para nós, agentes atuantes no mercado, os problemas surgem na hora de efetivar os investimentos. Independentemente da forma de gestão (passiva ou ativa) e análise do valor dos ativos (análise técnica ou fundamentalista), estamos sujeitos a influência de nossas emoções. Estas se refletem na posição adotada no mercado e em possíveis comportamentos “irracionais” por oposição à racionalidade proposta e esperada pela teoria tradicional (leia-se neoclássica).

A influência dos padrões recorrentes de comportamentos sobre a tomada de decisão e os riscos decorrentes são estudados pelas FC. Decisões precipitadas, impulsivas, e/ou emotivas que fogem à racionalidade na tomada de decisão e na alocação de recursos, podem levar investidores a perderem seu capital em mercado incerto e aparentemente caótico.

Todos os trabalhadores precisam de planejamento financeiro para a aposentadoria. O investidor decidirá como alocar seus recursos de acordo com seu perfil e ciclos de vida. Estes dois aspectos estão intimamente relacionados, pois investidores jovens podem correr mais riscos, pois terão o resto da vida profissional para se recuperarem de possíveis perdas em aplicações de renda variável. Enquanto que, investidores no final de sua vida profissional tenderão a arriscar menos, uma vez que o resgate de seus ativos será em breve. Eles não querem ter o azar de entrar em ciclo de baixa do mercado e efetivar prejuízos. De qualquer forma, o perfil do investidor depende da fase de seu ciclo de vida, mas não é apenas determinado por isto, pois existem jovens conservadores e trabalhadores em final de carreira arrojados.

O desenvolvimento do mercado financeiro brasileiro facilitaria o acesso à captação de recursos por parte das empresas através da colocação de papéis no mercado de capitais. Para que economias possam se desenvolver, é necessário que haja investimento, isto é, que parte do produto criado pela sociedade seja destinada à acumulação de meios de produção, aumentando sua capacidade produtiva. De forma mais detalhada, investimentos dependem das expectativas de lucro dos capitalistas e também da disponibilidade de dinheiro. As expectativas estão em função de variáveis macroeconômicas, como taxas de juros, inflação, câmbio e crescimento do PIB. O capital inicial pode ser obtido, grosso modo, de duas formas: o investidor pode possuí-lo previamente (acumulação através de processo produtivo, economizando parte de rendas passadas, herança, loteria, etc.), ou através de empréstimos. E é exatamente neste último aspecto que se insere a importância dos mercados acionários, gerando um maior dinamismo e facilidade no acesso a capitais (crédito).

Assim, a importância do estudo das Finanças Comportamentais reside, portanto, na possibilidade de favorecer a elaboração de bons planos de aposentadoria para os investidores*. E, no limite, colaboraria também para o conhecimento e desenvolvimento do mercado de capitais, pelo menos, o nacional, uma vez que aqui há elevadíssimo potencial de crescimento – já que temos cadastrados algo pouco acima de 500 mil CPF’s na Bovespa.

* fica para um próximo artigo as aplicações práticas das Finanças Comportamentais.

Fontes

ARANHA, Gustavo K. A psicologia humana e seus impactos nas decisões de investimento. Trabalho de Conclusão de Curso – Especialização e Atualização em Business Economics (não publicado). São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, 2006.

FERREIRA, Vera Rita de M. Psicologia Econômica: origens, modelos, propostas. Tese de doutorado – Programa de Pós-Graduados em Psicologia Social. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 2007.

NUNES, Bernardo F. Mapas de precificação de ativos no mercado de capitais: uma análise do poder prescritivo da Behavioral Finance. Dissertação de mestrado – Programa de Pós-Graduados em Economia. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.

SEWELL, Martin. Behavioural Finance. Artigo online, disponível em http://www.behaviouralfinance.net/behavioural-finance.pdf. Publicado em Fevereiro de 2007, revisado em Agosto de 2008.

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